quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O vento lá fora arrastava a terra seca na manhã.
A casa vazia, mal cuidada, era escura por dentro. Ele recostou na janela e agora olhava para o deserto, bege, amarelo, fervendo no calor já antes da quarta parte do dia. Não havia nada lá fora além da luz quente e entorpecente do sol, e nada além desse outro inferno, de sombras e nostalgia, do lado de dentro.

A velha saiu das sombras de um canto e disse:
- Horrível, não? Como tudo fica assim sem ele aqui. Sabe, o Velho Capitão odiava este lugar, dizia que o deserto entra dentro das pessoas...
Silêncio. Ela completou:
- Apesar de termos vencido, não sei como continuar.

Era verdade. Como continuar? Depois de tanto tempo, tantas batalhas, as mortes, o acidente no vale, a doença da menina mais nova que acabou sendo deixada para trás, a viagem quase impossível no norte durante o inverno; a última e definitiva vitória não dava a alegria conclusiva que um dia fora sonhada. O que contava agora, o que pesava, era toda a vida (por que não usar essa palavra?) gasta na campanha sangrenta e desgraçada desses homens. Sentia-se mal por ter sido transformado pelas experiências.

E como se houvesse razão nas palavras defuntas do Capitão, sentiu-se seco e parte do deserto. Enfim, não seria possível, nem valeria a pena, voltar à vida de antes, percebeu, à felicidade de antes. Felicidade, porque tudo que está no passado, embaçado e enfeitado pela memória, parece mais feliz, mais próspero, e tudo que está no hoje parece decadente. Mas ele decidiu que não iria ficar mais um dia naquele forno inerte de saudade e filosofia. Havia mudado com tudo, e continuaria mudando até morrer.

Fez força com os pensamentos e tirou da alma aquela areia.
Tirou de dentro o deserto.
Foi embora da casa naquele dia, precisava viver qualquer coisa.
Continuaria mudando até morrer.



H.G.S.