sábado, 14 de janeiro de 2012

A caminhada cinzenta dos imperadores

Numa planície cinza, cheia de névoa, cuja localização ninguém sabe, uma multidão caminhava. Sob um céu negro sem estrelas, como um exército de trilhões, eles andavam. Não marchavam. Um exército de reis.


Todos os reis traziam em suas mãos as próprias armas. Espadas, lanças, clavas e machados. Suas armaduras e escudos. Alguns com lâminas mais afiadas, alguns de armadura mais resistente. Alguns poucos tinham um maior brilho próprio do que o resto da multidão, e guiavam o resto. Erguiam suas bandeiras, cantavam e continuavam o caminho.


A imensa maioria dos imperadores sentia cansaço. Cada um sabia quanto pesava sua coroa. A coroa representava tudo aquilo que aquele ser dominava, e tudo aquilo que já havia vivido. Aquela enorme jornada estava incrustada nas veias de ouro e prata do símbolo real.


Alguns sentiam seu reino tão pesado sobre a cabeça, sobre os ombros, que desistiam da jornada, e cortavam suas gargantas com suas próprias armas. Caídos sobre a grama branca da planície lúgubre, não seriam carregados. Tinham de ser deixados para trás. Seus corpos eram decompostos e só sobravam suas vestes e ossos, e então veria-se que a coroa do defunto, mesmo que forjada do mais estável ouro, também havia sido transformada em pó com a putrefação.


Mas os que suportavam o peso de seus adornos, continuavam andando. Alguns deles até pensando quase sempre em, do mesmo modo que alguns companheiros, dar-se um fim. Pensavam alguns - não, na verdade, pensavam todos que não havia sentido nenhum em tudo aquilo.


E como pesavam suas coroas. Alguns largavam suas espadas e caiam de joelhos no chão. Nenhum deles estava sentado num trono, governando sem esforço, de um jeito ou de outro. Caiam no chão, ofegantes, tentando recuperar as forças. Depois, quase sempre, se levantavam e seguiam.


Para eles, a caminhada parecia longa, mas sabiam que, perto de todas as coisas existentes além da planície, ela era ínfima. E pesava. Uma multidão de reis caminhava, mas eles não caminhavam para uma grande batalha final, ou de volta a seus reinos, ou mesmo para um destino de imigração. Eles caminhavam diretamente para um grande abismo, mais negro que os céus, infinito, indolor, preenchido por esquecimento.


H.G.S.