quinta-feira, 12 de abril de 2012

recorte número [desconhecido]


H.G.S.

Darinka aguardou pacientemente, sentada no trono abandonado do templo em ruínas no topo do morro. Freya pisou todos os degraus da escadaria pensando em Ekon, e em como poria fim àquilo que sobrara dele, dentro dela. Ou aquilo, não que sobrara, mas que seria o espaço vazio que ele deixou nela quando morreu.
A Vermelha chegou então aos pés do trono irônico da Azul. Esta se levantou, empunhou o machado, que agora tem o nome de terrível e lendário, mas que, da última vez que aquela o viu, era apenas o machado de uma principiante. Darinka não conseguiu evitar o sorriso. Sorriu como quem ama o objeto que vê. Então começou a tremer, porque entendeu que ponto sua jornada finalmente havia atingido. O sorriso se desfez, e Freya deixou de ser uma memória feliz para ser o alvo de sua vingança - alvo que conduzira tudo, nestes últimos cinqüenta anos, até aqui. Freya sorriu, e nunca parou de sorrir.
“Alguma última declaração?”, quis saber Darinka, quando retomou o controle sobre seus nervos. Surpreendeu-se com tudo o que Freya tinha para dizer:
“De norte a sul, histórias são contadas. Dizem que um demônio azul, disfarçado de donzela, caminha por este mundo caçando os injustos e punindo-os com seu machado flamejante. E dizem que o demônio caça alguém em especial, desde o dia em que partiu das profundezas da Terra. Dizem que ele caça uma raposa vermelha, semeadora da impureza. É curioso pensar como os homens são bons contadores de histórias. O quão boas são suas alegorias.”
“Mas também me parece interessante notar que, apesar de este demônio azul ser justo, ele ainda é chamado de demônio. E a raposa, fonte do mal, é só uma raposa. Será que os nomes servem apenas para criar essa hierarquia de seres, que faz com que esperemos que o poderoso - bom ou mal - demônio vá um dia encontrar a - sempre insignificante - raposa, e destruí-la?”
“Meu ponto é: talvez você devesse pensar melhor sobre o mundo que ajuda em sua jornada. Os homens nunca... Enfim, mas a alegoria é muito boa.” - Freya empunhou sua lança - “Só existe uma coisa que foge demais à relação com a realidade, o machado flamejante. Isso é demais para o teu ego, garota.”
“Dizem que o demônio azul poderia atingir um dos leviatãs mais antigos com sua arma de chamas, e vencê-lo neste único golpe, tamanho é seu poder. Bem... Nunca encontramos leviatãs em nossas jornadas, não é? Garota...” - e sorriu para dizer as próximas palavras - “...E se eu nunca for quebrar?”
Darinka não disse nada, mas seu machado flamejou.