domingo, 16 de junho de 2013

História de amor número 17

de Daniel Pellizzari, publicado no livro Ovelhas que voam se perdem no céu.

A rua ainda estava cheia de água quando ele saiu para comprar o presente. Na primeira esquina em que parou o carro uma pedinte apareceu na janela com uma criança no colo. Abriu a carteira, tirou duas notas e disse Eu compro. A mulher pegou o dinheiro e entregou o bebê. Ele o acomodou no colo de modo que ainda pudesse dirigir e voltou pra casa.
Deu um banho na criança para tirar a sujeira da rua. Esfregou bem cada dobrinha, sem usar sabonete. Seguiu para a cozinha e o colocou sobre a mesa. Pegou na gaveta o martelo de bater carne e deu um só golpe entre os olhos. O crânio ainda macio se esfacelou e um pouco dos miolos se espalhou pela mesa. O que ainda sobrava retirou com uma colher e colocou em uma vasilha. Pegou a faca e abriu a barriga. Tirou as tripas tendo o cuidado de reservar o fígado, e o resto guardou para os cachorros.
Foi até a churrasqueira e preparou o fogo. Voltou, salgou a carne e a enfiou inteira no espeto duplo. Nos que sobraram espetou também cebolas e alguns tomates. Colocou tudo para assar e voltou à cozinha para preparar a sobremesa. Pegou a vasilha com miolos e colocou no liquidificador. Misturou com o pó de gelatina instantânea, colocou em uma panela e depois de pronto deixou na geladeira para ficar firme.
Os tomates e as cebolas acabaram queimando. Jogou fora e fez uma salada endívias enquanto a carne terminava de assar. Picou o fígado em pedacinhos, temperou com alho, sal e pimenta, adicionou salsa e azeitonas e fez uma farofa na manteiga. Preparou a mesa de jantar com os talheres de prata e os candelabros.
Tudo pronto, abriu o vinho, colocou a carne na travessa e depois na mesa, acendeu as velas, sentou na poltrona da sala e ficou no escuro esperando ela chegar. No horário de sempre a porta se abriu e ela entrou segurando o guarda-chuva. Ela a pegou pela mão e a levou até a sala de jantar.
Ele disse Feliz aniversário querida, e sorriu. Ela olhou para a mesa posta, balançou a cabeça, resmungou Porra você é mesmo grosso onde já se viu churrasco à luz de velas e com talheres de prata seu imbecil, esfregou as mãos e saiu direto para a cama do quarto.
Olhando para o chão, ele foi até a cozinha, abriu a geladeira e jogou a sobremesa no lixo. Naquela noite, mais uma vez, dormiu no sofá.