sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
ruir
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Ana, eu não gosto mais de você.
Sempre que Ana vinha com aquelas perguntas descaradamente cretinas eu pensava se ela, por um lapso de segundo qualquer, poderia se dar conta do quanto eu detestava seus interesses nada relevantes. Eu já não sabia mais se ela era relevante na minha vida, mas eu tinha uma ânsia quase jocosa quando ele me perguntava “esquerda ou direita”, “embaixo ou em cima”, “azul ou amarelo”.
Ana, saiba que nada disso importa. Meu signo não muda o fato de eu gostar de meter em você por trás... Minha camiseta de listras vermelhas não quer dizer que eu penso em te agradar ou ficar bonito para uma noite no cinema: é só mais uma noite de merda em que eu vou assistir algum filme estúpido, de qualidade duvidosa, para que você não chore pitangas demais no meu colarinho...
[Ana, eu não penso em nada. Nem em você.]
Ela queria saber a todo momento como eu passei o almoço de domingo ao lado da minha família. Queria saber se meu cachorro Brutus havia melhorado da doença no fígado,
{uma vez que nem eu, que era o dono daquele maldito labrador, lembrava que ele estava com hepatite, cirrose, sei lá}
ficava me perguntando se minha mãe já tinha entrado de férias – por que ela estava cansada, “falei com ela outro dia, Diogo. Ela disse que estava muito cansada. A Diana não anda fazendo o serviço direito em casa e as aulas na escola estão cada vez mais exaustivas. Me disse até que está pensando em passar um tempo naquele spa da Barra, que seu pai ficou nas férias passadas”.
O defeito de Ana era pensar que nos casaríamos.
Imagine se eu, no auto dos meus vinte anos, teria coragem de pensar em me casar com aquela garota que prestava vestibular e me deixava maluco dizendo que “morre se não entrar na Federal do Rio”...
Nunca pensei nisso.
Mas Ana pensava demais.
Não me deixava beber, nem fumar maconha enquanto surfava com os meus amigos. A transparência era uma qualidade totalmente afetada na nossa relação, por que ela me sufocava e as vezes eu queria matá-la. Tinha preguiça até de trepar com ela, por que sabia que depois de gozar, ao invés de deitar a bunda na cama e tirar um cochilo, ela ia querer me falar sobre amor e sobre como será a nossa vida depois que ela se mudasse de Niterói. Era um bombardeio cruel e, na verdade, eu poderia amar Ana.
Mas ela não me dava tempo para isso.
Durante todos os momentos em que eu pensava em amá-la (somente amá-la), nada menos sincero que isso, ela me vinha com indagações inúteis. Qual era o sentido em levar minha paciência até Júpiter só por que eu queria fazer um campeonato de quem goleava com a camisa do Flamengo no FIFA e arrotava mais alto com os meus amigos?
[Nunca proibi que ela fosse com aquela gangue de putas mirins no shopping comprar aqueles vestidinhos justos de vagabunda. Nunca impedi que ela passasse o dia a água e alface enquanto eu queria comer carne feito um pré-histórico.]
Ela tinha um sentimento de posse sobre mim. Me tratava feito um moleque de cuecas cagadas enquanto eu só era um moleque que pensou que ela fosse uma menina interessante.
Ana cresceu tão rápido quanto seus peitos, e, apesar de me culpar por isso, a culpa não era minha.
sábado, 28 de janeiro de 2012
muda/mundo/mudo
uma garganta apertada
que provém
não sei do que
e termina
não sei onde.
mundo
[mudo]
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
O segundo sexo
“(…) a lei ou os costumes impõem-lhe o casamento, proíbem as medidas anticoncepcionais, o aborto e o divórcio. São exatamente essas velhas coações do patriarcado que a URSS ressuscitou; reavivou teorias paternalistas do casamento; e com isso foi levada a pedir novamente à mulher que se torne objeto erótico: um discurso recente convidava as cidadãs soviéticas a cuidarem dos vestidos, a usarem maquilagem, a se mostrarem faceiras para reter seus maridos e incentivar-lhes o desejo. É impossível, vê-se por esse exemplo, encarar a mulher unicamente como força produtora; ela é para o homem uma parceira sexual, uma reprodutora, um objeto erótico, um Outro através do qual ele busca a si próprio.”
Simone de Beauvoir – O segundo sexo.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
DOORS PARA NÃO MORRER
indian summer
é a coisa que se escuta
com os sentidos aguçados
depois de dar um pito
sem lagrimas nos olhos,
mas com motivos para chorar.
enquanto sente o cérebro chapado
estatelado
olhando os pés
com aquelas malditas meias coloridas
que só se usa debaixo das asas dos pais.
sem uísque
sem larica
{sem porra nenhuma}
ouvindo
{cabeça no travesseiro, mão na nuca}
indian summer e só.
- de uma piração transcendente, meio mutante, meio esquizofrênica, meio entorpecente.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
D.E.S.O.R.D.E.M.

eu nasci
desordem.
respirei
até hoje
desordenada.
caguei no mundo,
trepei no mato,
me lasquei
e morri
desordem.
me fodi.
me foderam.
me perdi.
desordenada.
caótica.
fedendo
comendo
o cu do diabo.
amei todos os dias
todos os qualqueres
vulgares
perebentos
por que não valho
uma gota
de chuva
quiçá
de mijo.
lixo desumano
escoria desordenada
fracasso diariamente.
e minto
desordenadamente.
e minto
emito
e pinto
omito
(buceta)
minto.
me fode
forte.
transo
e transbordo.
27/02/1993 00:56
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
CAS 288.
24/08/1992 00:28
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Sur l'Etat: Cours au Collège de France, 1989-1992 (fragmento)
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
o velho leon e natália em coyoacán
Introdução de O Estrangeiro, Albert Camus
sábado, 7 de janeiro de 2012
Por Deus! Como odeio suas unhas...
Deus sabia o quanto eu detestava aquelas unhas vermelhas. Sabe o quanto eu achava insultante que uma garota como ela pintasse aquelas unhas como se fosse uma biscate – unhas roídas, além de tudo. Alem de ser coisa de puta sem vergonha, ela fazia questão de roe-las para que eu me lembrasse a todo momento que tinha apenas dezessete maus vividos anos.
Eu me culpava. Que tipo de homem era eu que tentava comer minha prima de dezessete anos? Que tipo de filho da puta tentava roubar a única preciosidade da vida do meu tio viúvo? Pensava a todo momento enquanto olhava as nádegas marejarem-se da esquerda para a direita fazendo meus olhos encherem-se dos sentimentos mais aputrefados que um homem poderia ter.
Puta que pariu, minha mãe não pode saber disso. Tio Roberto, se souber, me mata. Devo a vida a ele. Me inscreveu no vestibular da USP para geografia,
[naqueles anos em que uma carreira era só uma questão de habito. Naqueles anos quando meu sakete era o que me fazia ser rebelde, pichador Robin-Hood]
me deu emprego no cursinho do qual era coordenador. Me ensinou que eu deveria ser doutor.
Agora eu estava para defender meu doutorado e dava aulas de Geologia II numa universidade renomada onde os alunos (otários) pagavam dois mil e quinhentos paus na mensalidade.
Graças ao pai da menina que eu desejava [incessantemente] foder.
Faria todas as misérias do mundo com o corpo magricela de Clara. Ela não tinha o estereotipo de mulher que me encantaria, mas era Clara.
[Clarinha... como odeio suas unhas de dinossaura, bebe!]
A mesma que carreguei no colo enquanto estava com o corpo fendendo a maconha. Vinte anos eu tinha. E ainda era apaixonado pela Gabriela. Nunca imaginei que pudesse ter uma ereção ao ver Clara nadar naquele piscina maravilhosa da casa do Tio Roberto. Ainda mais com minha filha no colo, ali, recém nascida.
Será que algum dia vão querer comer minha filha? Serão todos tão imundos quanto eu?
Clara, não sei... mas se você quiser aprender sobre o relevo do corpo masculino, estarei aqui, frente a você.
Rígido.