terça-feira, 13 de dezembro de 2011

erótico

salamandra
psicodélica

na manteiga
na chapa
no mato

você é
biscoito fino,
baby...

sábado, 10 de dezembro de 2011

Não. Pela terceira vez.

Não sei qual fora a intenção de perguntar, mas perguntou. Enquanto eu estava cheirando a goró, perguntou se eu queria dançar por ali, no meio de muita gente, dançar arrastando os pés e dançar na ponta dos dedinhos magoados que são meus dedinhos dos pés. Se chegou perguntando por que eu dizia que tinha dormido com os braços enlaçados naquela noite, me indagou dizendo que a dissimulação é uma causa de sofrimento, me indagou – com as mãos no guardanapo azul, fuçando o paliteiro, equilibrando o azeite por cima do paliteiro sem me olhar nos olhos – dizendo que eu deveria ser sincera na maior parte das vezes, pois da sinceridade nasce a lealdade que falece um pouco todos os dias.

Me fez dizer qual era a cor de carro que mais me atraia, somente na intenção de descobrir se eu era mais uma dessas emergentes, ou se eu era aquilo que meus cabelos transpareciam. Eu, por inteira, transparecia um mar de desordens. Transtornos do sono, transtornos bipolares e transtornos byronianos que oscilavam tanto quanto a folha de alface crocante de rolava de um lado para o outro naquele beiço sem saliva. Enquanto as verduras cantarolavam dentro do céu da boca, Janis Joplin sussurrava bem baixo no meu tímpano estourado, compartilhando a angustia de que ela, tanto quanto eu, precisava de um homem que a amasse. Continuou ali, prostrado com as mãos caídas sobre a mesa, com olhos de lince rondando as quatro pontas de uma mesa redonda, pedindo que eu não olhasse seus olhos. Implorou que eu não deixasse cair, implorou por clemência e quase chamou a progenitora afim de que eu tivesse misericórdia. Falhou.

Pediu que eu botasse a cabeça no lugar, mas tudo o que eu conseguia ter em mente era a necessidade brutal de tirar os sapatos, o sutiã e mentir mais um pouco. Eu tinha necessidade de disfarçar a minha imensa vontade de vê-lo caído de quatro na minha frente, despido e desprotegido, pelado, com frio e com fome. Eram desejos sádicos que passeavam de um lado para o outro, do lóbulo frontal para o hemisfério esquerdo, fazendo barulhos de carros de corrida, fazendo ruídos estranhos. Dor de amor. Me doía, me deflorava como uma barragem que rompe um turbilhão de sentimentos dúbios e sofríveis. Por menos que eu quisesse, me tornei uma pessoal sofredora, capaz de fazer sangrar e rir a partir da dor de quem tivesse ao meu lado. Eu queria sentir cheiro de merda, fazia questão de sentir fortemente as agulhas nas veias azuis que me regavam. Porém, ainda estava ali, estaticamente posicionada olhando o movimento de suas mãos naquela toalha de seda preta.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Pães de queijo, frio e um cobrador gentil

Era um cobrador sangue bom. Não sei o nome dele, mas desde o princípio imaginei que pudesse ser Jorge, Jorjão, ou Paulo, Paulão. Pois ele era grande, de pele preta, mas tinha feições infantis. O típico homem capaz de destruir um templo, porem, tão inofensivo quanto eu. Encontrei-o ali no Largo da Batata – lugar horroroso no meio de um bairro bonito. Ficava mais feio e estranho quando olhávamos o Tomi Otaki, edifício medonho e bárbaro que habita o centro de São Paulo. Tomei o ônibus que me deixaria em casa. Sentei ao seu lado, junto com Helena que estava aparentemente cansada, faminta e com muito frio. Fez alguns malabarismos para entrar na cadeirinha que era seu local de trabalho, aquele assento minúsculo e grotesco para um cara daquele porte. Abriu o caixa e retirou de dentro um pacote de bolachas recheadas. “Qué?”, ofereceu aquilo que parecia ser um bom prato para duas damas perdidas num ônibus vazio. Com dor na alma, recusamos o lanche. Duas passarinhas deprimidas, sem água na fonte para tomar um banho quente e cantarolar, piar por aí.

Sua cabeça cambaleava numa filistria permanente de ir para cima e para baixo. O cobrador estava com sono, apesar de aparentar ter entrado a pouco tempo na condução – era visível que acabara de sair do banho, estava ainda perfumado e com a roupa bem passada. O monstrão parecia morar com a mamãe, tinha cara de muleque bem criado em igreja evangélica. Pedimos para que ele gentilmente nos informasse o ponto mais perto da nossa casa e ele afirmou com prioridade que nos diria, pedindo para que ficássemos tranqüilas. E ficamos. Passaram carros, pontos, semáforos, padarias, estacionamentos. Passou por nossa cabeça o suicídio, pois o que mais queríamos na vida era a ternura do lar após um dia cansativo na Praça do Por do Sol. Até o momento em que ele avisou para que descêssemos, deixando-nos no posto de gasolina errado. Eram dois pontos seguidos por postos de gasolinas da mesma corporação. Aquele cobrador infeliz deu uma pista falsa que elevou nossa alma ao maior grau de fúria possível num sábado a noite onde tudo era gélido e com cara de domingo.

Helena precisava mijar. Miramos uma dessas padarias da elite da Zona Oeste e resolvemos, cegas, adentrá-la. Sentimos uma falta incomensurável dos nossos pais quando avistamos aquele vinhos chilenos, portugueses, franceses. Sonhamos por exatos 12 segundos com a riqueza eterna e com a barriga quente de tanta comida burguesa: quatro pães de queijo, quatro salgadinhos de salsicha (que tinham o diâmetro menor que três centímetros cada) e cinco pães franceses. Debito de onze reais: é o preço que se paga por uma mijada. Não enfiamos o rabo entre as pernas, pois não tínhamos um rabo. Mas nossa possível expressão de ódio e indignação foi marcante. “O que? Por que ONZE reais?” Um punhado de emoções dúbias apenas numa volta para casa que não deveria, pela lei de todos os universos possíveis, se sair por onze preciosos reais.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

SUMA

(...)

vim aqui dizer também
que quero que você suma
e em suma, quero sumir.
que é para não te ver
que é para espantar a Babylon de mim
que é pra tirar isso da cabeça
e "por o resto no lugar."

náusea: é o que você me causa
com essa personalidade mutante
metamorfoseando a minha cabeça
fazendo o meu pescoço cair
cada vez que alguma lamuria
escapa da tua boca
e pinga junto com saliva
na minha testa.


vim aqui dizer também,
que te quero.
porém, com muito pesar...
com muita tristeza
e com extrema alegria
de ter te descoberto ontem
para poder viver
rindo e catando
na minha cidade natal.

domingo, 27 de novembro de 2011

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

‎"Eu vou te contar que voce não me conhece e eu tenho que gritar isso por que você esta surdo e nao me ouve. A sedução me escraviza a você. Ao fim de tudo, você permancece comigo, mas preso ao que eu criei e não a mim. Quanto mais falo sobre a verdade inteira, um abismo maior nos separa... Você não tem um nome e eu tenho; você é um rosto na multidão e eu sou o centro das atenções. Mas a mentira da aparência do que eu sou e a mentira da aparência do que você é: por que eu não sou o meu nome e você não é ninguém. O jogo perigoso que eu pratico aqui, ele busca chegar ao limite possível de aproximação através da distancia e do reconhecimento dela. Entre eu e você existe a noticia, que nos separa. Eu quero que voce me veja a mim. Eu me dispo da noticia e a minha nudez, parada, te denuncia e te espelha. Eu me delato. Tu me relatas. Eu nos acuso e confesso por nós. Assim, me livro das palavras com as quais você me veste."

Maria Bethania

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

EXCEÇÃO

"Entre todos os revezes
Eu descobri:
com você
[e por você]

eu teria um filho.

Por você
[e com você]

meus dias não estariam contados.

Despindo a vergonha,
Jogando bosta na cara
De uma família inteira.

Por você
[e com você]

Eu teria uma família."

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O homem da cicatriz

De dia, escrever, tomar cafezinhos, ler jornais no McDonald's. De noite, beber Jack Daniel's, comer chocolates ou cus, ler um livro sobre o surrealismo francês e pensar como ficaria seu corpo lá embaixo estatelado no asfalto, chapado de maconha. De dia, no PC, escrever mensagens, mandar cerca de trinta e-mails das 9 às 6, contando coisas pessoais, extremamente pessoais, ouvindo isso de outras pessoas, tratando de assuntos pseudamente profissionais, pedindo coisas, favores, retribuindo, oferecendo favores e gentilezas, quase sempre muito gentil, mesmo, e tudo enquanto trabalha, ou seja, o que é trabalhar? Quase não fazer nada, conversa fiada transubstanciada em memorandos, anotações, idéias, resenhas sobre fatos alheios e reuniões em que se finge um interesse inviável pelo que diz o chefe, passeando pelos corredores vazios da firma assuntos como futebol ou guerra, elogiando ou metendo o pau, dissimulando intrigas e mexericos, comentando as bundas das mulheres, e, se der sorte, numa hora de almoço perdida no tempo, foder aquela assistente gostosinha [desesperado estupro da noite no dia]; de noite, ou muito devagar ou muito muito rápido, no Mac, tentar escrever, num simulacro de diário, sua vida reinventada, criando mentiras aos amigos, rindo falso no telefone, comendo coisas estranhas e quase sempre mulheres estranhas, estranhas que de repente ficam bem naturais, essas mulheres de mil anáguas e calcinhas e aí nuas nuasnuas de dizer até mesmo eu te amo.

O dia rasurado por signos conhecidos, a rotina equacionada pra não dar errado nunca. Nunca o sinal se abrir lento demais, nunca o carro da frente demorar, nunca chover pra caralho ou fazer sol além do bastante, nunca falar com o mendigo no semáforo, nunca cometer imprudências ou desperdiçar bons-dias, esconder-se, profundamente de si esconder-se, no cansaço do sono, na pedra do sonho, lavrando a certeza de que amanhã sim, amanhã talvez. E todo dia, entre madrugada e manhã, a cicatriz cada vez mais aberta e funda, entre crepúsculo e lua formulários agonizam, secretárias se ocultam nas casas dos maridos, assistentes viram um porre, vais pra puta que pariu que morreram amargos no âmago da garganta, e então a sede, a sede da noite, porém junto um arrependimento, de sensação de lixo, suor grosso expulso dos poros, expulso do dia, e então exilado, insulado. [Mas mais preciso. Pois a cada despertar, outro delírio abortado.] Um dia, ligar o foda-se. Um dia, a noite plena. O sol que se dane. A cicatriz, o próprio sol.

Vila Madalena [SP], outono, 1999

Ronaldo Bressane

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Desconheço

Porra louca.

Intensamente sensível.

Mas, porra louca...

Errante freqüente,

Dramática e doente.

Vim me desdizer,

Pois de mais ninguém posso fazê-lo

Pela legitimidade do fato que alego:

Só me conheço a eu e a mim mesma.

Mas de minha doença

Não posso falar sequer um verbo

Uma vez que não a conheço

E mais que isso:

Desconheço.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Náusea

Me causaste tanta dor que a náusea foi irremediável. A dor, anteriormente metafísica, era agora sentina na superfície da minha carne, na região abdominal, no tórax e no rosto, pois apesar de todo o esforço brutal, não consegui derramar sequer uma lagrima. Incrivelmente, eu não consegui derramar as malditas lágrimas. Mas o esgotamento que você fez ocorrer me deixou por alguns segundos com a garganta fechada, gelada e quente ao mesmo tempo. Ficou dolorida, como se as palavras que eu havia de dizer fossem espinhos a sair da minha boca para profanar tua existência.

Todo esse enjôo, esse mal estar funesto e esse drama sem vertente, me fizeram constatar que você tem um caráter solúvel. Nunca me permiti estar em nenhum tipo de relacionamento com individuos de caráter solúvel. Minhas amigas do colégio, por mais putanas que fossem, ainda tinham algum tipo de principio oculto no âmago de suas vaginas. Mas, você demonstrou que só tem resíduos de humanidade correndo no sangue. Resíduos: não mais que isso.

Quando me deitei na cama e acendi o abajour, senti que ela capaz de golfar no seu rosto. Senti que se a sua figura aparecesse repentinamente em frente a mim, eu era capaz de sujar sua roupa com o meu asco perante as suas atitudes. Senti minha pele mergulhar no esgoto conforme eu remoia aquelas cenas, aqueles gestos e aquelas vulneráveis palavras – provenientes do seu vulnerável vocabulário que sempre se encabula diante de mim. Meus olhos estavam estaticamente estalados enquanto eu olhava para o teto vazio. Com as mãos cruzadas sobre a pança, em posição de defunta, eu esperava as indagações passarem uma a uma rapidamente pelo meu cérebro derretido.

Por mais que eu me sentasse aos pés do meu leito e rogasse aos céus que o choro viesse, eu não consegui molhar o rosto. Nenhuma vez, de nenhuma maneira. A minha podridão ainda não foi expelida e continua a rondar minhas vísceras. Você transformou uma dor transcendente numa dor carnal. Egoísta que foi, me roubou o direito de soluçar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Tão insignificante quanto uma pomba branca

Sentada, ela fazia um colar de contas para o casamento. Estava com as pernas cruzadas, vestindo uma calcinha azul marinho, uma blusa bege que usava para dormir e um chinelo de quarto. Balançava as pernas enquanto ouvia os diálogos dramáticos da novela - a novela sim, um drama que fazia sua existência funestamente vazia oscilar entre emoções e calmarias do cotidiano da gente rica que aparecia na tela. Esforçava o dedão do pé para não perder o chinelo. Periodicamente ajeitava os óculos por cima do nariz minúsculo.

Contava as pérolas falsas que ia colocando alinhadamente no fio de náilon; não tinha atenção para nada que não fosse aquele colar de contas proveniente de pérolas falsas. Estava ali, tão avulsa quanto a matrioshka da estante, tão alheia ao mundo quanto as taças de vinho do armário da cozinha. Estava ali, fabricando um colar e pensando em seu uso no dia do casamento da prima bonita que tanto invejava desde a adolescência na paroquia de São José. Ela queria ser um sucesso, pois também desejava um marido.

Desviou o olhar para aquela bonequinha russa e começou a percorrer o devaneio que se formava em sua mente. Ficou pensando em quantas aquele enfeite era capaz de se desdobrar e ficou análoga a aquele pensamento. Concluía pouco a pouco que ela, por sua vez, era uma matrioshka presa no corpo de uma mulher e a ultima das miniaturas era ela como fêmea endiabrada. O lado luxurioso da vida ela não tinha. Tudo parava ali, aquela era a ultima instancia: o viés sexual da filistria diária. Era capaz de ser estudante, trabalhadora, filha e amiga. Mas nunca mulher.

Bianca jamais havia se tocado. Já ouvira das amigas que a sensação era sublime; algo parecido com subir aos céus e descer flutuando vagarosamente. No alto de seus vinte e oito anos, ainda não tinha experimentado o prazer do gozo. Divagou sozinha sobre isso por um tempo significativo enquanto preenchia os espaços daquele colar de contas. Seu dedo era virgem e sua boceta também. Ela era a ultima virgem entre as mulheres da terra.

Uma gota de sangue no sofá. A agulha trapaceou sua ética e furou o dedo de quem a botava na labuta. Foi quando a moça prostrou-se na frente da televisão, viu uma cena de nudez e não enxergou sua realidade. Observou a o sutiã da atriz voluptuosa, percebeu que os olhos do galã estavam em chamas e que tudo aquilo era pecaminoso demais para ela. Voltou para o colar de contas, anulou denovo a sua ânsia e decidiu fazer sucesso no casamento de sua prima bonita. Ou pelo menos, tentar.

domingo, 28 de agosto de 2011

sulcos

hoje o vento soprou sulcos no relevo
e eu não via você ao meu lado.

eu não via você ao meu lado.

eu não via você.

hoje eu tive fortes dores
e não sabia a quem dizer,
pois eu não via você.

não via você.

desde sempre você sumiu,
mas apenas hoje

eu não vi.

sábado, 27 de agosto de 2011

Texto sem revisão. Numa cagada. Eu sou louca.

Eu não sei se o rapaz da livraria sabia o que estava me vendendo. Também não sei se era pretensão minha achar que Hunter Thompson e Marx pudessem ser tão importantes assim... Bem, pretensão eu sei que não era: jamais serei capaz de negar a importância de Karl Marx, por que eu gosto dessa historia de comunismo. E anarquismo. E tudo que é contra. Até o gonzo do Hunter pra mim é contrario. E os olhos do rapaz da livraria não eram contrários, mas me eram estranhos. Dois olhos que eu nunca tinha visto me vendendo obras primas. Coisa de valos inestimável... Coisa de louco.
Esse moço estava me vendendo o gozo impresso e não sabia. Pelas mãos dele a minha alegria foi materializada. Matéria, materialismo, eu materialista. Já deixei de comer para ler. Já deixei de comer para alimentar os neurônios que me restam. Afinal, Amy morreu disso: cigarro, maconha e álcool. Não, ela não morreu assim, mas foi isso que me disseram ontem. Só para me assustar.

De qualquer forma eu não me assusto mais, apesar das suposições que afirmam que deve ser difícil ser eu. Eu não odeio nada, meu rei... Eu só odeio o sistema. Abomino a própria maquina que me faz ser capaz de guardar o manifesto comunista no sutiã. É culpa da bufunfa se hoje eu posso dormir com Engels me soprando ideias enquanto repouso tranquila com minha cabeça no travesseiro. Eu durmo e tenho sonhos intensos. Eu acordo e tenho sonhos intensos. Eu vivo por isso mesmo.

Será que o rapaz do caixa vive imerso na intensidade ou é um trabalhador alienado no meio do caos? Eu não sei... Eu não vi isso nos olhos dele... Eu sei que ele precisa comprar remédio, água e biscoito. Mas um livro igual ao meu eu não sei se ele compra.

Eu não conheço ninguém. Eu só divago.

Meus pés estão gelados.
Desculpa, vou calçar um sapato.

Meu livro novo escorregou do meu colo e uma mulher afobada me perguntou se eu vou pra São Roque. Não, eu vou pra Catanduva. "Catanduvas é frio né?" Não, moça. Catanduva - no singular - não é fria. Não respondi isso, logico. Mas pensei e disse a ela que é calor. E ela se sentiu confortável para conversar enquanto eu queria ler. Me perdoe a falta de humanidade, mas eu não troco essas letrinhas pela sua companhia. Sabe que ainda ontem, eu e meu amigo-irmão ficamos o dia todo encurralados na cama; lendo. Ele recitava pra mim e eu recitava pra ele. Encontrei uma coisa que eu gosto de fazer com ele alem de sexo: ler. Qualquer coisa mesmo, mas ler junto com ele.

Olha só, o ônibus chegou!
Tem um policial atras de mim, uma véia na minha frente e o motorista se chama Pedro, igual ao meu amigo. Aqui dentro tá quente. Lá fora eu estava tremendo, mas aqui dentro eu ameaço suar. Espero que liguem o ar condicionado rápido. Já estou em plena agonia. Por fora da janela os corpos tremem. Por dentro dela, eu fico suada. E me irrito.

Me lembro denovo de ter comprado dois livros. Pois é, os últimos trinta reais que ocupavam a minha carteira foram parar nas mãos do rapaz de olhar desconhecido. Depois no caixa. E depois - ou antes - no cofre da editora. Um livro de bolso que tem como tema o manifesto do partido comunista e custa onze reais. Tem exploração aí! Espera mais um minuto que eu vou comer.

Uma criança dá berros estrondosos ao meu lado. Estamos num ônibus fechado, sem escapatória e e essa cena me faz ter certeza de que filhos nao farão parte da minha biografia. Nem os fones de ouvido me poupam desse choco infernal. Criança maldita! Jorge Ben, me de uma mão?

"Cadê Tereza? Onde anda a minha Tereza?" Por onde ando eu? Sou Terê ou Andrê? Por onde ando eu, que tenho dois nomes, duas mãos e um corpo só? Segunda não vai ser fácil. Eu vou ao banco... Será que o rapaz do caixa da livraria tem divida no cheque especial? Eu espero que não. Esse tipo de transtorno eu não quero ver ninguém passar. Alias, seria engraçado ver o Eike Batista quebrado e devendo para o banco... Sendo mortal, igual a mim e ao rapaz do caixa. Não desejo o mal, só estou sendo iconoclasta. Ele é um icone: o homem mais rico do Brasil. Chega a ser mistico. Ou não. Um diabo em corpo de gente. Será que o rapaz da livraria sabe quem é ele?

Olha só, Catanduva está quente...

Espera um segundo, vou descalçar os tênis.

sábado, 13 de agosto de 2011

nota:

Eu não gosto de contato visual - por obrigação. Elevador lotado com cheiro de gente conhecida estranha... Não gosto de acenar sem vontade, nem de abraço sem saudade. Pois as pessoas são dúbias e constantemente mascaradas. Racionais e atentas, corujas que não giram o pescoço, mas que observam o movimento alheio com uma sapiência destra e deveras rasteira. As pessoas sufocam... São em demasia cansativas.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ordem e Exatidão

Chegando assim, manso
E vindo me dizer
"I wanna be your dog!"

Despindo a vergonha
Jogando bosta na cara
De uma família inteira...

Pois é,
Entre todos os revezes
Eu descobri:
com você
(e por você)


eu teria um filho.



Eu pediria
Inversamente
Para ser um cão.

Eu admitiria a dependência.

Eu assumiria a saudade
De uma vida.

Por você
Eu faria da existência
A minha dança
Maior que Pina.

E somente por você
Meus dias não estariam
Contados.

Com sangue
Eu aviso assim:

Te amo.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

sim

sede
suor
sangue.

sede, sede
suor, suor, suor
sangue, sangue, sangue.

sede
suor
sangrando.

sede
de sangue
e suor
sangrando.

sede
de sangue
e suor.

sudoriparas.

suor
sede
e sangue.

nas coxas.