sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Além do bem e do mal
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
23/06/92
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Na casa do caralho. Ou no cu do mundo.
O mundo é grande.
O mundo é vasto.
O mundo
é
imundo.
A velha com os pés rachados sabe que o mundo é o que aparenta. Sabe que ele é nada menos do que deveria ser e que suas escaras não significam nada para ninguém. A vendedora da loja – com uma deplorável cara de mal comida, mal gozada e mal amada – que exclama a síntese banal “Boa tarde! Já tem o cartão C&A?” não sabe que a velha sofre. Não imagina que o maior desejo dela é que enfie o cartão no cu. Ela não se interessa por nada, só pelo feijão que esta prestes a queimar no fogo alto, pois seu neto de onze anos fica ali parado derramando sorvete na bermuda que, mais tarde, será lavada pela mesma velha. “Esse moleque é um otário, um bostinha que não serve pra nada”, pensa.
Ela está puta.
Odeia as menininhas que caminham pelo shopping center com suas saias disfarçadas de armadilhas sexuais. Ela odeia o estacionamento e os carros importados que ficam parados ali. Odeia saber que precisa viver, pois sua fé não permite que coloque fim na própria vida.
As pessoas são um mar de escrotidão.
[uma punheta mal batida]
As pessoas querem foder umas as outras como se o amanhã fosse uma bomba nuclear a estourar debaixo dos colchões. Desejam foder intensamente como se a conseqüência fosse passageira ou inexistente.
Filistram num aterro adornado com corações abatidos suas hipocrisias e descontentamentos.
No mundo só existem peruas plastificadas trepando com michês ignorantes enquanto seus maridos comem a secretaria
[mãe de quatro filhos, que precisa de um emprego]
[filhos engolindo a porra de estranhos. Sorrindo.]
.
Matei uma formiga no caminho de volta para a casa. Enxerguei ela de longe por que estava usando meus detestáveis e incômodos óculos. Sabia que a mataria e o fiz mesmo assim. Foda-se a merda da formiga. Ela é tão pequena quanto eu.
[mais fácil de ser matada.]
Enquanto não percebem a minha pequenez, tentam me assassinar aos poucos.
Uma dose por dia.
Eu escolhi matar de vez aquela formiga imbecil. Não senti pena, sequer ternura ou apreço por aquele bicho trabalhador. Sou um trator ambulante andando num mato cheio de
sapos, bosta de cavalo, chorume, água suja, mijo e camisinha de cu comido.
Minha vida continuou a desgraça constante que é, assim como é a vida de meu pai e de meus amigos que foram criados por baixo da lona de um circo chamado cristianismo. Nós estamos todos nesse buraco de bosta, amados.
Louvemos a deus por esse agraciado presente.
"Se Jesus existisse mesmo, eu até chupava o pau dele."
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Ode de sede - por hora, a molecagem.
Ah, a malandragem...
A malevolência.
O jeito de andar jogado.
O desequilíbrio entre os pés e as mãos...
Usam constantemente a malandragem como se soubessem manuseá-la. Querem enfiar a mão por dentro do decote alheio a qualquer custo.
[não sentem vergonha disso]
A arma mais perigosa que um falo espertinho pode possuir.
E eu, que depois de aprender a mentir para os homens, peguei essa ação desumana como regra: gosto de menininhos indefesos que se acreditam muito poderosos. Se meus quadris acompanharem a dança lenta desses pés, o gozo será imediato. Haverá uma invasão de suor
e rios de cabelos nos travesseiros do Bob Esponja
e cuecas minúsculas caídas pelo chão do quarto
e camisinhas refrescantes (ora aquelas que esquentam)
e cadarços segurando as bermudas largas daqueles corpinhos sem bunda
e pílulas do dia seguinte.
Não. Não há nada mais doce.
[não posso enxergar, onde está?]
Nada é mais açucarado do que aquela voz tentando escalar a minha suposta grandiosidade intelectual,
a minha falta de vergonha,
a minha necessidade de afronta,
o meu ataque mais letal: a capacidade de enganar.
[olhos balouçantes, molengos]
{quentes}
São ventríloquos. Na minha mão, são ventríloquos. Para os quais eu conto historias
[mas antes disso, ouço historias desinteressantes só para ver naqueles olhinhos a felicidade por estarem enchendo a mulher amada de curiosidade.]
para os quais eu dou meus ombros afim de que repousem ofegantes.
Moleques são mais amorosos. Eles não tentam dar uma aula sobre o bouquet daquele vinho Frances,
[que eu costumo roubar no Pão de Açúcar, sempre acompanhada de um molecote gentil]
ou sobre o quão difícil é sair de casa, pois eles já passaram por isso.
Eles querem, incessantemente e somente, arrancarem risos eufóricos da minha garganta.
Eles querem fazer careta ao embeber meu Royal Salute.
Eles querem me provar, por tudo aquilo que é mais sublime no mundo, que:
The Doors > Led Zeppelin.
. . .
Apaixonantes.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
12/09/91
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
por Victor Bauab
Era, mas era há 2 minutos atrás.
Enquanto fumava meu último
(último?)
cigarro da noite
Me vinha a mente as nossas noites
aqui, nessa mesma sacada
Com as mesmas músicas que oscilam, vascilam, nos confortam, nos marejam os olhos
e são nossas
Aquela velha - ou não - máquina de fotos em que fazíamos poses
ora bizarras, oras genias.
Me veio as confissões
As desilusões e desabafos
Carinhos, afagos
Numa dualidade sentimental
que significam o amor - um amor puro e mais nada.
Me veio até a xana peludinha da FY enquanto tentava me vestir de John Corleone.
Veio o amor que guardo para você.
Por favor, meu amor, minha nêga, minha musa
Faz isso de novo amanhã?
Posso ajoelhar em seus pés
ou te encher de beijos
ou até mesmo atirar dessa mesma sacada que me cobre
Mas vem me dar isso de novo.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
sábado, 10 de dezembro de 2011
Não. Pela terceira vez.
Não sei qual fora a intenção de perguntar, mas perguntou. Enquanto eu estava cheirando a goró, perguntou se eu queria dançar por ali, no meio de muita gente, dançar arrastando os pés e dançar na ponta dos dedinhos magoados que são meus dedinhos dos pés. Se chegou perguntando por que eu dizia que tinha dormido com os braços enlaçados naquela noite, me indagou dizendo que a dissimulação é uma causa de sofrimento, me indagou – com as mãos no guardanapo azul, fuçando o paliteiro, equilibrando o azeite por cima do paliteiro sem me olhar nos olhos – dizendo que eu deveria ser sincera na maior parte das vezes, pois da sinceridade nasce a lealdade que falece um pouco todos os dias.
Me fez dizer qual era a cor de carro que mais me atraia, somente na intenção de descobrir se eu era mais uma dessas emergentes, ou se eu era aquilo que meus cabelos transpareciam. Eu, por inteira, transparecia um mar de desordens. Transtornos do sono, transtornos bipolares e transtornos byronianos que oscilavam tanto quanto a folha de alface crocante de rolava de um lado para o outro naquele beiço sem saliva. Enquanto as verduras cantarolavam dentro do céu da boca, Janis Joplin sussurrava bem baixo no meu tímpano estourado, compartilhando a angustia de que ela, tanto quanto eu, precisava de um homem que a amasse. Continuou ali, prostrado com as mãos caídas sobre a mesa, com olhos de lince rondando as quatro pontas de uma mesa redonda, pedindo que eu não olhasse seus olhos. Implorou que eu não deixasse cair, implorou por clemência e quase chamou a progenitora afim de que eu tivesse misericórdia. Falhou.
Pediu que eu botasse a cabeça no lugar, mas tudo o que eu conseguia ter em mente era a necessidade brutal de tirar os sapatos, o sutiã e mentir mais um pouco. Eu tinha necessidade de disfarçar a minha imensa vontade de vê-lo caído de quatro na minha frente, despido e desprotegido, pelado, com frio e com fome. Eram desejos sádicos que passeavam de um lado para o outro, do lóbulo frontal para o hemisfério esquerdo, fazendo barulhos de carros de corrida, fazendo ruídos estranhos. Dor de amor. Me doía, me deflorava como uma barragem que rompe um turbilhão de sentimentos dúbios e sofríveis. Por menos que eu quisesse, me tornei uma pessoal sofredora, capaz de fazer sangrar e rir a partir da dor de quem tivesse ao meu lado. Eu queria sentir cheiro de merda, fazia questão de sentir fortemente as agulhas nas veias azuis que me regavam. Porém, ainda estava ali, estaticamente posicionada olhando o movimento de suas mãos naquela toalha de seda preta.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Pães de queijo, frio e um cobrador gentil
Era um cobrador sangue bom. Não sei o nome dele, mas desde o princípio imaginei que pudesse ser Jorge, Jorjão, ou Paulo, Paulão. Pois ele era grande, de pele preta, mas tinha feições infantis. O típico homem capaz de destruir um templo, porem, tão inofensivo quanto eu. Encontrei-o ali no Largo da Batata – lugar horroroso no meio de um bairro bonito. Ficava mais feio e estranho quando olhávamos o Tomi Otaki, edifício medonho e bárbaro que habita o centro de São Paulo. Tomei o ônibus que me deixaria em casa. Sentei ao seu lado, junto com Helena que estava aparentemente cansada, faminta e com muito frio. Fez alguns malabarismos para entrar na cadeirinha que era seu local de trabalho, aquele assento minúsculo e grotesco para um cara daquele porte. Abriu o caixa e retirou de dentro um pacote de bolachas recheadas. “Qué?”, ofereceu aquilo que parecia ser um bom prato para duas damas perdidas num ônibus vazio. Com dor na alma, recusamos o lanche. Duas passarinhas deprimidas, sem água na fonte para tomar um banho quente e cantarolar, piar por aí.
Sua cabeça cambaleava numa filistria permanente de ir para cima e para baixo. O cobrador estava com sono, apesar de aparentar ter entrado a pouco tempo na condução – era visível que acabara de sair do banho, estava ainda perfumado e com a roupa bem passada. O monstrão parecia morar com a mamãe, tinha cara de muleque bem criado em igreja evangélica. Pedimos para que ele gentilmente nos informasse o ponto mais perto da nossa casa e ele afirmou com prioridade que nos diria, pedindo para que ficássemos tranqüilas. E ficamos. Passaram carros, pontos, semáforos, padarias, estacionamentos. Passou por nossa cabeça o suicídio, pois o que mais queríamos na vida era a ternura do lar após um dia cansativo na Praça do Por do Sol. Até o momento em que ele avisou para que descêssemos, deixando-nos no posto de gasolina errado. Eram dois pontos seguidos por postos de gasolinas da mesma corporação. Aquele cobrador infeliz deu uma pista falsa que elevou nossa alma ao maior grau de fúria possível num sábado a noite onde tudo era gélido e com cara de domingo.
Helena precisava mijar. Miramos uma dessas padarias da elite da Zona Oeste e resolvemos, cegas, adentrá-la. Sentimos uma falta incomensurável dos nossos pais quando avistamos aquele vinhos chilenos, portugueses, franceses. Sonhamos por exatos 12 segundos com a riqueza eterna e com a barriga quente de tanta comida burguesa: quatro pães de queijo, quatro salgadinhos de salsicha (que tinham o diâmetro menor que três centímetros cada) e cinco pães franceses. Debito de onze reais: é o preço que se paga por uma mijada. Não enfiamos o rabo entre as pernas, pois não tínhamos um rabo. Mas nossa possível expressão de ódio e indignação foi marcante. “O que? Por que ONZE reais?” Um punhado de emoções dúbias apenas numa volta para casa que não deveria, pela lei de todos os universos possíveis, se sair por onze preciosos reais.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
SUMA
domingo, 27 de novembro de 2011
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
EXCEÇÃO
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
O homem da cicatriz
De dia, escrever, tomar cafezinhos, ler jornais no McDonald's. De noite, beber Jack Daniel's, comer chocolates ou cus, ler um livro sobre o surrealismo francês e pensar como ficaria seu corpo lá embaixo estatelado no asfalto, chapado de maconha. De dia, no PC, escrever mensagens, mandar cerca de trinta e-mails das 9 às 6, contando coisas pessoais, extremamente pessoais, ouvindo isso de outras pessoas, tratando de assuntos pseudamente profissionais, pedindo coisas, favores, retribuindo, oferecendo favores e gentilezas, quase sempre muito gentil, mesmo, e tudo enquanto trabalha, ou seja, o que é trabalhar? Quase não fazer nada, conversa fiada transubstanciada em memorandos, anotações, idéias, resenhas sobre fatos alheios e reuniões em que se finge um interesse inviável pelo que diz o chefe, passeando pelos corredores vazios da firma assuntos como futebol ou guerra, elogiando ou metendo o pau, dissimulando intrigas e mexericos, comentando as bundas das mulheres, e, se der sorte, numa hora de almoço perdida no tempo, foder aquela assistente gostosinha [desesperado estupro da noite no dia]; de noite, ou muito devagar ou muito muito rápido, no Mac, tentar escrever, num simulacro de diário, sua vida reinventada, criando mentiras aos amigos, rindo falso no telefone, comendo coisas estranhas e quase sempre mulheres estranhas, estranhas que de repente ficam bem naturais, essas mulheres de mil anáguas e calcinhas e aí nuas nuasnuas de dizer até mesmo eu te amo.
O dia rasurado por signos conhecidos, a rotina equacionada pra não dar errado nunca. Nunca o sinal se abrir lento demais, nunca o carro da frente demorar, nunca chover pra caralho ou fazer sol além do bastante, nunca falar com o mendigo no semáforo, nunca cometer imprudências ou desperdiçar bons-dias, esconder-se, profundamente de si esconder-se, no cansaço do sono, na pedra do sonho, lavrando a certeza de que amanhã sim, amanhã talvez. E todo dia, entre madrugada e manhã, a cicatriz cada vez mais aberta e funda, entre crepúsculo e lua formulários agonizam, secretárias se ocultam nas casas dos maridos, assistentes viram um porre, vais pra puta que pariu que morreram amargos no âmago da garganta, e então a sede, a sede da noite, porém junto um arrependimento, de sensação de lixo, suor grosso expulso dos poros, expulso do dia, e então exilado, insulado. [Mas mais preciso. Pois a cada despertar, outro delírio abortado.] Um dia, ligar o foda-se. Um dia, a noite plena. O sol que se dane. A cicatriz, o próprio sol.
Vila Madalena [SP], outono, 1999
Ronaldo Bressane
