uma garganta apertada
que provém
não sei do que
e termina
não sei onde.
mundo
[mudo]
uma garganta apertada
que provém
não sei do que
e termina
não sei onde.
mundo
[mudo]
“(…) a lei ou os costumes impõem-lhe o casamento, proíbem as medidas anticoncepcionais, o aborto e o divórcio. São exatamente essas velhas coações do patriarcado que a URSS ressuscitou; reavivou teorias paternalistas do casamento; e com isso foi levada a pedir novamente à mulher que se torne objeto erótico: um discurso recente convidava as cidadãs soviéticas a cuidarem dos vestidos, a usarem maquilagem, a se mostrarem faceiras para reter seus maridos e incentivar-lhes o desejo. É impossível, vê-se por esse exemplo, encarar a mulher unicamente como força produtora; ela é para o homem uma parceira sexual, uma reprodutora, um objeto erótico, um Outro através do qual ele busca a si próprio.”
Simone de Beauvoir – O segundo sexo.
indian summer
é a coisa que se escuta
com os sentidos aguçados
depois de dar um pito
sem lagrimas nos olhos,
mas com motivos para chorar.
enquanto sente o cérebro chapado
estatelado
olhando os pés
com aquelas malditas meias coloridas
que só se usa debaixo das asas dos pais.
sem uísque
sem larica
{sem porra nenhuma}
ouvindo
{cabeça no travesseiro, mão na nuca}
indian summer e só.
- de uma piração transcendente, meio mutante, meio esquizofrênica, meio entorpecente.

eu nasci
desordem.
respirei
até hoje
desordenada.
caguei no mundo,
trepei no mato,
me lasquei
e morri
desordem.
me fodi.
me foderam.
me perdi.
desordenada.
caótica.
fedendo
comendo
o cu do diabo.
amei todos os dias
todos os qualqueres
vulgares
perebentos
por que não valho
uma gota
de chuva
quiçá
de mijo.
lixo desumano
escoria desordenada
fracasso diariamente.
e minto
desordenadamente.
e minto
emito
e pinto
omito
(buceta)
minto.
me fode
forte.
transo
e transbordo.
Deus sabia o quanto eu detestava aquelas unhas vermelhas. Sabe o quanto eu achava insultante que uma garota como ela pintasse aquelas unhas como se fosse uma biscate – unhas roídas, além de tudo. Alem de ser coisa de puta sem vergonha, ela fazia questão de roe-las para que eu me lembrasse a todo momento que tinha apenas dezessete maus vividos anos.
Eu me culpava. Que tipo de homem era eu que tentava comer minha prima de dezessete anos? Que tipo de filho da puta tentava roubar a única preciosidade da vida do meu tio viúvo? Pensava a todo momento enquanto olhava as nádegas marejarem-se da esquerda para a direita fazendo meus olhos encherem-se dos sentimentos mais aputrefados que um homem poderia ter.
Puta que pariu, minha mãe não pode saber disso. Tio Roberto, se souber, me mata. Devo a vida a ele. Me inscreveu no vestibular da USP para geografia,
[naqueles anos em que uma carreira era só uma questão de habito. Naqueles anos quando meu sakete era o que me fazia ser rebelde, pichador Robin-Hood]
me deu emprego no cursinho do qual era coordenador. Me ensinou que eu deveria ser doutor.
Agora eu estava para defender meu doutorado e dava aulas de Geologia II numa universidade renomada onde os alunos (otários) pagavam dois mil e quinhentos paus na mensalidade.
Graças ao pai da menina que eu desejava [incessantemente] foder.
Faria todas as misérias do mundo com o corpo magricela de Clara. Ela não tinha o estereotipo de mulher que me encantaria, mas era Clara.
[Clarinha... como odeio suas unhas de dinossaura, bebe!]
A mesma que carreguei no colo enquanto estava com o corpo fendendo a maconha. Vinte anos eu tinha. E ainda era apaixonado pela Gabriela. Nunca imaginei que pudesse ter uma ereção ao ver Clara nadar naquele piscina maravilhosa da casa do Tio Roberto. Ainda mais com minha filha no colo, ali, recém nascida.
Será que algum dia vão querer comer minha filha? Serão todos tão imundos quanto eu?
Clara, não sei... mas se você quiser aprender sobre o relevo do corpo masculino, estarei aqui, frente a você.
Rígido.
O mundo é grande.
O mundo é vasto.
O mundo
é
imundo.
A velha com os pés rachados sabe que o mundo é o que aparenta. Sabe que ele é nada menos do que deveria ser e que suas escaras não significam nada para ninguém. A vendedora da loja – com uma deplorável cara de mal comida, mal gozada e mal amada – que exclama a síntese banal “Boa tarde! Já tem o cartão C&A?” não sabe que a velha sofre. Não imagina que o maior desejo dela é que enfie o cartão no cu. Ela não se interessa por nada, só pelo feijão que esta prestes a queimar no fogo alto, pois seu neto de onze anos fica ali parado derramando sorvete na bermuda que, mais tarde, será lavada pela mesma velha. “Esse moleque é um otário, um bostinha que não serve pra nada”, pensa.
Ela está puta.
Odeia as menininhas que caminham pelo shopping center com suas saias disfarçadas de armadilhas sexuais. Ela odeia o estacionamento e os carros importados que ficam parados ali. Odeia saber que precisa viver, pois sua fé não permite que coloque fim na própria vida.
As pessoas são um mar de escrotidão.
[uma punheta mal batida]
As pessoas querem foder umas as outras como se o amanhã fosse uma bomba nuclear a estourar debaixo dos colchões. Desejam foder intensamente como se a conseqüência fosse passageira ou inexistente.
Filistram num aterro adornado com corações abatidos suas hipocrisias e descontentamentos.
No mundo só existem peruas plastificadas trepando com michês ignorantes enquanto seus maridos comem a secretaria
[mãe de quatro filhos, que precisa de um emprego]
[filhos engolindo a porra de estranhos. Sorrindo.]
.
Matei uma formiga no caminho de volta para a casa. Enxerguei ela de longe por que estava usando meus detestáveis e incômodos óculos. Sabia que a mataria e o fiz mesmo assim. Foda-se a merda da formiga. Ela é tão pequena quanto eu.
[mais fácil de ser matada.]
Enquanto não percebem a minha pequenez, tentam me assassinar aos poucos.
Uma dose por dia.
Eu escolhi matar de vez aquela formiga imbecil. Não senti pena, sequer ternura ou apreço por aquele bicho trabalhador. Sou um trator ambulante andando num mato cheio de
sapos, bosta de cavalo, chorume, água suja, mijo e camisinha de cu comido.
Minha vida continuou a desgraça constante que é, assim como é a vida de meu pai e de meus amigos que foram criados por baixo da lona de um circo chamado cristianismo. Nós estamos todos nesse buraco de bosta, amados.
Louvemos a deus por esse agraciado presente.
"Se Jesus existisse mesmo, eu até chupava o pau dele."
Ah, a malandragem...
A malevolência.
O jeito de andar jogado.
O desequilíbrio entre os pés e as mãos...
Usam constantemente a malandragem como se soubessem manuseá-la. Querem enfiar a mão por dentro do decote alheio a qualquer custo.
[não sentem vergonha disso]
A arma mais perigosa que um falo espertinho pode possuir.
E eu, que depois de aprender a mentir para os homens, peguei essa ação desumana como regra: gosto de menininhos indefesos que se acreditam muito poderosos. Se meus quadris acompanharem a dança lenta desses pés, o gozo será imediato. Haverá uma invasão de suor
e rios de cabelos nos travesseiros do Bob Esponja
e cuecas minúsculas caídas pelo chão do quarto
e camisinhas refrescantes (ora aquelas que esquentam)
e cadarços segurando as bermudas largas daqueles corpinhos sem bunda
e pílulas do dia seguinte.
Não. Não há nada mais doce.
[não posso enxergar, onde está?]
Nada é mais açucarado do que aquela voz tentando escalar a minha suposta grandiosidade intelectual,
a minha falta de vergonha,
a minha necessidade de afronta,
o meu ataque mais letal: a capacidade de enganar.
[olhos balouçantes, molengos]
{quentes}
São ventríloquos. Na minha mão, são ventríloquos. Para os quais eu conto historias
[mas antes disso, ouço historias desinteressantes só para ver naqueles olhinhos a felicidade por estarem enchendo a mulher amada de curiosidade.]
para os quais eu dou meus ombros afim de que repousem ofegantes.
Moleques são mais amorosos. Eles não tentam dar uma aula sobre o bouquet daquele vinho Frances,
[que eu costumo roubar no Pão de Açúcar, sempre acompanhada de um molecote gentil]
ou sobre o quão difícil é sair de casa, pois eles já passaram por isso.
Eles querem, incessantemente e somente, arrancarem risos eufóricos da minha garganta.
Eles querem fazer careta ao embeber meu Royal Salute.
Eles querem me provar, por tudo aquilo que é mais sublime no mundo, que:
The Doors > Led Zeppelin.
. . .
Apaixonantes.