domingo, 27 de novembro de 2011
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
EXCEÇÃO
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
O homem da cicatriz
De dia, escrever, tomar cafezinhos, ler jornais no McDonald's. De noite, beber Jack Daniel's, comer chocolates ou cus, ler um livro sobre o surrealismo francês e pensar como ficaria seu corpo lá embaixo estatelado no asfalto, chapado de maconha. De dia, no PC, escrever mensagens, mandar cerca de trinta e-mails das 9 às 6, contando coisas pessoais, extremamente pessoais, ouvindo isso de outras pessoas, tratando de assuntos pseudamente profissionais, pedindo coisas, favores, retribuindo, oferecendo favores e gentilezas, quase sempre muito gentil, mesmo, e tudo enquanto trabalha, ou seja, o que é trabalhar? Quase não fazer nada, conversa fiada transubstanciada em memorandos, anotações, idéias, resenhas sobre fatos alheios e reuniões em que se finge um interesse inviável pelo que diz o chefe, passeando pelos corredores vazios da firma assuntos como futebol ou guerra, elogiando ou metendo o pau, dissimulando intrigas e mexericos, comentando as bundas das mulheres, e, se der sorte, numa hora de almoço perdida no tempo, foder aquela assistente gostosinha [desesperado estupro da noite no dia]; de noite, ou muito devagar ou muito muito rápido, no Mac, tentar escrever, num simulacro de diário, sua vida reinventada, criando mentiras aos amigos, rindo falso no telefone, comendo coisas estranhas e quase sempre mulheres estranhas, estranhas que de repente ficam bem naturais, essas mulheres de mil anáguas e calcinhas e aí nuas nuasnuas de dizer até mesmo eu te amo.
O dia rasurado por signos conhecidos, a rotina equacionada pra não dar errado nunca. Nunca o sinal se abrir lento demais, nunca o carro da frente demorar, nunca chover pra caralho ou fazer sol além do bastante, nunca falar com o mendigo no semáforo, nunca cometer imprudências ou desperdiçar bons-dias, esconder-se, profundamente de si esconder-se, no cansaço do sono, na pedra do sonho, lavrando a certeza de que amanhã sim, amanhã talvez. E todo dia, entre madrugada e manhã, a cicatriz cada vez mais aberta e funda, entre crepúsculo e lua formulários agonizam, secretárias se ocultam nas casas dos maridos, assistentes viram um porre, vais pra puta que pariu que morreram amargos no âmago da garganta, e então a sede, a sede da noite, porém junto um arrependimento, de sensação de lixo, suor grosso expulso dos poros, expulso do dia, e então exilado, insulado. [Mas mais preciso. Pois a cada despertar, outro delírio abortado.] Um dia, ligar o foda-se. Um dia, a noite plena. O sol que se dane. A cicatriz, o próprio sol.
Vila Madalena [SP], outono, 1999
Ronaldo Bressane
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Desconheço
Porra louca.
Intensamente sensível.
Mas, porra louca...
Errante freqüente,
Dramática e doente.
Vim me desdizer,
Pois de mais ninguém posso fazê-lo
Pela legitimidade do fato que alego:
Só me conheço a eu e a mim mesma.
Mas de minha doença
Não posso falar sequer um verbo
Uma vez que não a conheço
E mais que isso:
Desconheço.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Náusea
Me causaste tanta dor que a náusea foi irremediável. A dor, anteriormente metafísica, era agora sentina na superfície da minha carne, na região abdominal, no tórax e no rosto, pois apesar de todo o esforço brutal, não consegui derramar sequer uma lagrima. Incrivelmente, eu não consegui derramar as malditas lágrimas. Mas o esgotamento que você fez ocorrer me deixou por alguns segundos com a garganta fechada, gelada e quente ao mesmo tempo. Ficou dolorida, como se as palavras que eu havia de dizer fossem espinhos a sair da minha boca para profanar tua existência.
Todo esse enjôo, esse mal estar funesto e esse drama sem vertente, me fizeram constatar que você tem um caráter solúvel. Nunca me permiti estar em nenhum tipo de relacionamento com individuos de caráter solúvel. Minhas amigas do colégio, por mais putanas que fossem, ainda tinham algum tipo de principio oculto no âmago de suas vaginas. Mas, você demonstrou que só tem resíduos de humanidade correndo no sangue. Resíduos: não mais que isso.
Quando me deitei na cama e acendi o abajour, senti que ela capaz de golfar no seu rosto. Senti que se a sua figura aparecesse repentinamente em frente a mim, eu era capaz de sujar sua roupa com o meu asco perante as suas atitudes. Senti minha pele mergulhar no esgoto conforme eu remoia aquelas cenas, aqueles gestos e aquelas vulneráveis palavras – provenientes do seu vulnerável vocabulário que sempre se encabula diante de mim. Meus olhos estavam estaticamente estalados enquanto eu olhava para o teto vazio. Com as mãos cruzadas sobre a pança, em posição de defunta, eu esperava as indagações passarem uma a uma rapidamente pelo meu cérebro derretido.
Por mais que eu me sentasse aos pés do meu leito e rogasse aos céus que o choro viesse, eu não consegui molhar o rosto. Nenhuma vez, de nenhuma maneira. A minha podridão ainda não foi expelida e continua a rondar minhas vísceras. Você transformou uma dor transcendente numa dor carnal. Egoísta que foi, me roubou o direito de soluçar.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Tão insignificante quanto uma pomba branca
Sentada, ela fazia um colar de contas para o casamento. Estava com as pernas cruzadas, vestindo uma calcinha azul marinho, uma blusa bege que usava para dormir e um chinelo de quarto. Balançava as pernas enquanto ouvia os diálogos dramáticos da novela - a novela sim, um drama que fazia sua existência funestamente vazia oscilar entre emoções e calmarias do cotidiano da gente rica que aparecia na tela. Esforçava o dedão do pé para não perder o chinelo. Periodicamente ajeitava os óculos por cima do nariz minúsculo.
Contava as pérolas falsas que ia colocando alinhadamente no fio de náilon; não tinha atenção para nada que não fosse aquele colar de contas proveniente de pérolas falsas. Estava ali, tão avulsa quanto a matrioshka da estante, tão alheia ao mundo quanto as taças de vinho do armário da cozinha. Estava ali, fabricando um colar e pensando em seu uso no dia do casamento da prima bonita que tanto invejava desde a adolescência na paroquia de São José. Ela queria ser um sucesso, pois também desejava um marido.
Desviou o olhar para aquela bonequinha russa e começou a percorrer o devaneio que se formava em sua mente. Ficou pensando em quantas aquele enfeite era capaz de se desdobrar e ficou análoga a aquele pensamento. Concluía pouco a pouco que ela, por sua vez, era uma matrioshka presa no corpo de uma mulher e a ultima das miniaturas era ela como fêmea endiabrada. O lado luxurioso da vida ela não tinha. Tudo parava ali, aquela era a ultima instancia: o viés sexual da filistria diária. Era capaz de ser estudante, trabalhadora, filha e amiga. Mas nunca mulher.
Bianca jamais havia se tocado. Já ouvira das amigas que a sensação era sublime; algo parecido com subir aos céus e descer flutuando vagarosamente. No alto de seus vinte e oito anos, ainda não tinha experimentado o prazer do gozo. Divagou sozinha sobre isso por um tempo significativo enquanto preenchia os espaços daquele colar de contas. Seu dedo era virgem e sua boceta também. Ela era a ultima virgem entre as mulheres da terra.
Uma gota de sangue no sofá. A agulha trapaceou sua ética e furou o dedo de quem a botava na labuta. Foi quando a moça prostrou-se na frente da televisão, viu uma cena de nudez e não enxergou sua realidade. Observou a o sutiã da atriz voluptuosa, percebeu que os olhos do galã estavam em chamas e que tudo aquilo era pecaminoso demais para ela. Voltou para o colar de contas, anulou denovo a sua ânsia e decidiu fazer sucesso no casamento de sua prima bonita. Ou pelo menos, tentar.
domingo, 28 de agosto de 2011
sulcos
sábado, 27 de agosto de 2011
Texto sem revisão. Numa cagada. Eu sou louca.
sábado, 13 de agosto de 2011
nota:
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Ordem e Exatidão
sexta-feira, 29 de julho de 2011
sim
o som do cavaco
terça-feira, 26 de julho de 2011
Dia desses
Sendo observada pelos únicos olhos do lugar, Catarina permanecia sentada de frente para o psicanalista fascinada pela pintura posicionada na parede de trás. A falta de cabelos dele refletia a pouca luz do lugar, levando-a a concentrar-se em tudo, menos na analise.
Saiu do consultório, vestiu um casaco e armou-se com seus inseparáveis óculos escuros. Sentia fortes dores no estômago, náuseas infernais e uma imensa falta de ar – o que não era motivo plausível o suficiente para que ela não retirasse um maço de cigarros da bolsa. Acenou para um táxi, sentou-se e delirou ao redor das palavras de Gabriel Garcia Marquez em seu memorável “Memória de minhas putas tristes”. Não tomou nota acerca do transito caótico da capital paulistana, tampouco do menino malabarista que desdobrava-se clamando por um trocado qualquer. Era mais uma vez seu livro preferido quem a completava e tomava toda a atenção de Catarina.
Ao subir as escadas de seu apartamento assombroso, sentiu tudo aquilo que não havia ingerido remoer suas vísceras, esmagando fígado, pulmão e coração, que agora, pulsava acelerado. Não tardou a entrar em casa e esparramar no chão um golfo imundo e fétido. Arrastou-se até a geladeira e embebeu da garrafa alguns densos goles de água fria. Jogou-se nua na cama, flutuou feito uma pena desprovida de forças: lembrou-se de que as regras estavam demasiadamente atrasadas.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Prece
Já Bocage não sou!... À cova escura Meu estro vai parar desfeito em vento... Eu aos céus ultrajei! O meu tormento Leve me torne sempre a terra dura. Conheço agora já quão vã figura Em prosa e verso fez meu louco intento. Musa!... Tivera algum merecimento, Se um raio da razão seguisse, pura! Eu me arrependo; a língua quase fria Brade em alto pregão à mocidade, Que atrás do som fantástico corria: Outro Aretino fui... A santidade Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia, Rasga meus versos, crê na eternidade!
Manuel Maria Barbosa du Bocage