quarta-feira, 22 de junho de 2011

Inverno-Inferno (cont.)

Era maio. Inverno tão frio que, durante o banho, deixava o mijo escorrer-lhe entre as pernas: estreitamente a única coisa quente em seu corpo nu, tremulo. Não era mês para propiciar aquela gélida sensação... São Paulo estava mostrando-se menos acolhedora do que nunca, mais concreta, mais distanciadora. Agora ela passava a chegar em casa e encontrar um imenso vazio. Antes tudo era convidativo, aconchegante e tinha o calor de um respectivo lar. Hoje a televisão encontrava-se no chão, apoiada numa caixa de papelão marrom. Os pratos estavam carentes de armários e com isso recolhiam poeira sobre a única mesa do lugar. Ela repousava no sofá devido aos problemas respiratórios que tanto atormentavam seu sono, afinal, não possuía mais uma cama, apenas um colchão.

Fitou aquela angustia expressa em coisas avulsas distribuídas pelos cantos e sacou a Polaroid que herdou do pai de dentro da caixa de relíquias. Resolveu presentear-se com fotografias daquele inferno por ela vivido. Avida ficava mais bonita com aquelas fotos tonalizadas pelo ar antigo proporcionado pelo equipamento. Cercou o piso com as imagens da sua derrota. Embebeu uma dose de uísque causando desconforto para sua garganta, pois Catarina não se servia com nada alem de vinho tinto seco. Despiu-se. Fotografou a vulva, os seios, os pés, os olhos... espalhou tudo pelo apartamento escuro e após outro gole de um Bucchanan’s ganhado por Ciro, amigo de Alberto, recostou-se numa poltrona suja e, em alfa, descansou.

Iria recordar a sensação daquelas unhas tempos depois. Sentiria o toque de cada digital sobre os pelos cerrados debaixo, até o redor do umbigo, até a sobrancelha protuberante daquela face, que em face da saudade, lembrava-se de fatos ocorridos anos antes. Viria a ser uma daqueles saudosistas, que presos em sua eternidade não esquecem o sofrimento pois posicionam o êxtase acima de qualquer proposta.

Saudoso Benê

de mãos ritmadas
canatavamos
e a vida fez-se triste
e bela.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Hoje

Não estaria plena a ponto de ouvir aquele som denovo. Não me senti confortável ao sentir aquelas digitais denovo. Tampouco ao sentir aquele cheiro.
Como num ritual regrado e cercado de uma mistificação ignorante, sentei e vi o que havia para ser visto. A apatia fez-se completa, meu rosto não expressou sequer admiração e continuei a respirar. Por incrível que pareça, ainda estou viva e posso continuar a viver, comer, andar, falar, mijar e pensar. Eu continuei sendo um corpo, como jamais deveria deixar de ser e como jamais deveria imaginar não ser.
Aqueles três dias na cama me serviram de remédio para a gripe e para que eu me situasse nos fatos ainda pendentes de uma mente insana.
Comprar pão ainda é parte da rotina, fazer café também. Ver os onibus passando cheios "de pernas amarelas", ver as madames e seus bibelôs peludos e ver os bêbados que habitam o bar: tudo isso continuou a existir, como a vida que está aparte em mim agora.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

vit.

sejamos etéreos
e não sejamos nada
nunca.

sábado, 11 de junho de 2011

Continente África

Aqui só tem retalho

Dourado

Vermelho

E verde.

Aqui só tem retalho

De preto

De branco

De gente.

Tem “samba de preto véio

E samba de maracatu”

Aqui tem umbanda

Tem candomblé

Tem Iemanjá

E mainha pra me acompanhá...

Tem gente mostrando

A pintura no olho

Refletindo riqueza

Exaltando a beleza

Desse pedaço de chão

Bebendo o mar

Chamando o povo

Gritando samba,

Sambando o grito

Dos excluídos

Pois “só quem sabe onde é Luanda

Saberá lhe dar valor...”

Aqui tem construção no mato

Tem europeu vislumbrado

Criança rimando

As falas de um cancioneiro

Cor de jambo

Que dança, que sacode o pé ali

Que decanta a África

Explora o batuque

E eleva nosso espirito...

Aqui tem gente que molda a gente

Que bronzeia as nossas areias

Que comove o menino

Que bete bola em Copa,

Que faz malandragem na Tijuca...

“Chegou a hora dessa gente bronzeada

Mostrar seu valor...”

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Inverno-Inferno



“Escrevo quando estou feliz. Mas escrevo belamente apenas no luto.
É com gotas de sangue, suor e lagrimas que eu emociono, quebro expectativas e cativo. No do meio do caos a escrita flui como se falasse no ouvido do leitor... E no olho do furacão as palavras se encaixam, ficam feito tijolinhos numa parede estreita: eles precisam estar milimetricamente posicionados para que nada desabe além da minha tristeza. As palavras devem caber nos olhos de quem as consome sendo a prosa poética de cada dia.”

Pensamento escrito por Catarina num guardanapo bege.
26-06-04



No trabalho tudo estava com deveria estar. Os mares de tormento não batiam mais a porta e o momento criativo daquela eximia professora – que sonhava frustrada em ser escritora – estava correndo rapidamente entre o espaço do pensamento, cérebro, lapidação e mãos sufocando uma caneta sobre um papel qualquer. Seus amigos não compactuavam com o erro por ela cometido, porém, estavam sempre prontos para servir o ombro em respeito ao triste deleite da companheira.

A despeito da sensatez, o artista é mais brilhante quando passa por crises profundas e tortuosas. Essa foi a conclusão da mestra Catarina, que desprendendo-se dos apegos materiais da vida, resolveu viver a angustia e descobrir o quão profundo era o seu poço. Entregou-se num lapso de segundo para um período considerável de sua existencia.

domingo, 29 de maio de 2011

Hijo de puta

filhos?
do meu ventre não brotarão.
nem do mundo,
nem adota-los eu quero.

filhos?
longe da minha vista estejam...
não por falta de sensibilidade,
ou por que choram,
ou pois narizes escorrem...

filhos?
jamais da minha rotina farão parte,
não desejo vê-los,
nem toca-los,
nem brinda-los...

filhos?
somente os de amigos,
conhecidos,
familiares:
esses eu hei de admirar
e adorar...

filhos,
não vos quero presentes.
nada pelo simples fato de não ama-los,
ou de ser má,
ou de ser severa...

filhos,
não vos quero
apenas pois não me imagino sendo
os diabos que são hoje
os meus detestados pais.

terça-feira, 24 de maio de 2011

São Paulo, SP

em São Paulo todo dia é frio.
todo dia é dia de condolência, de tristeza.
contas a pagar remetem ao caos;
a vida passa fria e distante:
escorrendo.
pelos dedos nossos
e de todos eles,
que vivem e habitam
os piores becos,
os mais molhados,
mais úmidos
e fétidos.

a vida escorre pelas mãos de quem vive aqui.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Egon

Eu acho
Que num divia
Existi
A gramatica.

Eu acho
Que num divia
Existi
As regra.

Qui mi sucumbi,
Qui mi maltrata,
Qui mi degola...

Eu acho
Que portugueis de rico
É feio,
É franceis.

Eu acho
Que nóis falanu
É bunito
É acunchenganti.

Eu acho
Que pra falá
De amor
Tudu presta.

Eu acho
Que pra nóis vivê
Tá tudu bom
Desdi que
Eu entenda ucê...

Eu tô cansada
Do portugueis
Postuguês.

Qui mi incoli
Qui mi iscondi
Que me ata

E mata-me.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

a pétala dobrada

me dá essa musiquinha
nessa fonte noveau
nesse papelzinho dourado
nessa sala desordenada.

deixa o solzinho entrar
é de manhã, é domingo...

me dá um beijinho
no meu rostinho,
no meu pézinho,
em tudo meu...

me dá aqui essa presença
esse presente lindo
esse suspiro prolongadamente

. . .

demorado.

me dá a tua vidinha
pr'eu cuidar dela
juro que cuido direitinho...

me dá aqui,
eu te seguro
e
te liberto!

ah, meu deus...
bendito seja o dia,
a hora,
o momento exato,
a ordem das galáxias...

ah, meu deus,

bendito seja o dia que eu encontrei você.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Re: (Mudança.)

você mudou esse pampeiro quando você quis.
agora eu mudei fica de boa flw

náusea

fique quieta um pouco, Tereza
você me dá azia,
você me causa ansia...

fique relaxada por um momento, Tereza
assim você me enlouquece,
me escurece as vistas...

fique em transe, Tereza
assim você se acalma,
assim você me esquece...

terça-feira, 10 de maio de 2011

UMA

é como um casaco de veludo no inverno:
seus olhos indo e vindo, encontrando abrigo
nos meus olhos pelados, nuinhos
vazios, abrigando a imensidão das folhas
caindo num dia de outono,
antecedendo esse inferno inverno.

se fosse de bom grado ou sinal de educação
estaria presa em teu corpo
implorando para que você me proteja
do gelo que escorre das folhas alaranjadas
que não é mais orvalho
mas sim, matéria sólida significando a falta de afago.

bem bonita seria essa paisagem
miragem surrealista em meio ao vendaval
cortando a tua tez alva
refletindo a tristeza da vida nossa
pisando esse chão cinza
cheirando a poeira da cidade

fazendo da vida o que ela é por exelencia
regozijando de êxtase no centro da alegria
vivendo apenas aquilo que me é de direito
aquilo que deve, por justiça, por sensatez
ser meu pertence dourado
isolando esse frio astuto e malandro
que envolve as minha linfas,
não tão brancas quanto as tuas,
numa noite de maio.

não haverá consequencia infinita
nunca haverá paz absoluta que reine
sob a minha coroa de majestade
que adquiri por meio da insolência
por meio da displiscencia
de uma vida cercada de medo, loucura
frigidez e pouca cura
deste imenso sulco cavado por ela
na superfície da nossa existência.

domingo, 8 de maio de 2011

oculto

uma divisão
de dois pés
sob um pano verde
e a luz do sol
por cima.

uma divisão
de um braço aqui
e o outro
lá.

uma divisão
de uma barba aqui
uma unha vermelha
ali.

uma divisão
de cabeças
rolando
entre cobranças

injustas.

uma divisão
de uma mãe
e um pai

mãe nesta face
pai naquela

divisão
injusta.

uma separação
casca grossa
que gerou
uma divisão
de vida

e

felicidade.

purple

deita essa garrafa
bebe mais um pouco
esquece esse tormento

e vem
me dizer
a velha nova
da noite.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

IPT

Aqui, na aula de pentecostes
Há uma igreja pequena
Onde se diz:
"Deus é amor!"

Meu Deus é amor
Só o meu Deus salva
Quando está embriagado
De vinho e cachaça podre.

Aqui, nesta sala
Que ferve feito o inferno
Meu Deus não entra
Pois ele gosta de frio

Maconha
Soda
Rock
E sexo seguro.