sábado, 27 de agosto de 2011

Texto sem revisão. Numa cagada. Eu sou louca.

Eu não sei se o rapaz da livraria sabia o que estava me vendendo. Também não sei se era pretensão minha achar que Hunter Thompson e Marx pudessem ser tão importantes assim... Bem, pretensão eu sei que não era: jamais serei capaz de negar a importância de Karl Marx, por que eu gosto dessa historia de comunismo. E anarquismo. E tudo que é contra. Até o gonzo do Hunter pra mim é contrario. E os olhos do rapaz da livraria não eram contrários, mas me eram estranhos. Dois olhos que eu nunca tinha visto me vendendo obras primas. Coisa de valos inestimável... Coisa de louco.
Esse moço estava me vendendo o gozo impresso e não sabia. Pelas mãos dele a minha alegria foi materializada. Matéria, materialismo, eu materialista. Já deixei de comer para ler. Já deixei de comer para alimentar os neurônios que me restam. Afinal, Amy morreu disso: cigarro, maconha e álcool. Não, ela não morreu assim, mas foi isso que me disseram ontem. Só para me assustar.

De qualquer forma eu não me assusto mais, apesar das suposições que afirmam que deve ser difícil ser eu. Eu não odeio nada, meu rei... Eu só odeio o sistema. Abomino a própria maquina que me faz ser capaz de guardar o manifesto comunista no sutiã. É culpa da bufunfa se hoje eu posso dormir com Engels me soprando ideias enquanto repouso tranquila com minha cabeça no travesseiro. Eu durmo e tenho sonhos intensos. Eu acordo e tenho sonhos intensos. Eu vivo por isso mesmo.

Será que o rapaz do caixa vive imerso na intensidade ou é um trabalhador alienado no meio do caos? Eu não sei... Eu não vi isso nos olhos dele... Eu sei que ele precisa comprar remédio, água e biscoito. Mas um livro igual ao meu eu não sei se ele compra.

Eu não conheço ninguém. Eu só divago.

Meus pés estão gelados.
Desculpa, vou calçar um sapato.

Meu livro novo escorregou do meu colo e uma mulher afobada me perguntou se eu vou pra São Roque. Não, eu vou pra Catanduva. "Catanduvas é frio né?" Não, moça. Catanduva - no singular - não é fria. Não respondi isso, logico. Mas pensei e disse a ela que é calor. E ela se sentiu confortável para conversar enquanto eu queria ler. Me perdoe a falta de humanidade, mas eu não troco essas letrinhas pela sua companhia. Sabe que ainda ontem, eu e meu amigo-irmão ficamos o dia todo encurralados na cama; lendo. Ele recitava pra mim e eu recitava pra ele. Encontrei uma coisa que eu gosto de fazer com ele alem de sexo: ler. Qualquer coisa mesmo, mas ler junto com ele.

Olha só, o ônibus chegou!
Tem um policial atras de mim, uma véia na minha frente e o motorista se chama Pedro, igual ao meu amigo. Aqui dentro tá quente. Lá fora eu estava tremendo, mas aqui dentro eu ameaço suar. Espero que liguem o ar condicionado rápido. Já estou em plena agonia. Por fora da janela os corpos tremem. Por dentro dela, eu fico suada. E me irrito.

Me lembro denovo de ter comprado dois livros. Pois é, os últimos trinta reais que ocupavam a minha carteira foram parar nas mãos do rapaz de olhar desconhecido. Depois no caixa. E depois - ou antes - no cofre da editora. Um livro de bolso que tem como tema o manifesto do partido comunista e custa onze reais. Tem exploração aí! Espera mais um minuto que eu vou comer.

Uma criança dá berros estrondosos ao meu lado. Estamos num ônibus fechado, sem escapatória e e essa cena me faz ter certeza de que filhos nao farão parte da minha biografia. Nem os fones de ouvido me poupam desse choco infernal. Criança maldita! Jorge Ben, me de uma mão?

"Cadê Tereza? Onde anda a minha Tereza?" Por onde ando eu? Sou Terê ou Andrê? Por onde ando eu, que tenho dois nomes, duas mãos e um corpo só? Segunda não vai ser fácil. Eu vou ao banco... Será que o rapaz do caixa da livraria tem divida no cheque especial? Eu espero que não. Esse tipo de transtorno eu não quero ver ninguém passar. Alias, seria engraçado ver o Eike Batista quebrado e devendo para o banco... Sendo mortal, igual a mim e ao rapaz do caixa. Não desejo o mal, só estou sendo iconoclasta. Ele é um icone: o homem mais rico do Brasil. Chega a ser mistico. Ou não. Um diabo em corpo de gente. Será que o rapaz da livraria sabe quem é ele?

Olha só, Catanduva está quente...

Espera um segundo, vou descalçar os tênis.

sábado, 13 de agosto de 2011

nota:

Eu não gosto de contato visual - por obrigação. Elevador lotado com cheiro de gente conhecida estranha... Não gosto de acenar sem vontade, nem de abraço sem saudade. Pois as pessoas são dúbias e constantemente mascaradas. Racionais e atentas, corujas que não giram o pescoço, mas que observam o movimento alheio com uma sapiência destra e deveras rasteira. As pessoas sufocam... São em demasia cansativas.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ordem e Exatidão

Chegando assim, manso
E vindo me dizer
"I wanna be your dog!"

Despindo a vergonha
Jogando bosta na cara
De uma família inteira...

Pois é,
Entre todos os revezes
Eu descobri:
com você
(e por você)


eu teria um filho.



Eu pediria
Inversamente
Para ser um cão.

Eu admitiria a dependência.

Eu assumiria a saudade
De uma vida.

Por você
Eu faria da existência
A minha dança
Maior que Pina.

E somente por você
Meus dias não estariam
Contados.

Com sangue
Eu aviso assim:

Te amo.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

sim

sede
suor
sangue.

sede, sede
suor, suor, suor
sangue, sangue, sangue.

sede
suor
sangrando.

sede
de sangue
e suor
sangrando.

sede
de sangue
e suor.

sudoriparas.

suor
sede
e sangue.

nas coxas.

o som do cavaco

todos bebados.

então, a luz se fez
e os olhos enxergaram
o invisivel.

jimi replicou:
"hey, joe!"

e paul maccartney
pediu um cavaquinho.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Dia desses

Sendo observada pelos únicos olhos do lugar, Catarina permanecia sentada de frente para o psicanalista fascinada pela pintura posicionada na parede de trás. A falta de cabelos dele refletia a pouca luz do lugar, levando-a a concentrar-se em tudo, menos na analise.

Saiu do consultório, vestiu um casaco e armou-se com seus inseparáveis óculos escuros. Sentia fortes dores no estômago, náuseas infernais e uma imensa falta de ar – o que não era motivo plausível o suficiente para que ela não retirasse um maço de cigarros da bolsa. Acenou para um táxi, sentou-se e delirou ao redor das palavras de Gabriel Garcia Marquez em seu memorável “Memória de minhas putas tristes”. Não tomou nota acerca do transito caótico da capital paulistana, tampouco do menino malabarista que desdobrava-se clamando por um trocado qualquer. Era mais uma vez seu livro preferido quem a completava e tomava toda a atenção de Catarina.

Ao subir as escadas de seu apartamento assombroso, sentiu tudo aquilo que não havia ingerido remoer suas vísceras, esmagando fígado, pulmão e coração, que agora, pulsava acelerado. Não tardou a entrar em casa e esparramar no chão um golfo imundo e fétido. Arrastou-se até a geladeira e embebeu da garrafa alguns densos goles de água fria. Jogou-se nua na cama, flutuou feito uma pena desprovida de forças: lembrou-se de que as regras estavam demasiadamente atrasadas.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Prece

de pé no chão
vestida de anjo
com asas

invisiveis .

chinelo de lado
e um canto baixinho.

os dedinhos entres os cachos

o olhar de quem protege

uma pretensão de zelo
e intenso amor.

é o abrigo que busca
é a casinha no mato
é a fuga do sofrer,

o alixir para viver.
Já Bocage não sou!... À cova escura Meu estro vai parar desfeito em vento... Eu aos céus ultrajei! O meu tormento Leve me torne sempre a terra dura.  Conheço agora já quão vã figura Em prosa e verso fez meu louco intento. Musa!... Tivera algum merecimento, Se um raio da razão seguisse, pura!  Eu me arrependo; a língua quase fria Brade em alto pregão à mocidade, Que atrás do som fantástico corria:  Outro Aretino fui... A santidade Manchei!... Oh! Se  me creste, gente ímpia, Rasga meus versos, crê na eternidade!

Manuel Maria Barbosa du Bocage

domingo, 24 de julho de 2011

240711

hoje eu resolvi abrir meu coração
e assumir que toalha com cheiro de amaciante é melhor.
o piso da casa da mãe é sempre mais branco
e a grama do vizinho nem sempre é mais verde.

decidi assumir que aceito esse desafio
não na pretensão de mudar uma mente,
mas de construi-la

junto a mim.

sábado, 23 de julho de 2011

uma vela, um colchão, um violão

"E aí... você não consegue cantar?
Não, não consigo...
Prende, né?
É. Prende."

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Mapplethorpe

Ken Moody and Robert Sherman

Rimbaud me salva constantemente.

"Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível.
Fixava vertigens.
Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas.
Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novos idiomas."

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Construção sentimental

queria amar o poeta genuíno,
mas me restou o aspirante.

me bastou a primeira olhada
naqueles olhos caídos
e lânguidos.

poderia me apaixonar pela exímia técnica
mas a construção sentimental
me atrai por sua precariedade.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

De Alberto para Catarina

hoje eu vou querer a minha menina com todo o amor do mundo.
vou dizê-la que preciso dessa pele alva
e da sua companhia.

meu bebe
meu amor
minha vidinha...

hoje eu vou esclarecer os fatos para a minha menina:
te amo, querida.

e imploro:
não saia das minhas vistas.

não se perca no horizonte
tampouco nesse infinito universo,
pois preciso te ver

e amar como sempre


intensamente.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Faz muito tempo... e não passa!

Nada funciona aqui.

O desenho colorido já não é alegre
E os gatos que passam pelos telhados não existem mais.

Mais bombas
E tiros.

A vida não funciona.
A vida não é viver.
E o caos

Avança.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ambiciosa

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar ...

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar ...
Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar !

Minh’ alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus !

O amor dum homem ? Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada ...
Um homem ? Quando eu sonho o amor de um Deus ! ...

- Florbela Espanca