segunda-feira, 11 de julho de 2011

110711

eu gosto de viver só de madrugada
quando a imundice some
e só a luz do poste
é capaz de me fazer ver
os becos que clamam por vida
nessa cidade antiga.

eu gosto de usar trapos velhos
e me sinto bem ao andar pelada
nuinha e desprotegida.

eu gosto de fazer o que não devo
e chorar os revezes posteriores.

eu gosto de sentir a minha passagem pelo mundo.

eu gosto de ver as pessoas me vendo.

eu gosto de comer e de beber muito
e de devolver toda a minha delinquencia
para do vaso sanitário.

eu gosto de andar na rua
quando é noite
e quando os ladrões resolvem atacar.
só para forjar uma aventura,
só para emocionar a minha epiderme flácida.

eu gosto de falar palavra feia:
quanto mais suja, mais gostosa...

cu, buceta e caralho.

e gosto mesmo é de ler um livro
e de "fazer amor até mais tarde"
só para "ter muito sono de manhã"

eu gosto de ver mulher bonita.
e gosto de abraçar homem cheiroso.

eu gosto de caos
e de anjos tocando harpas,
eu não gosto.

eu gosto de escrever
e fingir ser Florbela Espanca.

eu gosto de rabiscar paredes
e de desenhar em papéis reciclados.

eu gosto de um bom vinho
e devo dizer que charutos me atraem.

gosto muito do caetano e da alcione,
mas tenho uma queda pelo som machista
do digão e do jimmy london.

eu não sei falar de politica atual,
mas eu gosto do bakunin
e treparia com o proudhon.

cinema me faz gozar
e sou uma eterna apaixonada
por tarantino, gus van sant e kubric.

não sei sambar,
mas sei admirar.

não sei viver,
mas sei como ninguém
a arte de sonhar.

domingo, 10 de julho de 2011

Eu e meus olhos de criança

Se eu estiver gelada
Vou procurar esquecer descrever
Minha carência de afago
E com todo o esforço
Vou me lembrar de quando a vida era boa
Quando eu passava as tardes atoa
No colo da minha avó,
Nos braços do meu papai
E entre a barra da saia da minha mãe.

Vou incessantemente recordar
De quando o amanhecer era lindo
De quando os cães já não latiam
E o meu despertar era ao som de pássaros
Nos pés de primavera do meu quintal.

Vou procurar regar as imagens
Com agua de flor de laranjeira
Para que permaneçam férteis
Dentro de uma mente que se mudou
E moldou historias e passagens
E miragens
Jamais alcançadas.

Vou acima de tudo
Ser grata pelo dia que me é disposto
Pelo sol me tocando na manhã
E pela noite me convidando a viver.
Leão com ascendente em escorpião
Era tudo que deveria ser
Fogo na terra, sede por intensidade
Vontade de amor
Sina para o suporte alheio.

Vou esperar o dia
Em que as folhas serão verdes denovo
Em que a comida será cheirosa denovo
Em que o banho sirva para me limpar
E não como espaço de tempo para que eu saia a rua
E volte impregnada com as doenças
E as misérias
Que só fui capaz de ver
Quando perdi meus olhos de criança.

sábado, 9 de julho de 2011

Redoma

Por que haveria eu
De amar sem desfalecer,
Perder a alegria...
Já que busco incessantemente

A cãibra,
A cólera
O maldizer.

De que me serviria
O adorno amado
Se não me fizesse descabelar,
Se não me fizesse legar ao mundo
Toda a dor possível...

Imploro apenas por um segundo
Que todos os diabos, juntos
Cantem num coro de mil vozes
O mantra do meu sofrer.

Repito aos céus:
“Deus, desprezo vossa ajuda!”
“Anjos, afastem-se da minha presença!”

E desço ao inferno
Onde tudo é fétido
Onde as impurezas acalentam a planta de meus pés
Onde o enxofre banha a minha alma
E digo:

“Por favor, senhor das trevas
Que me mandes mais apuros,
Mais curvas sinuosas
E que a minha esquerda jamais direita!”

E de joelhos dobrados
Com as maos no asfalto
E a cabeça além,
Reluto:

E recebo o aviso
De que incontestavelmente
No meu dicionario pessoal
Amor se escreve com lama.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

As amarras

as pessoas não sabem o que significa a vida.
não sabem o quão grande ela é por trás dessas grades invisíveis. não sabem o quanto é lindo aquele olhar para cima, despido, desnudo, pelado. literalmente pelado.
as pessoas não sabem a beleza de se desarmar e amar o maior festerê... armar a comemoração sem motivo, amar a liberdade.

não sabem o gosto de um pé beijado, de uma flor cheirada...
não sabem tragar o desespero e soltar libido pelo ar.

as pessoas me fazem chorar e digo mais: as pessoas me deixam feliz.
os filmes me fazem chorar e digo mais: eles me inspiram.
a vida me faz chorar.

a vida me deixa viva.

quero tocar na vida.
quero agarra-la, quero beija-la e ser parte integrante do universo.
quero todos os lados, quero explosões e sabores diferentes no céu da boca.
quero que todo o céu esteja contido todinho no céu da minha boca.
quero carregar o mundo em mim, mas não nas costas... não com esse peso...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

...

é uma desordem,
uma estrada torta
e curvilínea...

é o fundo do poço,
my brother.

é o fundo do poço...

terça-feira, 5 de julho de 2011

floresce a vida

a fumaça verde adocicou tudo
ficou espessa, sorveu a minha energia
me elevou ao encontro com deus
que usava óculos escuros
e cantava musicas guiadas pelas cordas
da guitarra de Jimi Hendrix.

me deixou na porta da alucinação
me deu uma caneta e um papel
entregou com a colher na minha boca
as sentenças para a criação mais sentimental
brilhante e nada obscura da minha existência.

me fez mamar nas tetas do êxtase
quando minha pressão foi abaixo,
quando Jah me soprou no ouvido
os caminhos que me levariam
ao ouro dos tolos,
ao elixir dos malucos...

essa fumaça capturou o peso dos meus pulmões
deixou eles limpinhos
me flagrou atônita, feliz e delirante

delirando...

delirante...

longe da paranóia que me guia
quando estou de cara
em casa,
na rua,
no ônibus,
na escada...

o farol não era mais vermelho:
ela es-car-la-te.
a palavra me levou a viajar.
o dom da palavra sempre me leva a viagens
hora insanas, hora apenas intensas.

divaguei, divaguei
e nada transformei
para isso apanhei outra purpurina verde
amassei, rasguei toda
e mandei via sedex telepático para dentro.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

someone we can bleed on

pari um filho
que virou música
e me fez chorar
pela segunda vez.

doutor T.

miserável.

uns morros
delineados
no relevo
de uma pele alva.

a pele
mais bonita
que já vi
e toquei.

uma pele alva,
far far away.

domingo, 3 de julho de 2011

"o único motivo razoável para o seu sumiço seria você estar morto."

saúde:
é tudo o que eu não tenho
quando tento te violentar,
quando jogo as coisas pelo ar
do armário para a tua cara larga.

desprezo é o que você tem tentado me doar
sem qualquer sucesso,
sem nenhuma sensatez.

sorvi dez litros de vinho
e vim aqui te dizer
o quanto eu não quero estar
trancada no seu buraco.

vim aqui dizer também
que quero que você suma
e em suma, quero sumir.
que é para não te ver
que é para espantar a Babylon de mim
que é pra tirar isso da cabeça
e "por o resto no lugar."

náusea: é o que você me causa
com essa personalidade mutante
metamorfoseando a minha cabeça
fazendo o meu pescoço cair
cada vez que alguma lamuria
escapa da tua boca
e pinga junto com saliva
na minha testa.

vim aqui dizer também,
que te quero.
porém, com muito pesar...
com muita tristeza
e com extrema alegria
de ter te descoberto ontem
para poder viver
rindo e catando
na minha cidade natal.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

é nóix

na frente dos bares aqui da PUC.

enquanto eu bebia a minha tônica

e fazia meu trabalhinho de politica.

toda fofa.

de meia e chinelo no pé.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

00:04

só perdi.

mas, com gosto.

alias, algumas eu ganhei...

outras eu perdi...

mas todas justas.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

rabisqueira

agora você paga a lingua
de tanto falar besteira
fica tonta, morrendo aí pelos cantos
pensando em voltar no tempo
perdendo o tempo
que não deveria jogar assim.

agora você fica aí
de rabixo com aqueles outros
saindo de saia
chinelinho
e carente de decência.

fica bem aí, porca
chora mais um pouco
que se Deus quiser
eu beijo os teus pés
dentro de uns dez anos.

domingo, 26 de junho de 2011

para Bibi

A flor que nasce
E morre
Bela
Na pedra,
No mato,
Rasteiro...

E de tanta
Luz
Deleita
A minha

mente.

Que limpida
Faz-se
De espelho
E fica bela

Como a flor
Que nasce
E morre
Bela.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

vinte e quatro do seis

eu vou

continuar assim

com o dedo amarelo

e

com o sorriso

amarelo.

eu vou continuar

aqui

cercando comprimidos:

dormir

é o que cura

a ausência.

estarei

do mesmo lado

quando você

voltar.

estarei com as mesmas

vestes,

as mesmas

maneiras,

as mesmas

torturas.

eu estarei

pra sempre lá

mesmo quando

estiver aqui.

distante.

estarei pensando

na tua vida

pequena

e nada intensa.

estarei contrapondo

a minha grandeza

na sua humildade.

estarei esbarrando

na tua falta

de loucura

que me mata

e me dói.

pois enquanto

eu viva estiver

serei a mesma

com o mesmo dedo amarelo

e o mesmo sorriso

e os mesmos cabelos

e a mesma falta de graça

na minha total

falta de

maleabilidade.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Inverno-Inferno (cont.)

Era maio. Inverno tão frio que, durante o banho, deixava o mijo escorrer-lhe entre as pernas: estreitamente a única coisa quente em seu corpo nu, tremulo. Não era mês para propiciar aquela gélida sensação... São Paulo estava mostrando-se menos acolhedora do que nunca, mais concreta, mais distanciadora. Agora ela passava a chegar em casa e encontrar um imenso vazio. Antes tudo era convidativo, aconchegante e tinha o calor de um respectivo lar. Hoje a televisão encontrava-se no chão, apoiada numa caixa de papelão marrom. Os pratos estavam carentes de armários e com isso recolhiam poeira sobre a única mesa do lugar. Ela repousava no sofá devido aos problemas respiratórios que tanto atormentavam seu sono, afinal, não possuía mais uma cama, apenas um colchão.

Fitou aquela angustia expressa em coisas avulsas distribuídas pelos cantos e sacou a Polaroid que herdou do pai de dentro da caixa de relíquias. Resolveu presentear-se com fotografias daquele inferno por ela vivido. Avida ficava mais bonita com aquelas fotos tonalizadas pelo ar antigo proporcionado pelo equipamento. Cercou o piso com as imagens da sua derrota. Embebeu uma dose de uísque causando desconforto para sua garganta, pois Catarina não se servia com nada alem de vinho tinto seco. Despiu-se. Fotografou a vulva, os seios, os pés, os olhos... espalhou tudo pelo apartamento escuro e após outro gole de um Bucchanan’s ganhado por Ciro, amigo de Alberto, recostou-se numa poltrona suja e, em alfa, descansou.

Iria recordar a sensação daquelas unhas tempos depois. Sentiria o toque de cada digital sobre os pelos cerrados debaixo, até o redor do umbigo, até a sobrancelha protuberante daquela face, que em face da saudade, lembrava-se de fatos ocorridos anos antes. Viria a ser uma daqueles saudosistas, que presos em sua eternidade não esquecem o sofrimento pois posicionam o êxtase acima de qualquer proposta.

Saudoso Benê

de mãos ritmadas
canatavamos
e a vida fez-se triste
e bela.