"Richard Ellmann conta que Joyce nunca quis admitir que sua filha Lucia estava psicótica. Adaptava-se às manias da garota e tentava entendê-la e a seguia durante horas em estranhas conversas nas quais pareciam usar uma língua desconhecida. Animava-a a desenhar e a escrever. Mas não podia suportar que Lucia não o reconhecesse e que o insultasse e o chamasse de Mister Shit. Por isso pediu uma entrevista a Carl Jung, que admirava sua obra e que escrevera um artigo exaltando o Ulisses. Joyce, que nesse momento escrevia Finnegan's Wake, mostrou-lhe vários textos de Lucia. 'Ela usa a linguagem como eu', disse. 'Sim', respondeu-lhe Jung, 'mas ali onde você nada, ela se afoga'."
Ricardo Piglia, O laboratório do escritor.
quinta-feira, 21 de março de 2013
domingo, 17 de março de 2013
meus escritos parecem um diário público.
Só o que eu estava tentando fazer era não voltar para o quarto de novo. Na
última vez que te vi. Era tudo o que eu não deveria permitir: ser cruel comigo
mesma. E que porra de vida, eu não canso de me maltratar. Naquela última vez em
que te vi. Tive sonhos com uma velha japonesa. Sonhei que você entrava e saia
rápido de mim. Sonhei com meu celular nos pés. E não sabia se seria pior dormir
ou acordar. Não aguentava mais a minha volta e fui procurar a sua. Você foi
solícito, meu coração não aguentou. Fui. Na chuva, doendo. Fui te ver. E tudo o
que não aguento é seu rosto. Todas as vezes em que abri a porta para você,
quase derreti. Você me enche de algo que não sei o nome. Me transborda fácil.
Tento arrancar explicações, enxergar motivos. Mas tudo o que me sobra é um
vazio intermitente. As vezes penso que sou uma leoa muito mais feroz do que eu
mesma sou capaz de aceitar. O que tenho passado vai deixar calos, cicatrizes e
feridas que vão atormentar por algum tempo. Tenho passado muito penosamente por
isso, mas preciso acreditar que vai passar. Nunca tive fé em nada, mas preciso
encontrar a fé dentro de mim. É o que me move. É apenas o que preciso. Sair da
situação deriva. Remar com as duas mãos que tenho. São pequenas, mas aguentam
firme. Só eu sei que sim. Ou não. Vou começar a entender agora. Eu discorro
sobre isso para muitas pessoas. Acredito que elas me entendem, mas isso não me
conforta muito. Logo eu, que sempre reclamei da incompreensão alheia.
Esse
mundo é irônico demais para a minha imaginação. Acho difícil de acompanhar.
sábado, 16 de março de 2013
extrato 92
"(...) Não havia comida para bebés em Malanje e a nossa filha tornou a Portugal magra e pálida, com a cor amarelada dos brancos de Angola, ferrugenta de febre, um ano a dormir em cama de bordão de palmeira junto das nossas camas de quartel, estava a fazer uma autópsia ao ar livre por via do cheiro quando me chamaram porque desmaiaras, encontrei-te exausta numa cadeira feita de tábuas de barrica, fechei a porta, acocorei-me a chorar ao pé de ti repetindo Até ao fim do mundo, até ao fim do mundo, até ao fim do mundo, certo da certeza de que nada nos podia separar, como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo, exclamou o Neruda e era assim conosco, e é assim comigo só que não sou capaz de to dizer ou digo-to quando não estás, digo-to sozinho tonto do amor que te tenho, demais nos ferimos, nos magoámos, nos tentámos matar dentro de cada um, e apesar disso, subterrânea e imensa, a onda continua e como para a praia na tua direção o trigo do meu corpo se inclina, espigas de dedos que te buscam, tentam tocar-te, se prendem na tua pele com força de unhas, as tuas pernas estreitas apertam-me a cintura, subo a escada, bato ao trinco, entro, o colchão conhece ainda o jeito do meu sono, penduro a roupa na cadeira, como uma onda para a praia como uma onda para a praia como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo."
Memória de Elefante, António Lobo Antunes
Memória de Elefante, António Lobo Antunes
terça-feira, 12 de março de 2013
Hoje é dia de deixar sangrar
Ainda que eu soubesse tudo
sobre o final, estive disposta a ir e fazer novamente. Tentar não era permitido - tampouco uma opção. Mas foi o que me sobrou.
Falhei e esperei pelo melhor. Deixar morrer naturalmente é calmaria e
lucro; assassinar é tristeza.
Meus pés tremiam,
minhas mãos suavam e, ainda assim, você se esquivou de um beijo.
A vida às vezes brinca
comigo. Mas dessa vez ela passou dos limites.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Dinosauria, We
Charles Bukowski
Born like this
Into this
As the chalk faces smile
As Mrs. Death laughs
As the elevators break
As political landscapes dissolve
As the supermarket bag boy holds a college degree
As the oily fish spit out their oily prey
As the sun is masked
Into this
As the chalk faces smile
As Mrs. Death laughs
As the elevators break
As political landscapes dissolve
As the supermarket bag boy holds a college degree
As the oily fish spit out their oily prey
As the sun is masked
We are
Born like this
Into this
Into these carefully mad wars
Into the sight of broken factory windows of emptiness
Into bars where people no longer speak to each other
Into fist fights that end as shootings and knifings
Born into this
Into hospitals which are so expensive that it’s cheaper to die
Into lawyers who charge so much it’s cheaper to plead guilty
Into a country where the jails are full and the madhouses closed
Into a place where the masses elevate fools into rich heroes
Born into this
Walking and living through this
Dying because of this
Muted because of this
Castrated
Debauched
Disinherited
Because of this
Fooled by this
Used by this
Pissed on by this
Made crazy and sick by this
Made violent
Made inhuman
By this
The heart is blackened
The fingers reach for the throat
The gun
The knife
The bomb
The fingers reach toward an unresponsive god
The fingers reach for the bottle
The pill
The powder
We are born into this sorrowful deadliness
We are born into a government 60 years in debt
That soon will be unable to even pay the interest on that debt
And the banks will burn
Money will be useless
There will be open and unpunished murder in the streets
It will be guns and roving mobs
Land will be useless
Food will become a diminishing return
Nuclear power will be taken over by the many
Explosions will continually shake the earth
Radiated robot men will stalk each other
The rich and the chosen will watch from space platforms
Dante’s Inferno will be made to look like a children’s playground
The sun will not be seen and it will always be night
Trees will die
All vegetation will die
Radiated men will eat the flesh of radiated men
The sea will be poisoned
The lakes and rivers will vanish
Rain will be the new gold
The rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind
The last few survivors will be overtaken by new and hideous diseases
And the space platforms will be destroyed by attrition
The petering out of supplies
The natural effect of general decay
And there will be the most beautiful silence never heard
Born out of that.
The sun still hidden there
Awaiting the next chapter.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
O artista é o criador de coisas belas.
O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo para um novo material a sua impressão de coisas belas.
A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.
Os que encontram significações torpes nas coisas belas são
corruptos sem sedução, o que é um defeito.
Os que encontram significações belas nas coisas belas são
os ocultos: para esses há esperança.
Eleitos são aqueles para quem as coisas
belas apenas significam Beleza.
Um livro moral ou imoral é coisa que não
existe. Os livros são bem escritos, ou mal
escritos. E é tudo.
A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara no espelho.
A aversão do século XIX pelo Romantismo é a fúria de Caliban ao não ver sua cara no espelho.
A vida moral do homem faz parte dos temas tratados
pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso
perfeito de um meio imperfeito.
Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética
num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
O pensamento e a linguagem são para o artista
instrumentos de arte.
O vício e a virtude são para o artista matérias de arte.
Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo.
Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas.
O que a arte realmente espelha é o espectador, não a
vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela
que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está
em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, conquanto que não a admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil.
- WILDE, Oscar. Prefácio do Retrato de Dorian Gray.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Abel, agradeça ao John
Cabelos loiros, encaracolados, cobrem meu rosto quando acordo e um peso confortável está em cima de mim.
E essa ressaca. Minha única vestimenta, meu relógio. São... duas e quarenta da tarde. Parece que estou semi-morto. É por isso que eu não saio de casa. É melhor ficar em casa remoendo meus problemas do que aguentar esse tipo de efeito pós-seja-lá-o-que-tenha-havido-aqui.
Ontem os caras conseguiram me tirar de casa.
- Você precisa sair, se divertir. Pensa que não precisa, mas precisa, e tem o Abel...
E tinha o Abel. Quando alguém está mal, por algum motivo, costuma pensar que está sozinho, mas o fato é que sempre tem alguém pior do que você. O cara pior, dessa vez, era o Abel. Incrivelmente, o Abel. Uma pessoa sempre controlada. As pancadas que a vida dá.
Não interessa qual o problema, sempre tem alguém pior. Também não sei como é o fim dessa linha, quem é o pior dos piores, se é que seria possível, já que sempre teria alguém pior... Bah, enfim, eu, Diogo e Abel fomos pra uma boate que o Diogo conhecia. Diogo, único de nós em estado de verdadeiro bom humor, teve a ideia. Gosto do escuro desse tipo de lugar e também havia um balcão no bar, onde eu poderia passar a noite toda, sentado, já que dançar é algo que eu não faço. Após termos entrado e andado um pouco pelo local, observando as pessoas, Diogo aproximou-se de mim e declarou:
- Hoje eu transo.
Onde está o Abel agora eu também não sei. Será que devo me preocupar? O Diogo eu consigo ver daqui, derrotado, na outra cama. Até que minha ressaca não está tão forte, felizmente. Gostei desses cabelos. Não havia reparado neles antes. Pensando bem, acho que não reparei em muita coisa. Gosto dessa cor de pele. Não lembro do rosto. Me estico um pouco e observo. Bonita. Nunca vi na vida.
Havia muitas mulheres bonitas dançando e poucos homens na pista. Dançavam umas com as outras. E eram bonitas mesmo, lindas. Uma cena ótima. Depois que paramos no bar e pedimos cerveja, percebi que o Abel as olhava discretamente, um tanto de lado, como se estivesse achando tudo aquilo terrível:
- E aí, Abel.
Ele me olhou com os olhos baixos, como se estivesse com vergonha de alguma coisa, porque entendeu o que eu quis dizer:
- Tá foda, precisava mesmo sair de casa.
- Sei como é.
Diogo percebeu o assunto desanimador e disse que o importante era saber que se distrair ajuda, mesmo não sentindo vontade. Tem que fazer um esforço, se obrigar. Disse isso e reconheceu um outro cara, a uns cinco metros de nós, num canto. Sorrindo muito, visivelmente contente, apontou para ele o dedo e disse:
- Caaara, você!!!
Andou então até o conhecido e ficamos eu e Abel no bar. Eu falava o que eu sabia que precisava falar:
- Depois de um tempo você não liga tanto assim, mesmo que pareça impossível no começo.
- É. Eu sei.
Abel respondeu, deu um sorriso leve, que pensei ser forçado, e passou a olhar menos nervoso para as mulheres que dançavam. Você deve saber, Abel, pensei, mas saber é só uma parte. Daqui pra frente nem eu sei ao certo o que fazer. E o Diogo é um filho da puta que desapareceu, eu pensei depois de mais algum tempo. Como é que eu poderia fazer companhia pro Abel, nesse estado? Minha sorte é que ele não fala muito, então até que tudo bem se a gente podia só ficar ali observando as garotas.
E o nome? Não consigo lembrar. Obviamente eu ouvi, mas não lembro. Não sei, Jéssica talvez? Tinha E em algum lugar. Letícia, Débora, não sei. Puts. Percebo que não lembro de mais do havia me dado conta e começo a me preocupar com o Abel. Não lembro dele desde o momento em que o Diogo voltou ao balcão, onde estávamos, acompanhado do amigo que ele encontrou. Isso aconteceu muito depois depois de seu desaparecimento e eu e Abel já estávamos bem à frente nas cervejas.
Caras, achei aqui o que vocês precisam. Consegui com o John. Esse é o John. Esses são os caras, John.
E colocou alguma coisa dentro da minha longneck e também na do Abel.
E aí, John. Que que é isso, Diogo?
Um estimulantezinho que o John costuma revender por aqui. Que sorte a gente ter encontrado ele, ein?! Não é nada pesado, ele me garantiu, e eu já usei bastante, pode ficar tranquilo.
Abel parecia com medo. Olhou pra mim com os olhos arregalados. Abel sempre foi o responsável. Se não estivesse numa crise pessoal, estaria cuidando de nós quase como um irmão mais velho. Já teria me reprimido pela quantidade de cervejas que bebi (na verdade, precisaria ser um irmão bem mais velho pra isso).
Sério, Diogo? Que merda é essa?
O tal John olhou pra mim com o olhar que diz tu é careta demais pra tá aqui.
Fica tranquilo. Fica tranquilo, Abel. Vai ser como... Vai ser como tomar bastante energético de uma vez, mas é um comprimido. Porra, muita explicação em cima de algo que a gente devia curtir e não explicar, ein? Chega disso.
Tá. Whatever.
Explicação demais mesmo. Eu tava bem ali sem muita conversa, só olhando pras bundas das meninas. Querem me drogar, ok, contanto que eu continue aqui e que as meninas continuem onde estão. Continuei bebendo minha cerveja, a partir de então temperada com sabe-se-lá-o-quê.
Ela começa a despertar, encolhendo-se um pouco, fazendo força, mas suave, gemendo baixo. Me aperta um pouco no abraço, levanta o rosto, acordando com muito mais certeza dos fato do que eu tinha, e diz, sorrindo, com os olhos apertados de sono:
- Oi.
Eu estava em pé no meio da pista de dança, com minha longneck na mão, vazia. Vazia, já há bastante tempo. Minha cabeça preenchida. Era muito melhor observar todas aquelas bundas e pernas de perto assim, num campo de visão de trezentos e sessenta graus. Diogo dançava com uma garota de vestido vermelho bastante curto. Era o som que preenchia meu cérebro. Ela rebolava muito com a bunda encaixada no quadril dele, se esfregando, e ele até esquecia de se mecher pra olhar pra aquilo de boca aberta, as mãos, sem tocar, mas quase apertando, moldando as nádegas da garota, mãos em posição de recepção de milagre, como quem diz Deus é o senhor é a tua graça muito obrigado Jesus. Eu ri tanto que perdi a força e deixei a garrafa cair no chão. Não quebrou. Abaixei com muita dificuldade pra pegar. Enquanto eu abaixava o som parecia mudar. Cheguei em baixo e fiquei no nível das bundas. Eu queria continuar ali, só olhando pra elas, mas meus olhos se fechavam enquanto eu ria incontrolavelmente. Fiquei abaixado. Ri. Esperei. Levantei (me levantaram). Diogooooo. Me abraçou. É, cara, não te disse? Cara. Cara... CARA, você disse! To vendo, to vendo. Essas são as meninas, meninas, esses são os caras. Cadê o Abel? O Abel, não sei, ele tá por aí. Hah, Hah. As meninas dançavam e riam bastante. No escuro, as poucas luzes correndo, mudando, piscando. A fonte da música eram as profundezas da minha mente. Um harém eclíptico, pensei, eclíptico, que porra de palavra é essa. É de eclipse, eu explicava a mim mesmo, é como um eclipse, as luzes mudando aqui e esse monte de lua, de bunda iluminada. É, foi isso. Eu tava explicando uma coisa pra mim mesmo. A música era ruim.
- Oi. Respondi sorrindo, fingindo não estar apavorado.
Dá um beijo no meu ombro, deita de novo, agora com o rosto virado para mim e volta a dormir. Eu espero um pouco, me arrasto para o lado, me viro de leve, tento não ser brusco e... Consigo escapar. Que merda. Diogo e mais duas garotas que estão com ele na outra cama aparentemente jamais irão despertar. Eu sento na cama e percebo: tem mais uma mulher no chão. Nota mental: nunca mais adquirir produto algum de alguém chamado John, só por segurança. E quem diabos é essa menina aqui!? Recolho minhas roupas no chão. Demoro muito pra encontrar um dos tênis, que está no outro canto do quarto. Ninguém reage ao barulho que faço. Me visto. A carteira e o celular estão ainda, pelo segundo milagre em menos de vinte e quatro horas, dentro dos bolsos da calça, intactos. Vejo uma pista sobre quem pode ser essa menina: o vestido que está no pé da cama é vermelho. Abro a porta do quarto e saio. Considerando o ritmo da coisa, espero encontrar mais alguma mulher nua, mas a sala do apartamento do Diogo está vazia. A luz do Sol entra aqui com muito mais força do que no quarto e meus olhos doem se eu olho para a janela. A porta está destrancada, eu giro a maçaneta e um grande peso empurra a porta. Abel cai no chão, sobre o solado da porta, todo encolhido. Ele acorda, tenta me olhar e estende a mão que segura obstinadamente uma sacola de farmácia:
- Ô, cara. Eu trouxe camisinhas pra vocês.
H.G.S.
sábado, 19 de janeiro de 2013
extract
"I have fought for what I believed in for a year now. If we win here we will win everywhere. The world is a fine place and worth the fighting for and I hate very much to leave it. And you had a lot of luck, he told himself, to have had such a good life. You've had just as good a life as grandfather's though not as long. You've had as good a life as any one because of these last days. You do not want to complain when you have been so lucky. I wish there was some way to pass on what I've learned, though. Christ, I was learning fast there at the end. I'd like to talk to Karkov. That is in Madrid. Just over the hills there, and down across the plain. Down out of the gray rocks and the pines, the heather and the gorse, across the yellow high plateau you see it rising white and beautiful. That part is just as true as Pilar's old women drinking the blood down at the slaughterhouse. There's no one thing that's true. It's all true. The way the planes are beautiful whether they are ours or theirs. The hell they are, he thought."
in For Whom the Bell Tolls, 467, Ernest Hemingway
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Seios
![]() |
| ilustração de Andreza S. Ballan |
em parceria com Leandro Valentin
eu sei
ela seios
ele sem
e tu?
nós somos
vossos seios.
tu é ela então?
eu sei,
ela seios.
sem esses seios,
não sei mais,
assim bem,
se eu posso continuar
sabendo e sendo
eu.
pois então, agora sim
eu sei que eu,
ela (ou tu)
e os seios
somos nós.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Saturno
Eu
sentia fome. Muita. Três dias atrás. Agora não sinto mais. Estou aqui outra
vez. Toco a campainha e aguardo. Mão no bolso da jaqueta, confiro outra vez. Eu
avisei que viria. Ela abriu a porta. Oi. Olá. Vim comer, de novo. Risos. Agora
eu não tenho mais fome. Entrei. Já faz três dias. Pois é. Quadros nas paredes.
Provavelmente nunca parou pra pensar neles. Essa coisa, o tempo. Tem festa
hoje. Onde, lugar de sempre, aniversário de Alguém. O Tempo. Nenhum desses
quadros me agrada agora. Algo estava destruído agora. Alguém estava destruído
agora, deixado para trás. Mão no bolso. O que se faz com fome... quem vai
entender essas coisas. Você vai? Sim, começa às 20:00. Já está destruído.
Mão
no bolso. E aí, (enfiei os dedos nos orifícios do soco-inglês) tá com fome? Agora
eu não tenho mais fome. Tirei a mão do bolso e mandei o primeiro. Direita. No
queixo. Mas. Não caiu, mas vai cair. Não tenho um pingo de dó. Não tenho fome.
Tenho outra coisa, chamariam de raiva. Bati. Caiu. Caí por cima. Maxilar.
Testa. Peito. Costelas. Olho. Nuca. Já apagou. Foda-se. Eu já dei outro nome.
Foda-se. De relance, um quadro. Barco de pesca em mar bravio. Estão por toda
parte e ninguém os entende. Hoje eu tenho medo. Bati até meu ombro começar a
doer. Não que eu esteja velho, é a falta de exercícios. O Tempo. Sangue. Não me
sinto melhor. Sabia que não. Já foi. Sangue por todo lado. Já está destruído.
Isso é só uma descarga inútil. Não há volta. A culpa nunca morre. Ficando em pé,
pisei num dente perdido no piso. O Tempo nunca morre. Não tenho fome. Não é
raiva, é o desespero. Meu tempo passa e eu não posso voltar atrás. Gemidos. Vai
acordar no inferno, puta. Muito sangue. Três dias em desespero. Bati mais. Bati
até arrebentar tudo. Não tenho mais fome. Jamais terei. Já sei que pintura eu
gostaria de admirar agora. O Tempo é cruel com os homens, assombra a todos. Os
homens são cruéis uns com os outros. Quem aqui está livre? O Tempo. Tempo,
engula mais um de seus filhos. O corpo branco, sangrando, é até infantil nas
mãos do Tempo. Vejam o olhar que tem Saturno
enquanto devora a cabeça de seu filho, mergulhado na escuridão. Não é fome, é
medo.
H. G. S.
sábado, 5 de janeiro de 2013
Coisas que eu escrevia durante as aulas de legislação no primeiro ano
"Oh, vida...
Oh, céus!"
Soprou em minha orelha a ovelha. Nada do que aquela humorista falasse era capaz de me fazer brotar antenas.
Era choro agudo demais, um tremor rutilante na garganta. Beijava meus pés e pedia sofrendo para que eu olhasse seus olhinhos.
Eu amo muito de dia e a noite eu vou pra farra.
Oh, céus!"
Soprou em minha orelha a ovelha. Nada do que aquela humorista falasse era capaz de me fazer brotar antenas.
Era choro agudo demais, um tremor rutilante na garganta. Beijava meus pés e pedia sofrendo para que eu olhasse seus olhinhos.
Eu amo muito de dia e a noite eu vou pra farra.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Coisas que escrevi enquanto te esperava chegar
Quero, ao menos um dia, encontrar vocábulos, palavras ou expressões qualqueres para demonstrar sem mentir o que significa para mim um dia sem teu corpinho.
_____________________________________
Fico quase irreconhecível te esperando chegar. Nada ocupa minha mente se não a lembrança do teu rosto fofo na minha porta. Teu semblante me diz "Eu te amo", mesmo sem querer.
_____________________________________
Tento, todas as noites, respeitar teu sono. Mas você é de uma beleza divina e tal instancia me faz te querer em todos os mínimos lapsos. A coisa mais linda e indefesa que fui capaz de notar em vida: teu sono.
_____________________________________
Hoje você não vai aparecer. Te vi pela manhã e teus olhos estavam mais verdes e teus cabelos mais loiros. Os momentos em que mais gosto de te ver são pela manhã e pela noite, pois ficas cheio de vulnerabilidade e dengo.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
A flor e a náusea - Drummond
Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Não consigo suportar meus pesadelos
Queria saber de onde vem uma angústia fria que recorre sem parar e jamais se cansa de espremer meu peito numa caixa torácica ridícula, frágil e useless. Não sei qual é a proveniência de tal sentimento nefasto, mas acredito que me falte liberdade. Ou coragem. Costumo dizer que pessoas corajosas são genuinamente livres, pois elas não temem. O que mais me aprisiona é o medo do fracasso. Me cobro enquanto todos repousam angelicais. Me cobro por não ter coragem de me desgarrar do mundo e partir, finalmente. Para onde? Não sei, sou livre de objetivos, apenas. Alguns objetivos mentirosos criei para ser sociável, pois ouvi dizer que o ser humano só existe por que convive socialmente. SO-CI-AL-MEN-TE: está aí uma palavra que me causa asco em turbilhões. Não gosto de regras, pois prefiro o amor e respeito grudados. Não gosto daqui e não gosto de lugar nenhum, pois não conheço o mundo por inteiro. Quero ser pertencente. Quero uma máquina de grana e um sublime contentamento com a realidade. (livre de anti depressivos) Queria humilde e simplesmente fazer somente aquilo que me alegra. De fato.
16/10/12 - Não consigo suportar meus sonhos
16/10/12 - Não consigo suportar meus sonhos
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