quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Deus caminha triste

"Eles cantam pra você", ele me disse na mesma hora em que enviava o link de "Me deixa em Paz". O Clube da Esquina, eu ouvi. Ele disse que cantavam pra mim, todas aquelas músicas eram cantadas para mim, o Milton, o Lô Borges, de Caetano Veloso até Maysa, ele disse que todos cantavam pra mim. Pois a dor é o que move grande parte da arte e nesse mundo onde há dor por todos os lados. É dor que não acaba mais. É excesso de humanidade, que eu tenho vontade de fazer sumir. E todos eles juntaram-se, numa serenata bem organizada, para cantar ao meu ouvido e esclarecer que, por dor de amor, todo mundo passa. Mas ninguém morre. E precisou meu grande amigo dizer, para que eu acreditasse depois, para que eu vivesse um pouco mais depois.

E isso tudo acontece por que não gosto de abraçar as pessoas. Isso me torna, em certa medida, um ser humano pior do que aqueles que gostam de bons, apertados e demorados abraços. Meus amigos me abraçam e eu tenciono todos os meus músculos. O medo rega meu corpinho, por que me causa agonia aquele monte de braços e pernas e polvos e tantas unhas. Só quem abraço são os cães da rua e meus namorados, pois as pessoas que amo sexualmente me causam uma vontade devastadora de adentrar. Me gosta o fato de mergulhar naqueles que amo. Quero tanto remexer tudo, buscar, devorar os órgãos. 

Meus problemas são oriundos deste motivo: não abraço pessoas. Só cães. 

A pele humana nem é quente, nem peluda, tampouco macia o suficiente para que eu me acalante nela. E presunçosa, sigo nessa instância que acaba por ser ridícula, pois sou uma pessoa a quem outras pessoas querem abraçar. Mas eu não gosto do calor do corpo, a não ser que esse corpo seja o amor da minha vida - mesmo que somente pelo mês 8. E, nessa altura, só o que me bastava seria acreditar na falta de amor do mundo, no sal que jogam em mim, uns aos outros jogam tanto sal. Mas, nessa altura, um amigo informou que Milton Nascimento cantava para mim. Eu ganhei, deitada em minha caverna, um concerto particular das músicas mais lindas do mundo. Por que o amor e existe e, apesar de estar naqueles dias onde nem se sabe mais o que fazer, fui contemplada com uma imensidão de amor. Aquele quente, que preenche até os espaços mais pequeninos. 

Nesse momento, onde perdi um grande amor de abraçar, pensei que fosse perder todos os outros tipos de amores. Mas aqui se ganha e eu quero somar carinho a todos. Pena que os abraços não são bons comigo. Eles não avançam, eu não gosto de abraço, eu não gosto de braço. 

É uma pena grande, ver que feito gado nós andamos por aí, numa linha reta, buscando somente encontrar a felicidade por meio da paixão. A hostilidade da gênese é tanta que tentamos combates por meio de mais frustrações que me farão mais insignificante, menos amante, mais revoltosa do que nunca. A hostilidade nasce a toda hora, no momento de nascer um bebê, ou no momento de nascer uma araucária titânica. Não há o que contestar sobre o grandiosidade da araucária ou a pequenez do meu coração. As coisas são assim por que é divino ser assim. Por que o universo cuidou de fazer, sem pressa, que as coisas chegassem onde chegaram. 

Fizemos a revolução sem saber. Hoje existe coisa demais ocupando pouco espaço. Poderíamos ter mais gentes se hoje tivéssemos menos dinheiros. Poderíamos ter mais água se não fossemos tão sedentos. Pois permanecemos desde sempre no status de queda constante. É assim que ficaremos, até que o sol se esconda de medo e nos falte alimento. E é aí que encontro a solução mais abrupta para todas as dores do mundo: nossa preciosidade é o amor. O amor pelo outro é o que nos faz viver e assemelhar o sofrimento. Solidarizo com quem sofre por que sofro junto. O amor maior é liberdade de deixar seguir enquanto queremos seguir, ao nosso modo mesquinho ou fofinho. O amor consiste na ideia de que Chico Buarque vai cantar pra mim quando eu estiver triste e acoada feito um bicho triste. 

A tristeza não foi Deus quem fez. Fui eu.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

nem vento traz

se me disserem
que fiquei oculta
boto a culpa em quem
não me faz mais cercas

me ocultei como quem
oculta um assassinato
como quem esconde um corpo
depois de um copo e mais um copo
e mais outro

e aqui não digo
que foi você quem me fez
ocultar a mim
e até a nós dois

hoje somos ocultos
não conheço mais
não sei mais das horas,
nem dos dias
nem se fazes ou não fazes

deixar morrer
me faz compreender
assassinar
me faz perder
o pouco de fé
ou o pouco de realismo
ou surrealismo
que ainda havia em mim
quando
me transbordaste
sem pedir para entrar

me encheu
me transbordou

pois eu sim,
deixei a porta
aberta para que a luz entrasse
quando você disse
que traria muita luz
e depois

fechou a porta

nem vento entra mais
(nem pelo buraquinho da fechadura)
nem vento entra,
nem vento traz
novidade




domingo, 28 de julho de 2013

botei no cu dos astros

é tempo para um poema
das pequenas coisas
que continuam fora do lugar

é tempo de botar o pé pra fora
e se acostumar
que sair de casa
agora é destino

o vento ocupa a cama
onde você costumava se deitar
comigo
eu e você, a sós

não me importo mais
com a janela aberta
pois nossos filhos
hoje são aborto

eu, que sou tão infantil
pensei que seria capaz de engravidar
pensei que seria bonito
crianças loiras
tão nossas


(leoninos são muito leais)


eu, que sou tão infantil
pensei que esquecer você seria fácil
mas no Brasil,
as pessoas não transam

ou talvez elas enxerguem
meus chifres
tão pesados de carregar

você me enfeitou
com chifres
agora sou uma vaca
vagabunda, como sou

espero que depois do meu inferno astral
as pessoas descubram que transar é bom
por que hoje, quem não me permite isso são os astros.

tenho fé.

boto no cu do astro.





domingo, 14 de julho de 2013

Cerâmica

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
ela nos espia do aparador.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 12 de julho de 2013

recorte #1

na minha casa não se espera muitos dias de paz. no meu recanto os dias de calmaria são dias de palacete. lá, os momentos de azul ficaram ainda mais raros depois que te conheci, pois desde a primeira vez que tirei tua camisa, não me esqueci de tuas costas manchadas com pintas grandes e mais várias pintinhas pequenas. ontem fui ao mercado e trombei com um rapaz parecido contigo. ao pensar que era você, meu coração parou e senti meus braço s despencando até o chão. meu corpo gelou inteiro, mas aquele cara não tinha a tua elegância. era melhor mesmo não ser você. não quero romper com todas as minhas convicções por culpa de um homem polido. penso em encontrar-te todos os dias e teu rosto é presença recorrente em meus sonhos - no último, você deitado numa cama desarrumada de chalé, de camisa verde entreaberta, me chamava através de um sinal com as mãos. me sentei ao teu lado te beijei carinhosa. é difícil acordar. minhas calcinhas transbordam. não quero demolir meus princípios em detrimento da tua educação. mas as situações andam fugindo das minhas percepções. há de haver um homem para toda princesa. 

sábado, 29 de junho de 2013

Ale-Alejandra

Sabe... aeroporto é assim. Todo mundo corre ansioso, ninguém olha pros lados e a tensão se aloja no ambiente como se fosse mero oxigênio. 

Não foi possível saber o nome dela. 

Ainda assim, me lembro bem de como estava cercada por um careca feio - que, de minuto a minuto, olhava para todos os lados como quem não quer dividir a beleza daquela moça. Me recordo profundamente de seus olhos esbugalhados e tão caídos - dele, não dela. Era um cara feio demais para a minha princesa. Um desperdício que me fazia triste e oco, pois, apesar de tanto cabelo, eu não tinha a preciosa chilena dos meus olhos por perto. Sortudo mesmo era aquele calvo barrigudo. 

Fui assaltado numa loja da Dunkin Donuts - 12,70 por um donut e um café com leite pequeno -e, enquanto meus pés congelavam dentro de meia de lã e uma bota de couro, li pedaços do livro "10 passos para abrir uma grande empresa", e, por muito tempo, preferi olhar para o meu amor latino do que fazer qualquer coisa que não fosse olhar para meu amor latino.

Enquanto aguardava meu voo, já num estado enfadonho deplorável, quase desacreditado da vida e, pior, quase pedindo para que meu avião se espatifasse no chão assim que decolasse, eu tentava adivinhar seu nome. Buscava dar nomes de realeza a ela, mas aí voltava para a realidade leprosa onde eu encontrava, pisava firme no chão e pensava em nomes palpáveis e mais ordinários do que Irina Laureen (que nem seria nome para uma latina da gema, a não ser que seu pai fosse um americano/inglês mais da gema ainda). Qualquer nome não seria nome para ela, mas seria. Minha beleza de cabelos acobreados e olhinhos verdes. 

Comecei a pensar em nomes de origem quente, pensados enquanto se olhar o mar de Vina del Mar. Por que eramos latinos e por que ela parecia latina. Por que estávamos indo para Santiago, assim que a assistente gostosa e caolha da LAN nos permitisse. 

Nove letras galopantes saltando de meu cérebro e quase saindo de minha boca. A-L-E-J-A-N-D-R-A. Foi o nome digno que consegui inventar para a minha rainha mapuche. Uma mapuche bonita, linda, maravilhosa, que só era mapuche (um povo chileno desgraçadamente feio) por que vinha do Chile, ou o pedaço da Europa na América do Sul.

Meu estomago se encolhia e apenas se encolhia cada vez que meu olhar atravessava minhas lentes escuras para encontra-la nos braços daquele homem asqueroso. Não era possível uma princesa estar acompanhada de um ogro e, ao mesmo tempo, estar feliz. 

Ale-alejandra não sorria.

Eu era um valente de terno e gravata, mas sem coragem nenhuma. Era como não vestir cuecas.

(...)

Hoje, depois de uma semana de volta a São Paulo, encontrei minha rainha chilena no ônibus  Não era ela, mas era quase. 

Gosto de inventar vida para pessoas no busum. Essa era estudante de medicina na USP, pois desceu no ponto das Clínicas, na Doutor Arnaldo. Ela tinha quase tudo aquilo que Alejandra tinha, menos sua realeza.

Pensei em pega-la pelo braço e fazer dela a minha mulher dos sonhos, mas... não. 

Sonhos são perfeitos, seres humanos, não.

terça-feira, 25 de junho de 2013

anotação radioativa

Escrevo em dois lugares. Neste blog e no meu caderno de folhas amareladas.
Coisas do blog vão para o caderno as vezes, mas nada do caderno vem para o blog. Nunca.

Hoje um escrito do caderno veio parar aqui. Um escrito que sangra, mas que parece poesia concreta dadá byroniana. Ou não. Ou talvez eu esteja somente sendo presunçosa.

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shame on me
"você é tão jovem e bonita,
não deveria fumar"
foda-se
shame on me
foda-se

primeiro eu aprendi a chorar escondida
depois eu aprendi que chorar escondida é uma bosta
dói pra caralho, é uma bosta.

depois eu descobri que as pessoas precisam de mim,
mas não confiam em mim.
shame neles.

as vezes um cigarro é tudo o que me resta,
mas na maioria das vezes, um cigarro é só o que me resta.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sobre a égide da paixão perdida


Entre tantas, me perdi no seu infinito. O que me resta é só isso, um coração dolorido. Mais perdido do que tudo, poderia citá-las, mas viraram poesias.

O antagônico dessa solidão, não tem par, nem sequer rima com essa tal de paixão. Só vive em pensamento... e o real não dá retorno.

As fugazes tentativas geraram retornos perdidos. Perdi tantas paixões que não escolhi, e perdi tantas outras nas quais apostei.  E o tempo não volta, segue em frente, e me pergunto quantas paixões terei que perder?  Sou eu ou você?

E quando vem a razão, essa que some nas melhores condições, é mártir. Mas quando se parte dela, há confusão, no sentir.

Se sou sincero, explosão. Se tímido, falta ação. Quem diria que dessa relação haveria meio termo?
Se os corações choram, é porque a paixão a protege.

E mal sabem elas, no plural mesmo.
Que o encontro, não é realização é possibilidade.

Romper a égide, para o encontro, era só o que queria.


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Daniel Rocha

terça-feira, 21 de maio de 2013

capote valente

o busum demora a passar
acendo um cigarro
e depois outro.

mais outro.

bartira
sumaré
capote valente
(é perto do seu trampo)
doutor arnaldo
angélica
gélida

a dor insiste.

homem tomando enquadro.

e o busum demora a passar.

e como eu queria que deus existisse
e que essa fosse minha preocupação mais importante.

dizer tchau a você é uma foda mal dada,
uma gozada interrompida,
um macarrão frio,
inverno sem cobertor,
inferno sem dor.

ver tudo tornar desgraça,
decepção e angústia.

viver a procura da porra da cura
que não existe, não tem remédio.

homeopatia que me valha é maconha.

nesse planeta é só podridão a existir,
pois nascemos da falta de escrúpulos,
vemos vídeos pornográficos,
gente comendo gente,
estocando sem piedade.

nascemos disso e como dói tentar sair...

viveremos presos a essa condição de bichos escrotos para sempre?

viveremos até quando morrendo por amor?

eu não sei dizer adeus,
eu não sei dizer oi,
eu me pego fitando o passado
almejando um futuro
buscando em outros o que você não pôde me dar.

agora, nesse instante, a culpa é de quem?

minha, que te dei minha autonomia

ou

sua, que preferiu a indecência das ruivas?

nesse momento vivo numa caixa de sapatos
apertada e escura,
onde sair dói,
o sol faz frio
o sol me mata

o sol vai tomar no cu.

nesse momento continuo buscando explicações
até o dia em que tudo vai virar


novamente


novamente


novamente

pó.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

meu nome é Terry, mas poderia ser Gal

[esta é uma "obra" (RISOS) de ficção]

[uma "obra" inspirada em Gal Gosta e sua canção mais bonita]

[uma "obra" que não é de arte]

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por que não aceitar uma essência é tão penoso?

transar com o rapaz da banca seria mal para qual de nós dois? nós três, quatro, cinco...

(seis doses de jack e/é uma foda)

ele comprou o le monde, eu um cigarro. 

meu olhos saltaram para a revista, ele percebeu e disse "leva que esse tá bom". e eu, quase que me agarrando ao pescoço dele, quase abrindo sua braguilha, quando arrancando meu sutiã por telepatia:

"não terminei a do mês passado ainda..."

e ele bem poderia me pedir para trocarmos telefone, mas não o fez. 
eu bem poderia dizer "chega aqui em casa, vamo fudê", mas não.

aquele estilo meio selton mello, meio bossa nova, meio professor de economia. 

um nada com nada. 

com porra nenhuma.

me fez querer alguma dose de suor. 

porém, nesse momento, sou uma mulher de carências e ciumes.
não consigo me desvincular da saudade do meu presente e da saudade do me passado.

a saudade do meu futuro assusta, mas por ela tenho mais anseio que falta.

. . .

fico feito uma esfera, com lados infinitos e sem lado nenhum.

não aguento amar, meus pesadelos não me suportam, queria querer putaria, pois a sensibilidade me faz brochar pênises por aí.

. . .

all around this fucking world

. . .

não aguento mais a desordem do meu Brasil interior. meus mil Brasis dentro de mim, ora tão frios quanto o rio grande do sul, ora tão quentes como eu mesma. ou como hellcife.

. . .

se eu pudesse desgraçar e amaldiçoar uma espécie, essa seria o sexo masculino em sua totalidade.

homem é uma delicia, homem é um bicho apaixonante.

barba pelo unha pinto pança cheiro suor 

homem é uma coisa gostosa, mas é uma desgraça. 

sabe, homem, o que você é? UMA DESGRAÇA, JOSUÉ. 
é isso que você é.

e aí a ninfomaníaca sou eu. 

que penso em pênises toda hora. 

. . .

aqui está uma pessoa que escreve muito sobre homens.

aqui está uma pessoa que morre de sensibilidade e de carência momentânea.

aqui está uma pessoa que não entende isso.

. . .

"não faz mal que ele não seja branco, não tenha cultura de qualquer altura, eu amo igual"

quinta-feira, 16 de maio de 2013

ciúme é assim:
QUEIMA.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

o primeiro amor da vida de meu pai

Esse sou eu:



Essa, abaixo, é Guita.
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E se Guita pudesse trocar uma só palavra comigo... eu seria o garoto pobre mais rico de São Paulo, ou talvez do mundo, pois era desenhada indomável e meu coração não caberia no peito depois de um sorriso dela.

Naquelas alturas, o que me constituía era um par de sapatos três números maiores que meus pés, meias furadas e uma boina cinza que mal se segurava em meus cabelos rústicos. Fazia entregas na casa de Guita, para sua mãe e avó, porém, trocar olhares com ela não me era permitido. Só conseguia flertar sozinho quando ela aparecia naquela sacada marrom de arte noveau. Ah, que pezinhos delicados tinha meu primeiro amor! Diferente de mim, pobre, fodido, fedido, sujo – pezinhos que calçavam sandálias de couro e meias brancas, vestido bege apaixonante, típico das garotas judias da Oscar Freire. Quando saia, usava um chapéu cor de rosa com uma fita de seda amarrada. Eu me casaria com ela vestida exatamente dessa forma, sem modificar sequer um grampo. Mas Guita não sabia meu nome, tampouco sabia de mim.

Quando comentei com meu primo Irineu que estava amando uma judiazinha, ele riu e pediu para que eu o ajudasse a carregar seu carrinho de brinquedo, um belo carrinho, imitação de um Puma. Mas que mundo besta pra mim. Se não era um diabo, o que era? Não tinha carrinho, nem pai, nem mãe, nem Guita. Só o que tinha era um pião velho, meus sapatos nadantes e uma imaginação brava. 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

voltei com meu ex



por esses dias resolvi voltar com meu ex. aquela coisa de “dar mais uma chance”, ou simplesmente “relembrar os velhos tempos”. resolvi reatar por que, de certa forma, ele me acompanha no bolso, não reclama, não me pede coisas e só me serve. meu ex tem uma submissão agradável, às vezes contraditória, mas que sempre me arranca bons suspiros cansados de mim. meu ex me completa de uma forma complexa, por que é alvo, é torneado, roliço, gostoso. chega a ser iluminado e até dourado. adoro colocar meu ex na boca, engolir ele quase todinho. e sempre encontro o gozo quando ele expele toda aquela coisa branca que adoro engolir. meu ex é quase a minha religião – transcende. e digo que esse exercício me causa um prazer inominável, pois, indômito, meu ex me acompanha ainda assim.

do meu ex não sinto ciúmes. adoro dividi-lo com as minhas amigas, uma quase suruba é o que fazemos. ele passa de boca em boca, sempre quieto, resiliente e sorridente. ele tolera nossas conversas e nem faz cara feia. meu ex é maravilhoso, pois ele me aguenta e ainda aguenta mais nove mulheres insanas. e como é resistente, esse rapaz! dá prazer a dez mulheres, de uma vez, se transformando em dez, ao mesmo tempo. meu ex me dá tesão. meu ex é a coisa mais gostosa do universo. ele combina com uma roda de conversa ou com uma rodada de breja barata. ele me acompanha enquanto uso o crachá da firma no almoço. me acompanha quando eu meto os chifres nele com outro homem. e não reclama. é silente e bondoso.

meu ex é tão gostoso, mas tão gostoso, que sempre que fumo um beck, ele fuma comigo. nunca recusou, eu juro!

desse meu ex, quero ser atual para sempre. desse meu ex, quero a eterna companhia. quando eu resolver assistir O Poderoso Chefão pela trigésima vez, quero meu ex na minha boca. pois ele não vai balbuciar absurdos e dizer “de novo?” nunca. nunquinha, eu garanto. a esse meu ex, confio minha vida e minha morte.

Marlboro, eu te amo. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

sou um parasita numa imensa rocha

por que nesse mundo a gente procura uma suavidade que não existe? uma pureza que não somos capazes de suportar, inocências que preferíamos ter antes de descobrir qual é a verdade sobre todos os seres.

comer chocolates ou cus não é coisa que faça diferença. apertar a mão de um amigo ou a bunda de um estranho no ônibus também não. afinal, nascemos para isso. nascemos para viver e seguir instintos que, teimosos, insistimos em dizer que podem ser podados e superados. nossos instintos não se acomodam nunca.

me encho de presunção para dizer que sou um ser humano racional, mas quando a raiva me sobre pras cabeças, falo coisas absurdas para seres humanos que não merecem lágrimas salgadas. eu já sofri por amor e, depois disso, fiz sofrer. eu sangrei pessoas sem saber, mas, sabendo, sangrei também. e que espécie de bicho racional sou eu? aquele que sabe ler e jogar todas essas palavras desgostosas aqui? não.

sou um bicho e só bicho. um bicho acoado, feliz e triste. de barriga cheia, feliz. sem um pênis por perto, triste. tenho lacunas a preencher e por isso gosto de homens. mas juro que bem quero uma canção de chet baker para ser tema da minha vida. e não consigo. eu só me arrasto.

já disse uma vez e repito: nada disso aqui é verdade, é tudo delírio. 

quero pessoas que não tenho coragem de conversar. quero pessoas que não tenho coragem de pedir atenção. assim, sofro. assim, sou humana e me enojo por isso.

sou o bicho humano, acoado e triste, insistente, burro, fraco.

zoado.

eles são homens e eu amo todos. amo homens, seus pelos, barbas, peitos e mãos gordas. 

elas são mulheres e delas só tiro um companheirismo que me nutre. é um amor só. (amor?)

eu sou um humano bicho, irracional, tremendamente irresponsável, em busca de dinheiro para comprar meus adornos de felicidade.

um parasita numa imensa rocha.

sábado, 27 de abril de 2013

M.B.

"(...)
Logo depois de terminado este livro, meu filho bem-amado, Marc, de cinco anos, foi tirado de mim. A ele eu dedico Tudo o que é sólido desmancha no ar. Sua vida e sua morte trazem muitas das ideias e temas do livro para bem perto: no mundo moderno, aqueles que são mais felizes na tranquilidade doméstica, como ele era, talvez sejam os mais vulneráveis aos demônios que assediam esse mundo; a rotina diária dos parques e bicicletas, das compras, do comer e limpar-se, dos abraços e beijos costumeiros, talvez não seja apenas infinitamente bela e festiva, mas também infinitamente frágil e precária; manter essa vida exige talvez esforços desesperados e heróicos, e às vezes perdemos. Ivan Karamázov diz que, acima de tudo o mais, a morte de uma criança lhe dá ganas de devolver ao universo o seu bilhete de entrada. Mas ele não o faz. Ele continua a lutar e a amar; ele continua a continuar."

Cidade de Nova Iorque
Janeiro de 1981
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trecho retirado do prefácio de Tudo que é sólido desmancha no ar, de Marshall Berman.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

veja bem, seu doutor: sou uma mulher. e este texto, quem escreveu fui eu



veja bem: eu sou uma mulher. MULHER.

não vou passar por um tormento duradouro. e isso é só por que eu fiz o que deveria. fiz o que poderia ser feito e fiz direito.

vai passar antes que eu perceba, pois eu creio nas pessoas que apostam em mim. elas me dão a mão e eu seguro forte, pois sorte, seu rapaz, é acreditar na vida. e a vida só é construída através da boa vontade de quem nos ama.

você não conquistou um puto sozinho. mas seu ego é a coisa ridícula que já vi.

meu coração não foi o primeiro que você despedaçou. nem o último.

mas, meu senhor, espero que o seu seja despedaçado um dia. pois problema, todos temos. mas a coragem de voltar, acreditar e amar as pessoas, só os seres humanos HUMANOS tem. 

para você, não desejo nada menos que aprendizado e humildade. e amor. amor pelas pessoas que te fazem ser o que você é. ninguém vive sozinho. 


seria melhor estar morto.


para mim, desejo toda a felicidade do mundo. pois é isso que mereço: toda a felicidade do mundo.

e para isso, vou buscar. vou cultivar amigos, agradecer sempre que possível e me desculpar sempre que minhas mãos tremerem.

pois sou assim. um tipo de ser humano maravilhoso no mundo.

você teve a maior sorte que poderia ao me ter nas mãos. mas você é burro. e além de burro, é egoísta.

minha dor do peito vai passar em 3, 2, 1. 



e para você, só desejo mais amor.