sábado, 13 de abril de 2013

Triste como se inalasse enxofre em meu ultimo suspiro


Estou triste.
Como não ficava desde meus 16 anos
quando perdi a esperança na humanidade,
mas não no amor.

Estou triste.
Como quem perde esperanças.
Porém, não no amor.

Estou triste.
Como quem carrega o peso de todas as misérias humanas
em sacolas plásticas que me rasgam as mãos.

Triste como se inalasse enxofre em meu ultimo suspiro.

Triste como se não enxergasse almas.

Como se não existisse amor em mim...

Mas de maldade não morro.
E juro, que de maldade não morro.

Nem de egoísmo, tampouco por falta de amor.

Estou triste.
Ainda mais triste por que hoje,
num dia de tristezas,
a chuva escorre guerreira
e não se sente a vontade para parar.

Assim, me deixar enxergar o céu,
me perguntar quantos deuses existem...

Não tenho gestos,
nem mãos para gestos.
Mas tenho vontade de criar.

Sobressair, faltar e saltar.

Inutilizar dinheiro.


Sentir pena de quem não sabe amar.


_____________________________________________________________

que fique clara a minha total inabilidade para a escrita.
que fique clara a minha total tristeza.
que fique clara a minha vontade de felicidade.

hoje é o dia em que registro a minha vontade de felicidade. como se meus escritos fossem um diário público.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

ceci n'est pas une poésie



eu não quis falar
mas acontece que as palavras de mim
são de um jeito estúpido:
escorregam e eu nem tomo nota.

hoje pela manhã
pedi as bençãos de Jah
no busum lotado onde a cobradora não gostava de mim
e me olhava feio.

pedi bençãos a mim mesma
mas como costumo dizer
sou desordem, nasci desordem
mas, espero morrer somente no progresso.

processo.

não sei falar francês
e isso não é uma poesia que valha.

isso não é uma poesia.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Tenho medo de pedir colo. 

Tenho medo de pedir colo por que, se me seguram, podem me deixar cair.

A morte é solução ou não.

Quero outra.

Preciso de paz.

quinta-feira, 21 de março de 2013

(ela se afoga) 7

"Richard Ellmann conta que Joyce nunca quis admitir que sua filha Lucia estava psicótica. Adaptava-se às manias da garota e tentava entendê-la e a seguia durante horas em estranhas conversas nas quais pareciam usar uma língua desconhecida. Animava-a a desenhar e a escrever. Mas não podia suportar que Lucia não o reconhecesse e que o insultasse e o chamasse de Mister Shit. Por isso pediu uma entrevista a Carl Jung, que admirava sua obra e que escrevera um artigo exaltando o Ulisses. Joyce, que nesse momento escrevia Finnegan's Wake, mostrou-lhe vários textos de Lucia. 'Ela usa a linguagem como eu', disse. 'Sim', respondeu-lhe Jung, 'mas ali onde você nada, ela se afoga'."

Ricardo Piglia, O laboratório do escritor.

domingo, 17 de março de 2013

meus escritos parecem um diário público.

Só o que eu estava tentando fazer era não voltar para o quarto de novo. Na última vez que te vi. Era tudo o que eu não deveria permitir: ser cruel comigo mesma. E que porra de vida, eu não canso de me maltratar. Naquela última vez em que te vi. Tive sonhos com uma velha japonesa. Sonhei que você entrava e saia rápido de mim. Sonhei com meu celular nos pés. E não sabia se seria pior dormir ou acordar. Não aguentava mais a minha volta e fui procurar a sua. Você foi solícito, meu coração não aguentou. Fui. Na chuva, doendo. Fui te ver. E tudo o que não aguento é seu rosto. Todas as vezes em que abri a porta para você, quase derreti. Você me enche de algo que não sei o nome. Me transborda fácil. Tento arrancar explicações, enxergar motivos. Mas tudo o que me sobra é um vazio intermitente. As vezes penso que sou uma leoa muito mais feroz do que eu mesma sou capaz de aceitar. O que tenho passado vai deixar calos, cicatrizes e feridas que vão atormentar por algum tempo. Tenho passado muito penosamente por isso, mas preciso acreditar que vai passar. Nunca tive fé em nada, mas preciso encontrar a fé dentro de mim. É o que me move. É apenas o que preciso. Sair da situação deriva. Remar com as duas mãos que tenho. São pequenas, mas aguentam firme. Só eu sei que sim. Ou não. Vou começar a entender agora. Eu discorro sobre isso para muitas pessoas. Acredito que elas me entendem, mas isso não me conforta muito. Logo eu, que sempre reclamei da incompreensão alheia.

Esse mundo é irônico demais para a minha imaginação. Acho difícil de acompanhar. 

sábado, 16 de março de 2013

extrato 92

"(...) Não havia comida para bebés em Malanje e a nossa filha tornou a Portugal magra e pálida, com a cor amarelada dos brancos de Angola, ferrugenta de febre, um ano a dormir em cama de bordão de palmeira junto das nossas camas de quartel, estava a fazer uma autópsia ao ar livre por via do cheiro quando me chamaram porque desmaiaras, encontrei-te exausta numa cadeira feita de tábuas de barrica, fechei a porta, acocorei-me a chorar ao pé de ti repetindo Até ao fim do mundo, até ao fim do mundo, até ao fim do mundo, certo da certeza de que nada nos podia separar, como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo, exclamou o Neruda e era assim conosco, e é assim comigo só que não sou capaz de to dizer ou digo-to quando não estás, digo-to sozinho tonto do amor que te tenho, demais nos ferimos, nos magoámos, nos tentámos matar dentro de cada um, e apesar disso, subterrânea e imensa, a onda continua e como para a praia na tua direção o trigo do meu corpo se inclina, espigas de dedos que te buscam, tentam tocar-te, se prendem na tua pele com força de unhas, as tuas pernas estreitas apertam-me a cintura, subo a escada, bato ao trinco, entro, o colchão conhece ainda o jeito do meu sono, penduro a roupa na cadeira, como uma onda para a praia como uma onda para a praia como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo."

Memória de Elefante, António Lobo Antunes

quinta-feira, 14 de março de 2013

(...) é dilacerante. Até o amor eterno tem fim.

terça-feira, 12 de março de 2013

Hoje é dia de deixar sangrar


Ainda que eu soubesse tudo sobre o final, estive disposta a ir e fazer novamente. Tentar não era permitido - tampouco uma opção. Mas foi o que me sobrou.  Falhei e esperei pelo melhor. Deixar morrer naturalmente é calmaria e lucro; assassinar é tristeza.

Meus pés tremiam, minhas mãos suavam e, ainda assim, você se esquivou de um beijo.

A vida às vezes brinca comigo. Mas dessa vez ela passou dos limites. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


Dinosauria, We
Charles Bukowski


Born like this 
Into this 
As the chalk faces smile 
As Mrs. Death laughs 
As the elevators break 
As political landscapes dissolve 
As the supermarket bag boy holds a college degree 
As the oily fish spit out their oily prey 
As the sun is masked 

We are 
Born like this 
Into this 
Into these carefully mad wars 
Into the sight of broken factory windows of emptiness 
Into bars where people no longer speak to each other 
Into fist fights that end as shootings and knifings 
Born into this 
Into hospitals which are so expensive that it’s cheaper to die 
Into lawyers who charge so much it’s cheaper to plead guilty 
Into a country where the jails are full and the madhouses closed 
Into a place where the masses elevate fools into rich heroes 

Born into this 
Walking and living through this 
Dying because of this 
Muted because of this 
Castrated 
Debauched 
Disinherited 
Because of this 
Fooled by this 
Used by this 
Pissed on by this 
Made crazy and sick by this 
Made violent 
Made inhuman
 
By this 
The heart is blackened 
The fingers reach for the throat 
The gun 
The knife 
The bomb 
The fingers reach toward an unresponsive god 
The fingers reach for the bottle 
The pill 
The powder 

We are born into this sorrowful deadliness 
We are born into a government 60 years in debt 
That soon will be unable to even pay the interest on that debt 
And the banks will burn 
Money will be useless 
There will be open and unpunished murder in the streets 
It will be guns and roving mobs 
Land will be useless 
Food will become a diminishing return 
Nuclear power will be taken over by the many 
Explosions will continually shake the earth 
Radiated robot men will stalk each other 
The rich and the chosen will watch from space platforms 
Dante’s Inferno will be made to look like a children’s playground 
The sun will not be seen and it will always be night 
Trees will die 
All vegetation will die 
Radiated men will eat the flesh of radiated men 
The sea will be poisoned 
The lakes and rivers will vanish 
Rain will be the new gold 
The rotting bodies of men and animals will stink in the dark wind 
The last few survivors will be overtaken by new and hideous diseases 
And the space platforms will be destroyed by attrition 
The petering out of supplies 
The natural effect of general decay 
And there will be the most beautiful silence never heard 
Born out of that. 
The sun still hidden there 
Awaiting the next chapter.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


O artista é o criador de coisas belas.

O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.

O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo para um novo material a sua impressão de coisas belas.

A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.

Os que encontram significações torpes nas coisas belas são 
corruptos sem sedução, o que é um defeito.

Os que encontram significações belas nas coisas belas são 
os ocultos: para esses há esperança.

Eleitos são aqueles para quem as coisas 
belas apenas significam Beleza.

Um livro moral ou imoral é coisa que não 
existe. Os livros são bem escritos, ou mal 
escritos. E é tudo. 

A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara no espelho.

A aversão do século XIX pelo Romantismo é a fúria de Caliban ao não ver sua cara no espelho.

A vida moral do homem faz parte dos temas tratados 
pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso 
perfeito de um meio imperfeito.

Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.

Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética 
num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.

O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.

O pensamento e a linguagem são para o artista 
instrumentos de arte.

O vício e a virtude são para o artista matérias de arte.

Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo.

Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas.

O que a arte realmente espelha é o espectador, não a 
vida.

A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela 
que a obra é nova, complexa e vital.

Quando os críticos divergem, o artista está 
em consonância consigo mesmo.

Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, conquanto que não a admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.

Toda a arte é completamente inútil.






- WILDE, Oscar. Prefácio do Retrato de Dorian Gray.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Abel, agradeça ao John


Cabelos loiros, encaracolados, cobrem meu rosto quando acordo e um peso confortável está em cima de mim.
E essa ressaca. Minha única vestimenta, meu relógio. São... duas e quarenta da tarde. Parece que estou semi-morto. É por isso que eu não saio de casa. É melhor ficar em casa remoendo meus problemas do que aguentar esse tipo de efeito pós-seja-lá-o-que-tenha-havido-aqui.


Ontem os caras conseguiram me tirar de casa.
- Você precisa sair, se divertir. Pensa que não precisa, mas precisa, e tem o Abel...
E tinha o Abel. Quando alguém está mal, por algum motivo, costuma pensar que está sozinho, mas o fato é que sempre tem alguém pior do que você. O cara pior, dessa vez, era o Abel. Incrivelmente, o Abel. Uma pessoa sempre controlada. As pancadas que a vida dá.
Não interessa qual o problema, sempre tem alguém pior. Também não sei como é o fim dessa linha, quem é o pior dos piores, se é que seria possível, já que sempre teria alguém pior... Bah, enfim, eu, Diogo e Abel fomos pra uma boate que o Diogo conhecia. Diogo, único de nós em estado de verdadeiro bom humor, teve a ideia. Gosto do escuro desse tipo de lugar e também havia um balcão no bar, onde eu poderia passar a noite toda, sentado, já que dançar é algo que eu não faço. Após termos entrado e andado um pouco pelo local, observando as pessoas, Diogo aproximou-se de mim e declarou:
- Hoje eu transo.


Onde está o Abel agora eu também não sei. Será que devo me preocupar? O Diogo eu consigo ver daqui, derrotado, na outra cama. Até que minha ressaca não está tão forte, felizmente. Gostei desses cabelos. Não havia reparado neles antes. Pensando bem, acho que não reparei em muita coisa. Gosto dessa cor de pele. Não lembro do rosto. Me estico um pouco e observo. Bonita. Nunca vi na vida.


Havia muitas mulheres bonitas dançando e poucos homens na pista. Dançavam umas com as outras. E eram bonitas mesmo, lindas. Uma cena ótima. Depois que paramos no bar e pedimos cerveja, percebi que o Abel as olhava discretamente, um tanto de lado, como se estivesse achando tudo aquilo terrível:
- E aí, Abel.
Ele me olhou com os olhos baixos, como se estivesse com vergonha de alguma coisa, porque entendeu o que eu quis dizer:
- Tá foda, precisava mesmo sair de casa.
- Sei como é.
Diogo percebeu o assunto desanimador e disse que o importante era saber que se distrair ajuda, mesmo não sentindo vontade. Tem que fazer um esforço, se obrigar. Disse isso e reconheceu um outro cara, a uns cinco metros de nós, num canto. Sorrindo muito, visivelmente contente, apontou para ele o dedo e disse:
- Caaara, você!!!
Andou então até o conhecido e ficamos eu e Abel no bar. Eu falava o que eu sabia que precisava falar:
- Depois de um tempo você não liga tanto assim, mesmo que pareça impossível no começo.
- É. Eu sei.
Abel respondeu, deu um sorriso leve, que pensei ser forçado, e passou a olhar menos nervoso para as mulheres que dançavam. Você deve saber, Abel, pensei, mas saber é só uma parte. Daqui pra frente nem eu sei ao certo o que fazer. E o Diogo é um filho da puta que desapareceu, eu pensei depois de mais algum tempo. Como é que eu poderia fazer companhia pro Abel, nesse estado? Minha sorte é que ele não fala muito, então até que tudo bem se a gente podia só ficar ali observando as garotas.


E o nome? Não consigo lembrar. Obviamente eu ouvi, mas não lembro. Não sei, Jéssica talvez? Tinha E em algum lugar. Letícia, Débora, não sei. Puts. Percebo que não lembro de mais do havia me dado conta e começo a me preocupar com o Abel. Não lembro dele desde o momento em que o Diogo voltou ao balcão, onde estávamos, acompanhado do amigo que ele encontrou. Isso aconteceu muito depois depois de seu desaparecimento e eu e Abel já estávamos bem à frente nas cervejas.


Caras, achei aqui o que vocês precisam. Consegui com o John. Esse é o John. Esses são os caras, John.
E colocou alguma coisa dentro da minha longneck e também na do Abel.
E aí, John. Que que é isso, Diogo?
Um estimulantezinho que o John costuma revender por aqui. Que sorte a gente ter encontrado ele, ein?! Não é nada pesado, ele me garantiu, e eu já usei bastante, pode ficar tranquilo.
Abel parecia com medo. Olhou pra mim com os olhos arregalados. Abel sempre foi o responsável. Se não estivesse numa crise pessoal, estaria cuidando de nós quase como um irmão mais velho. Já teria me reprimido pela quantidade de cervejas que bebi (na verdade, precisaria ser um irmão bem mais velho pra isso).
Sério, Diogo? Que merda é essa?
O tal John olhou pra mim com o olhar que diz tu é careta demais pra tá aqui.
Fica tranquilo. Fica tranquilo, Abel. Vai ser como... Vai ser como tomar bastante energético de uma vez, mas é um comprimido. Porra, muita explicação em cima de algo que a gente devia curtir e não explicar, ein? Chega disso.
Tá. Whatever.
Explicação demais mesmo. Eu tava bem ali sem muita conversa, só olhando pras bundas das meninas. Querem me drogar, ok, contanto que eu continue aqui e que as meninas continuem onde estão. Continuei bebendo minha cerveja, a partir de então temperada com sabe-se-lá-o-quê.


Ela começa a despertar, encolhendo-se um pouco, fazendo força, mas suave, gemendo baixo. Me aperta um pouco no abraço, levanta o rosto, acordando com muito mais certeza dos fato do que eu tinha, e diz, sorrindo, com os olhos apertados de sono:
- Oi.


Eu estava em pé no meio da pista de dança, com minha longneck na mão, vazia. Vazia, já há bastante tempo. Minha cabeça preenchida. Era muito melhor observar todas aquelas bundas e pernas de perto assim, num campo de visão de trezentos e sessenta graus. Diogo dançava com uma garota de vestido vermelho bastante curto. Era o som que preenchia meu cérebro. Ela rebolava muito com a bunda encaixada no quadril dele, se esfregando, e ele até esquecia de se mecher pra olhar pra aquilo de boca aberta, as mãos, sem tocar, mas quase apertando, moldando as nádegas da garota, mãos em posição de recepção de milagre, como quem diz Deus é o senhor é a tua graça muito obrigado Jesus. Eu ri tanto que perdi a força e deixei a garrafa cair no chão. Não quebrou. Abaixei com muita dificuldade pra pegar. Enquanto eu abaixava o som parecia mudar. Cheguei em baixo e fiquei no nível das bundas. Eu queria continuar ali, só olhando pra elas, mas meus olhos se fechavam enquanto eu ria incontrolavelmente. Fiquei abaixado. Ri. Esperei. Levantei (me levantaram). Diogooooo. Me abraçou. É, cara, não te disse? Cara. Cara... CARA, você disse! To vendo, to vendo. Essas são as meninas, meninas, esses são os caras. Cadê o Abel? O Abel, não sei, ele tá por aí. Hah, Hah. As meninas dançavam e riam bastante. No escuro, as poucas luzes correndo, mudando, piscando. A fonte da música eram as profundezas da minha mente. Um harém eclíptico, pensei, eclíptico, que porra de palavra é essa. É de eclipse, eu explicava a mim mesmo, é como um eclipse, as luzes mudando aqui e esse monte de lua, de bunda iluminada. É, foi isso. Eu tava explicando uma coisa pra mim mesmo. A música era ruim.


- Oi. Respondi sorrindo, fingindo não estar apavorado.
Dá um beijo no meu ombro, deita de novo, agora com o rosto virado para mim e volta a dormir. Eu espero um pouco, me arrasto para o lado, me viro de leve, tento não ser brusco e... Consigo escapar. Que merda. Diogo e mais duas garotas que estão com ele na outra cama aparentemente jamais irão despertar. Eu sento na cama e percebo: tem mais uma mulher no chão. Nota mental: nunca mais adquirir produto algum de alguém chamado John, só por segurança. E quem diabos é essa menina aqui!? Recolho minhas roupas no chão. Demoro muito pra encontrar um dos tênis, que está no outro canto do quarto. Ninguém reage ao barulho que faço. Me visto. A carteira e o celular estão ainda, pelo segundo milagre em menos de vinte e quatro horas, dentro dos bolsos da calça, intactos. Vejo uma pista sobre quem pode ser essa menina: o vestido que está no pé da cama é vermelho. Abro a porta do quarto e saio. Considerando o ritmo da coisa, espero encontrar mais alguma mulher nua, mas a sala do apartamento do Diogo está vazia. A luz do Sol entra aqui com muito mais força do que no quarto e meus olhos doem se eu olho para a janela. A porta está destrancada, eu giro a maçaneta e um grande peso empurra a porta. Abel cai no chão, sobre o solado da porta, todo encolhido. Ele acorda, tenta me olhar e estende a mão que segura obstinadamente uma sacola de farmácia:
- Ô, cara. Eu trouxe camisinhas pra vocês.


H.G.S.

sábado, 19 de janeiro de 2013

extract

"I have fought for what I believed in for a year now. If we win here we will win everywhere. The world is a fine place and worth the fighting for and I hate very much to leave it. And you had a lot of luck, he told himself, to have had such a good life. You've had just as good a life as grandfather's though not as long. You've had as good a life as any one because of these last days. You do not want to complain when you have been so lucky. I wish there was some way to pass on what I've learned, though. Christ, I was learning fast there at the end. I'd like to talk to Karkov. That is in Madrid. Just over the hills there, and down across the plain. Down out of the gray rocks and the pines, the heather and the gorse, across the yellow high plateau you see it rising white and beautiful. That part is just as true as Pilar's old women drinking the blood down at the slaughterhouse. There's no one thing that's true. It's all true. The way the planes are beautiful whether they are ours or theirs. The hell they are, he thought."

in For Whom the Bell Tolls, 467, Ernest Hemingway

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Seios

ilustração de Andreza S. Ballan
em parceria com Leandro Valentin

eu sei
ela seios
ele sem
e tu?
nós somos
vossos seios.
tu é ela então?

eu sei,
ela seios.
sem esses seios,
não sei mais,
assim bem,
se eu posso continuar
sabendo e sendo
eu.

pois então, agora sim
eu sei que eu,
ela (ou tu)
e os seios
somos nós.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Se não sabe escrever, nem desenhar, desenhe.


Saturno



Eu sentia fome. Muita. Três dias atrás. Agora não sinto mais. Estou aqui outra vez. Toco a campainha e aguardo. Mão no bolso da jaqueta, confiro outra vez. Eu avisei que viria. Ela abriu a porta. Oi. Olá. Vim comer, de novo. Risos. Agora eu não tenho mais fome. Entrei. Já faz três dias. Pois é. Quadros nas paredes. Provavelmente nunca parou pra pensar neles. Essa coisa, o tempo. Tem festa hoje. Onde, lugar de sempre, aniversário de Alguém. O Tempo. Nenhum desses quadros me agrada agora. Algo estava destruído agora. Alguém estava destruído agora, deixado para trás. Mão no bolso. O que se faz com fome... quem vai entender essas coisas. Você vai? Sim, começa às 20:00. Já está destruído.
Mão no bolso. E aí, (enfiei os dedos nos orifícios do soco-inglês) tá com fome? Agora eu não tenho mais fome. Tirei a mão do bolso e mandei o primeiro. Direita. No queixo. Mas. Não caiu, mas vai cair. Não tenho um pingo de dó. Não tenho fome. Tenho outra coisa, chamariam de raiva. Bati. Caiu. Caí por cima. Maxilar. Testa. Peito. Costelas. Olho. Nuca. Já apagou. Foda-se. Eu já dei outro nome. Foda-se. De relance, um quadro. Barco de pesca em mar bravio. Estão por toda parte e ninguém os entende. Hoje eu tenho medo. Bati até meu ombro começar a doer. Não que eu esteja velho, é a falta de exercícios. O Tempo. Sangue. Não me sinto melhor. Sabia que não. Já foi. Sangue por todo lado. Já está destruído. Isso é só uma descarga inútil. Não há volta. A culpa nunca morre. Ficando em pé, pisei num dente perdido no piso. O Tempo nunca morre. Não tenho fome. Não é raiva, é o desespero. Meu tempo passa e eu não posso voltar atrás. Gemidos. Vai acordar no inferno, puta. Muito sangue. Três dias em desespero. Bati mais. Bati até arrebentar tudo. Não tenho mais fome. Jamais terei. Já sei que pintura eu gostaria de admirar agora. O Tempo é cruel com os homens, assombra a todos. Os homens são cruéis uns com os outros. Quem aqui está livre? O Tempo. Tempo, engula mais um de seus filhos. O corpo branco, sangrando, é até infantil nas mãos do Tempo. Vejam o olhar que tem Saturno enquanto devora a cabeça de seu filho, mergulhado na escuridão. Não é fome, é medo.

H. G. S.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Coisas que eu escrevia durante as aulas de legislação no primeiro ano

"Oh, vida...
Oh, céus!"

Soprou em minha orelha a ovelha. Nada do que aquela humorista falasse era capaz de me fazer brotar antenas.
Era choro agudo demais, um tremor rutilante na garganta. Beijava meus pés e pedia sofrendo para que eu olhasse seus olhinhos.

Eu amo muito de dia e a noite eu vou pra farra.