quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


O artista é o criador de coisas belas.

O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.

O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo para um novo material a sua impressão de coisas belas.

A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.

Os que encontram significações torpes nas coisas belas são 
corruptos sem sedução, o que é um defeito.

Os que encontram significações belas nas coisas belas são 
os ocultos: para esses há esperança.

Eleitos são aqueles para quem as coisas 
belas apenas significam Beleza.

Um livro moral ou imoral é coisa que não 
existe. Os livros são bem escritos, ou mal 
escritos. E é tudo. 

A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara no espelho.

A aversão do século XIX pelo Romantismo é a fúria de Caliban ao não ver sua cara no espelho.

A vida moral do homem faz parte dos temas tratados 
pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso 
perfeito de um meio imperfeito.

Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.

Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética 
num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.

O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.

O pensamento e a linguagem são para o artista 
instrumentos de arte.

O vício e a virtude são para o artista matérias de arte.

Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo.

Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas.

O que a arte realmente espelha é o espectador, não a 
vida.

A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela 
que a obra é nova, complexa e vital.

Quando os críticos divergem, o artista está 
em consonância consigo mesmo.

Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, conquanto que não a admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.

Toda a arte é completamente inútil.






- WILDE, Oscar. Prefácio do Retrato de Dorian Gray.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Abel, agradeça ao John


Cabelos loiros, encaracolados, cobrem meu rosto quando acordo e um peso confortável está em cima de mim.
E essa ressaca. Minha única vestimenta, meu relógio. São... duas e quarenta da tarde. Parece que estou semi-morto. É por isso que eu não saio de casa. É melhor ficar em casa remoendo meus problemas do que aguentar esse tipo de efeito pós-seja-lá-o-que-tenha-havido-aqui.


Ontem os caras conseguiram me tirar de casa.
- Você precisa sair, se divertir. Pensa que não precisa, mas precisa, e tem o Abel...
E tinha o Abel. Quando alguém está mal, por algum motivo, costuma pensar que está sozinho, mas o fato é que sempre tem alguém pior do que você. O cara pior, dessa vez, era o Abel. Incrivelmente, o Abel. Uma pessoa sempre controlada. As pancadas que a vida dá.
Não interessa qual o problema, sempre tem alguém pior. Também não sei como é o fim dessa linha, quem é o pior dos piores, se é que seria possível, já que sempre teria alguém pior... Bah, enfim, eu, Diogo e Abel fomos pra uma boate que o Diogo conhecia. Diogo, único de nós em estado de verdadeiro bom humor, teve a ideia. Gosto do escuro desse tipo de lugar e também havia um balcão no bar, onde eu poderia passar a noite toda, sentado, já que dançar é algo que eu não faço. Após termos entrado e andado um pouco pelo local, observando as pessoas, Diogo aproximou-se de mim e declarou:
- Hoje eu transo.


Onde está o Abel agora eu também não sei. Será que devo me preocupar? O Diogo eu consigo ver daqui, derrotado, na outra cama. Até que minha ressaca não está tão forte, felizmente. Gostei desses cabelos. Não havia reparado neles antes. Pensando bem, acho que não reparei em muita coisa. Gosto dessa cor de pele. Não lembro do rosto. Me estico um pouco e observo. Bonita. Nunca vi na vida.


Havia muitas mulheres bonitas dançando e poucos homens na pista. Dançavam umas com as outras. E eram bonitas mesmo, lindas. Uma cena ótima. Depois que paramos no bar e pedimos cerveja, percebi que o Abel as olhava discretamente, um tanto de lado, como se estivesse achando tudo aquilo terrível:
- E aí, Abel.
Ele me olhou com os olhos baixos, como se estivesse com vergonha de alguma coisa, porque entendeu o que eu quis dizer:
- Tá foda, precisava mesmo sair de casa.
- Sei como é.
Diogo percebeu o assunto desanimador e disse que o importante era saber que se distrair ajuda, mesmo não sentindo vontade. Tem que fazer um esforço, se obrigar. Disse isso e reconheceu um outro cara, a uns cinco metros de nós, num canto. Sorrindo muito, visivelmente contente, apontou para ele o dedo e disse:
- Caaara, você!!!
Andou então até o conhecido e ficamos eu e Abel no bar. Eu falava o que eu sabia que precisava falar:
- Depois de um tempo você não liga tanto assim, mesmo que pareça impossível no começo.
- É. Eu sei.
Abel respondeu, deu um sorriso leve, que pensei ser forçado, e passou a olhar menos nervoso para as mulheres que dançavam. Você deve saber, Abel, pensei, mas saber é só uma parte. Daqui pra frente nem eu sei ao certo o que fazer. E o Diogo é um filho da puta que desapareceu, eu pensei depois de mais algum tempo. Como é que eu poderia fazer companhia pro Abel, nesse estado? Minha sorte é que ele não fala muito, então até que tudo bem se a gente podia só ficar ali observando as garotas.


E o nome? Não consigo lembrar. Obviamente eu ouvi, mas não lembro. Não sei, Jéssica talvez? Tinha E em algum lugar. Letícia, Débora, não sei. Puts. Percebo que não lembro de mais do havia me dado conta e começo a me preocupar com o Abel. Não lembro dele desde o momento em que o Diogo voltou ao balcão, onde estávamos, acompanhado do amigo que ele encontrou. Isso aconteceu muito depois depois de seu desaparecimento e eu e Abel já estávamos bem à frente nas cervejas.


Caras, achei aqui o que vocês precisam. Consegui com o John. Esse é o John. Esses são os caras, John.
E colocou alguma coisa dentro da minha longneck e também na do Abel.
E aí, John. Que que é isso, Diogo?
Um estimulantezinho que o John costuma revender por aqui. Que sorte a gente ter encontrado ele, ein?! Não é nada pesado, ele me garantiu, e eu já usei bastante, pode ficar tranquilo.
Abel parecia com medo. Olhou pra mim com os olhos arregalados. Abel sempre foi o responsável. Se não estivesse numa crise pessoal, estaria cuidando de nós quase como um irmão mais velho. Já teria me reprimido pela quantidade de cervejas que bebi (na verdade, precisaria ser um irmão bem mais velho pra isso).
Sério, Diogo? Que merda é essa?
O tal John olhou pra mim com o olhar que diz tu é careta demais pra tá aqui.
Fica tranquilo. Fica tranquilo, Abel. Vai ser como... Vai ser como tomar bastante energético de uma vez, mas é um comprimido. Porra, muita explicação em cima de algo que a gente devia curtir e não explicar, ein? Chega disso.
Tá. Whatever.
Explicação demais mesmo. Eu tava bem ali sem muita conversa, só olhando pras bundas das meninas. Querem me drogar, ok, contanto que eu continue aqui e que as meninas continuem onde estão. Continuei bebendo minha cerveja, a partir de então temperada com sabe-se-lá-o-quê.


Ela começa a despertar, encolhendo-se um pouco, fazendo força, mas suave, gemendo baixo. Me aperta um pouco no abraço, levanta o rosto, acordando com muito mais certeza dos fato do que eu tinha, e diz, sorrindo, com os olhos apertados de sono:
- Oi.


Eu estava em pé no meio da pista de dança, com minha longneck na mão, vazia. Vazia, já há bastante tempo. Minha cabeça preenchida. Era muito melhor observar todas aquelas bundas e pernas de perto assim, num campo de visão de trezentos e sessenta graus. Diogo dançava com uma garota de vestido vermelho bastante curto. Era o som que preenchia meu cérebro. Ela rebolava muito com a bunda encaixada no quadril dele, se esfregando, e ele até esquecia de se mecher pra olhar pra aquilo de boca aberta, as mãos, sem tocar, mas quase apertando, moldando as nádegas da garota, mãos em posição de recepção de milagre, como quem diz Deus é o senhor é a tua graça muito obrigado Jesus. Eu ri tanto que perdi a força e deixei a garrafa cair no chão. Não quebrou. Abaixei com muita dificuldade pra pegar. Enquanto eu abaixava o som parecia mudar. Cheguei em baixo e fiquei no nível das bundas. Eu queria continuar ali, só olhando pra elas, mas meus olhos se fechavam enquanto eu ria incontrolavelmente. Fiquei abaixado. Ri. Esperei. Levantei (me levantaram). Diogooooo. Me abraçou. É, cara, não te disse? Cara. Cara... CARA, você disse! To vendo, to vendo. Essas são as meninas, meninas, esses são os caras. Cadê o Abel? O Abel, não sei, ele tá por aí. Hah, Hah. As meninas dançavam e riam bastante. No escuro, as poucas luzes correndo, mudando, piscando. A fonte da música eram as profundezas da minha mente. Um harém eclíptico, pensei, eclíptico, que porra de palavra é essa. É de eclipse, eu explicava a mim mesmo, é como um eclipse, as luzes mudando aqui e esse monte de lua, de bunda iluminada. É, foi isso. Eu tava explicando uma coisa pra mim mesmo. A música era ruim.


- Oi. Respondi sorrindo, fingindo não estar apavorado.
Dá um beijo no meu ombro, deita de novo, agora com o rosto virado para mim e volta a dormir. Eu espero um pouco, me arrasto para o lado, me viro de leve, tento não ser brusco e... Consigo escapar. Que merda. Diogo e mais duas garotas que estão com ele na outra cama aparentemente jamais irão despertar. Eu sento na cama e percebo: tem mais uma mulher no chão. Nota mental: nunca mais adquirir produto algum de alguém chamado John, só por segurança. E quem diabos é essa menina aqui!? Recolho minhas roupas no chão. Demoro muito pra encontrar um dos tênis, que está no outro canto do quarto. Ninguém reage ao barulho que faço. Me visto. A carteira e o celular estão ainda, pelo segundo milagre em menos de vinte e quatro horas, dentro dos bolsos da calça, intactos. Vejo uma pista sobre quem pode ser essa menina: o vestido que está no pé da cama é vermelho. Abro a porta do quarto e saio. Considerando o ritmo da coisa, espero encontrar mais alguma mulher nua, mas a sala do apartamento do Diogo está vazia. A luz do Sol entra aqui com muito mais força do que no quarto e meus olhos doem se eu olho para a janela. A porta está destrancada, eu giro a maçaneta e um grande peso empurra a porta. Abel cai no chão, sobre o solado da porta, todo encolhido. Ele acorda, tenta me olhar e estende a mão que segura obstinadamente uma sacola de farmácia:
- Ô, cara. Eu trouxe camisinhas pra vocês.


H.G.S.

sábado, 19 de janeiro de 2013

extract

"I have fought for what I believed in for a year now. If we win here we will win everywhere. The world is a fine place and worth the fighting for and I hate very much to leave it. And you had a lot of luck, he told himself, to have had such a good life. You've had just as good a life as grandfather's though not as long. You've had as good a life as any one because of these last days. You do not want to complain when you have been so lucky. I wish there was some way to pass on what I've learned, though. Christ, I was learning fast there at the end. I'd like to talk to Karkov. That is in Madrid. Just over the hills there, and down across the plain. Down out of the gray rocks and the pines, the heather and the gorse, across the yellow high plateau you see it rising white and beautiful. That part is just as true as Pilar's old women drinking the blood down at the slaughterhouse. There's no one thing that's true. It's all true. The way the planes are beautiful whether they are ours or theirs. The hell they are, he thought."

in For Whom the Bell Tolls, 467, Ernest Hemingway

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Seios

ilustração de Andreza S. Ballan
em parceria com Leandro Valentin

eu sei
ela seios
ele sem
e tu?
nós somos
vossos seios.
tu é ela então?

eu sei,
ela seios.
sem esses seios,
não sei mais,
assim bem,
se eu posso continuar
sabendo e sendo
eu.

pois então, agora sim
eu sei que eu,
ela (ou tu)
e os seios
somos nós.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Se não sabe escrever, nem desenhar, desenhe.


Saturno



Eu sentia fome. Muita. Três dias atrás. Agora não sinto mais. Estou aqui outra vez. Toco a campainha e aguardo. Mão no bolso da jaqueta, confiro outra vez. Eu avisei que viria. Ela abriu a porta. Oi. Olá. Vim comer, de novo. Risos. Agora eu não tenho mais fome. Entrei. Já faz três dias. Pois é. Quadros nas paredes. Provavelmente nunca parou pra pensar neles. Essa coisa, o tempo. Tem festa hoje. Onde, lugar de sempre, aniversário de Alguém. O Tempo. Nenhum desses quadros me agrada agora. Algo estava destruído agora. Alguém estava destruído agora, deixado para trás. Mão no bolso. O que se faz com fome... quem vai entender essas coisas. Você vai? Sim, começa às 20:00. Já está destruído.
Mão no bolso. E aí, (enfiei os dedos nos orifícios do soco-inglês) tá com fome? Agora eu não tenho mais fome. Tirei a mão do bolso e mandei o primeiro. Direita. No queixo. Mas. Não caiu, mas vai cair. Não tenho um pingo de dó. Não tenho fome. Tenho outra coisa, chamariam de raiva. Bati. Caiu. Caí por cima. Maxilar. Testa. Peito. Costelas. Olho. Nuca. Já apagou. Foda-se. Eu já dei outro nome. Foda-se. De relance, um quadro. Barco de pesca em mar bravio. Estão por toda parte e ninguém os entende. Hoje eu tenho medo. Bati até meu ombro começar a doer. Não que eu esteja velho, é a falta de exercícios. O Tempo. Sangue. Não me sinto melhor. Sabia que não. Já foi. Sangue por todo lado. Já está destruído. Isso é só uma descarga inútil. Não há volta. A culpa nunca morre. Ficando em pé, pisei num dente perdido no piso. O Tempo nunca morre. Não tenho fome. Não é raiva, é o desespero. Meu tempo passa e eu não posso voltar atrás. Gemidos. Vai acordar no inferno, puta. Muito sangue. Três dias em desespero. Bati mais. Bati até arrebentar tudo. Não tenho mais fome. Jamais terei. Já sei que pintura eu gostaria de admirar agora. O Tempo é cruel com os homens, assombra a todos. Os homens são cruéis uns com os outros. Quem aqui está livre? O Tempo. Tempo, engula mais um de seus filhos. O corpo branco, sangrando, é até infantil nas mãos do Tempo. Vejam o olhar que tem Saturno enquanto devora a cabeça de seu filho, mergulhado na escuridão. Não é fome, é medo.

H. G. S.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Coisas que eu escrevia durante as aulas de legislação no primeiro ano

"Oh, vida...
Oh, céus!"

Soprou em minha orelha a ovelha. Nada do que aquela humorista falasse era capaz de me fazer brotar antenas.
Era choro agudo demais, um tremor rutilante na garganta. Beijava meus pés e pedia sofrendo para que eu olhasse seus olhinhos.

Eu amo muito de dia e a noite eu vou pra farra.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Coisas que escrevi enquanto te esperava chegar

Quero, ao menos um dia, encontrar vocábulos, palavras ou expressões qualqueres para demonstrar sem mentir o que significa para mim um dia sem teu corpinho.
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Fico quase irreconhecível te esperando chegar. Nada ocupa minha mente se não a lembrança do teu rosto fofo na minha porta. Teu semblante me diz "Eu te amo", mesmo sem querer.
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Tento, todas as noites, respeitar teu sono. Mas você é de uma beleza divina e tal instancia me faz te querer em todos os mínimos lapsos. A coisa mais linda e indefesa que fui capaz de notar em vida: teu sono.
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Hoje você não vai aparecer. Te vi pela manhã e teus olhos estavam mais verdes e teus cabelos mais loiros. Os momentos em que mais gosto de te ver são pela manhã e pela noite, pois ficas cheio de vulnerabilidade e dengo.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

A flor e a náusea - Drummond


Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Não consigo suportar meus pesadelos

Queria saber de onde vem uma angústia fria que recorre sem parar e jamais se cansa de espremer meu peito numa caixa torácica ridícula, frágil e useless. Não sei qual é a proveniência de tal sentimento nefasto, mas acredito que me falte liberdade. Ou coragem. Costumo dizer que pessoas corajosas são genuinamente livres, pois elas não temem. O que mais me aprisiona é o medo do fracasso. Me cobro enquanto todos repousam angelicais. Me cobro por não ter coragem de me desgarrar do mundo e partir, finalmente. Para onde? Não sei, sou livre de objetivos, apenas. Alguns objetivos mentirosos criei para ser sociável, pois ouvi dizer que o ser humano só existe por que convive socialmente. SO-CI-AL-MEN-TE: está aí uma palavra que me causa asco em turbilhões. Não gosto de regras, pois prefiro o amor e respeito grudados. Não gosto daqui e não gosto de lugar nenhum, pois não conheço o mundo por inteiro. Quero ser pertencente. Quero uma máquina de grana e um sublime contentamento com a realidade. (livre de anti depressivos) Queria humilde e simplesmente fazer somente aquilo que me alegra. De fato.

16/10/12 - Não consigo suportar meus sonhos

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Andar com teus pés eu irei até quando for possível.

            Em questão de dias atrás, chuvas que não chegavam em junho, sóis que derramavam desafeto em julho, amores oceânicos em agosto, plenitude eterna desde setembro. Em questão de dias atrás, meses passados rapidamente, horas arrastadas e minutos calculados com sangue de quem sente saudade. Em questão de dias atrás deparei-me com uma brusca mudança de vida. Senti cada célula derreter-se a partir de algo que me faz sentir um parasita que não se cansa de sugar os mais nobres fluídos do corpo mais amável e sublime com o qual já me deparei em sã consciência. Já havia sonhado com muitos corpos, porém, só fui capaz de tocar um deles. O corpo que decidi, certeira, cativa, de uma vez: será meu para sempre. Será nosso, será fruto, será espinho, dor, amor, constância e inconstância. Sinto que sou diabo indigno de olhar teus olhos de bolinha de gude. Sinto que sou um diabo indigno ao sentir o cheiro da tua pele, ao beijar a superfície dela, ao enlaçar minhas pernas nas tuas, ao lamber teus dedos, ao exigir, sem vergonha, “Casa comigo!” Sou vítima desse cruel mundo que nos contorce entre tantas dores, mas, inacreditavelmente, dentro do limbo pelo qual me sinto cercada (e com o qual me identifico, humanidade demais, desejos demais, ganância, falta de fé) encontrei o que parecia ser impossível, pois eu julgava impossível. Hoje sei de que se tratam os escritos de Camões, a tristeza de Nietzsche, a impossível cura para a angústia predominante de Schopenhauer. Se você não me correspondesse, eu deteria de ser um desses diabos incompreendidos. Eu teria que me acostumar com a blasfêmia, com o pó e o fedor mundano. Andar com teus pés eu irei até quando for possível. Gostaria de ser assim, menos humana.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Víscera magoada

Não buscamos a mágoa. Ela ocorre como que num movimento de choque repentino e dolorido: sorrateiramente. Basta cerrar os olhos e dar um respiro atravessado. Basta.

Não existe dor maior do que magoar o ser amado.

Quando tal revés acontece, sentimo-nos como lagartos de patas amputadas, repudiáveis serpentes sem alma.

O amado é sereno.

O amado é bruto.

O amado é intocável.

Sacro.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Oceano, parte I


            Eu fazia desenhos antes de escrever contos. Colecionava tintas, pincéis, lápises coloridos, canetas de ponta grossa, fina, mediana, borrachas, papéis fluorescentes, origamis, telas de tecido, tecidos, gizes de cera. Eu colecionava imagens e aí, num pulo separatório entre inocência e pederastia, li Paulo Coelho, 11 minutos, a história da prostituta Maria. Li 11 minutos aos 11 anos de idade. Descobri o que era prostituição e o que era masturbação, pois num dado momento o famigerado autor diz que Maria encontrou a “bolinha” que ocupava o meio de suas pernas e tocou-a. Subiu aos céus e foi descendo devagar, uma pena branca. Pomba. Aí comecei a inventar histórias e buscar outros livros que me ensinassem coisas gostosas como a masturbação – infelizmente só encontrei Bukowski aos 19 anos de idade. Antes disso, li Machado de Assis, Nietzsche e me apaixonei por uma mulher chamada Florbela Espanca. Eu me sentia estranha, pois me apaixonara meses antes pela minha professora de literatura que nunca usava batom vermelho, mas que usou num dia e me fez ficar embalsamada, embasbacada pela beleza que ela era capaz de ter. E aí me mostrou as letras de Florbela. Me quedei extasiada e presa a um mundo chamado literatura.

            Não teria como ser diferente. O sonho de meu pai era que eu fosse advogada, ou médica, ou psicóloga. Mas nunca poeta. Não que ele não fosse um amante das artes, mas foi um homem de vida sofrida e queria que eu tivesse uma profissão onde eu adquirisse status para que nunca fosse tratada como uma massa, um lixo, um chorume que escorrega diariamente pelas mãos do capital.

            Se estava certo eu não sei, só o que sei é que ele me deixou vir de Catanduva para São Paulo estudar jornalismo.

            Jornalismo é uma ova. Eu queria escrever e continuar pintando quadros, mas isso era um lamaçal tenebroso perante os ares do interior. Perdi a virgindade aqui. Virei usuária definitiva de maconha aqui. Conheci Bukowski aqui. Conheci o amor da minha vida. Os melhores amigos. Os lugares mais mágicos. As tristezas mais dilacerantes. As saudades mais pífias. Os textos mais completos. Bolhas nos pés. Dores na coluna. Orgasmos múltiplos. Tulipa Ruiz. Estação Sé.

            Não teria como ser diferente. Eu acabaria na cama de um músico com tatuagens nos dedos. E nos braços. Na perna. Nos ombros. Eu acabaria no quarto de um cara. Um livro autobiográfico sem pretensão. Uns olhos enormes. Um bigode fino e elegante. Eu estaria ali de qualquer forma, chapada de maconha, com o cérebro fervilhando, olhando para o homem deitado em meus peitos doloridos, pensando na vida – em dar aulas de redação e literatura para o pessoal vestibulando das Perdizes, em produzir os shows da banda dele, em virar garçonete aos fins de semana, em me suicidar. A falta de dinheiro faz com que as pessoas transbordem. As notas de papel estampadas com bichos me deixam maluca, parece que não posso nem respirar se não estiver com a carteira lotada. Eu pensava e, repentinamente, surge um gato. Dois gatos. Luma e Bartholomeu. Invadem a minha atenção e fazem meu namorado levantar-se da cama: gatinhos são apaixonantes. Eu digo:

            – Sabia que meu irmão quase morreu por causa de gatos?

           – Não. Por que?

           – Por que minha avó morava em Itajobi. E ela tinha, sei lá, uns 10 gatos na casa dela.

            Ele escutava atento enquanto olhava os gatos petrificado.

          – E aí, um dia, meus pais resolveram visitar um amigo deles que também morava em Itajobi. E eles deixaram eu e meu irmão com a minha avó, só que eles não sabiam que o muleque tinha alergia a gatos... Ele foi ficando roxo, sem ar. Minha avó ficou desesperada, ligou para eles e foram até o hospital.

            – Caralho...

         – Aí todo mundo descobriu que ele tinha alergia. Ele é meio sequelado até hoje por isso... Vive doente.

           Os gatos saíram e ele me puxou para que eu me deitasse novamente. Encostou sua cabeça em meu ombro e bastou um minuto de cafunés amorosos para que ele adormecesse em posição fetal. Meu namorado era um bebê fofinho. Eu o amava como nunca amara nada na vida. Comecei a pensar denovo. Quero ser artista. Quero fotografar as camisas dele e fazer uma exposição sobre grafismos. Aí eu posso fotografar as bicicletas estacionadas na rua. As guitarras emparelhadas nos estúdios de gravação. Meus livros empilhados. Quero ser artista. Dói saber que não serei feliz através de nada que não seja a arte de fato. A vida é indecente. Ela dói.

            “Eu estou me esforçando na mina pesquisa. Juro que tenho passado o dia todo... pesquisando!”

         Quero dar aulas de política. De mídia e política. Mas também quero ser artista. Eu quero ser imensidão. Antes de tudo quero escrever livros. Quero publicar este texto. Gostaria que alguem lesse e me achasse genia (como eu acho todos os autores incríveis e maravilhosos que leio).

domingo, 16 de setembro de 2012

Fragmento

"(...)
You ask for the impossible. You ask for the ruddy impossible. So if you love this girl as much as you say you do, you had better love her very hard and make up in intensity what the relation will lack in duration and in continuity. Do you hear that? In the old days people devoted a lifetime to it. And now when you have found it if you get two nights you wonder where all the luck came from. Two nights. Two nights to love, honor and cherish. For better and for worse. In sickness and in death. No that wasn't it. In sickness and in health. Till death do us part. In two nights. Much more than likely. Much more than likely and now lay off that sort of thinking. You can stop that now. That's not good for you. Do nothing that's not good for you. Sure that's it.
(...)"

Ernest Hemingway, For Whom the Bell Tolls, chapter thirteen, p. 168


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Suicide's Note

Langston Hughes

The calm,
Cool face of the river
Asked me for a kiss.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Paranóia


A nóia me faz querer parar.  

Não sou contente com o espaço delimitado pela minha pele perante meu conjunto de células e hormônios e vísceras e pelos denominado corpo. Preciso de expansão, mas ela não existe.

A cada tragada a realidade vem brusca, em dilacerante doses cavalares de um excesso que não compreendo há tempos. Antes, o real do mundo vinha ameno. Agora, é tão miserando que mal posso suportar meus devaneios que pulsam altos num cérebro parcialmente derretido e desprovido de memória.

A nóia me faz querer parar, pois as pessoas que amo sentem-se odiadas por mim. Por que pensam que sou ríspida e fria. Por que não existe constância aqui: a única constante é a angústia. Medard Boss tenta me explicar, mas eu me aborreço. Um emprego de 1.500 paus, férias na Argentina, bolsa de couro de jacaré. Não me importa. O que me importa é a liberdade (que ainda é pequena diante da imensidão que procuro no universo e nas almas habitantes dessa enorme rocha).

Paranóia não cabe aqui. Preciso comer e vestir. Me proteger do frio. Paranóia causa a morte em vida, me faz um corpo andante sem voz. Paranóia existe nas vozes alheias que não acrescentam. Paranóia existe entre os dedos que andam sozinhos. Paranóia em todo lugar.

A nóia me faz querer parar. O que há de ser maravilhoso, há de ser real.

A nóia me faz querer parar.



(Buk sopra ao meu ouvido: NÃO SOBRA NADA PARA MORRER)