quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sobre a égide da paixão perdida


Entre tantas, me perdi no seu infinito. O que me resta é só isso, um coração dolorido. Mais perdido do que tudo, poderia citá-las, mas viraram poesias.

O antagônico dessa solidão, não tem par, nem sequer rima com essa tal de paixão. Só vive em pensamento... e o real não dá retorno.

As fugazes tentativas geraram retornos perdidos. Perdi tantas paixões que não escolhi, e perdi tantas outras nas quais apostei.  E o tempo não volta, segue em frente, e me pergunto quantas paixões terei que perder?  Sou eu ou você?

E quando vem a razão, essa que some nas melhores condições, é mártir. Mas quando se parte dela, há confusão, no sentir.

Se sou sincero, explosão. Se tímido, falta ação. Quem diria que dessa relação haveria meio termo?
Se os corações choram, é porque a paixão a protege.

E mal sabem elas, no plural mesmo.
Que o encontro, não é realização é possibilidade.

Romper a égide, para o encontro, era só o que queria.


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Daniel Rocha

terça-feira, 21 de maio de 2013

capote valente

o busum demora a passar
acendo um cigarro
e depois outro.

mais outro.

bartira
sumaré
capote valente
(é perto do seu trampo)
doutor arnaldo
angélica
gélida

a dor insiste.

homem tomando enquadro.

e o busum demora a passar.

e como eu queria que deus existisse
e que essa fosse minha preocupação mais importante.

dizer tchau a você é uma foda mal dada,
uma gozada interrompida,
um macarrão frio,
inverno sem cobertor,
inferno sem dor.

ver tudo tornar desgraça,
decepção e angústia.

viver a procura da porra da cura
que não existe, não tem remédio.

homeopatia que me valha é maconha.

nesse planeta é só podridão a existir,
pois nascemos da falta de escrúpulos,
vemos vídeos pornográficos,
gente comendo gente,
estocando sem piedade.

nascemos disso e como dói tentar sair...

viveremos presos a essa condição de bichos escrotos para sempre?

viveremos até quando morrendo por amor?

eu não sei dizer adeus,
eu não sei dizer oi,
eu me pego fitando o passado
almejando um futuro
buscando em outros o que você não pôde me dar.

agora, nesse instante, a culpa é de quem?

minha, que te dei minha autonomia

ou

sua, que preferiu a indecência das ruivas?

nesse momento vivo numa caixa de sapatos
apertada e escura,
onde sair dói,
o sol faz frio
o sol me mata

o sol vai tomar no cu.

nesse momento continuo buscando explicações
até o dia em que tudo vai virar

pó

novamente

pó

novamente

pó

novamente

pó.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

meu nome é Terry, mas poderia ser Gal

[esta é uma "obra" (RISOS) de ficção]

[uma "obra" inspirada em Gal Gosta e sua canção mais bonita]

[uma "obra" que não é de arte]

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por que não aceitar uma essência é tão penoso?

transar com o rapaz da banca seria mal para qual de nós dois? nós três, quatro, cinco...

(seis doses de jack e/é uma foda)

ele comprou o le monde, eu um cigarro. 

meu olhos saltaram para a revista, ele percebeu e disse "leva que esse tá bom". e eu, quase que me agarrando ao pescoço dele, quase abrindo sua braguilha, quando arrancando meu sutiã por telepatia:

"não terminei a do mês passado ainda..."

e ele bem poderia me pedir para trocarmos telefone, mas não o fez. 
eu bem poderia dizer "chega aqui em casa, vamo fudê", mas não.

aquele estilo meio selton mello, meio bossa nova, meio professor de economia. 

um nada com nada. 

com porra nenhuma.

me fez querer alguma dose de suor. 

porém, nesse momento, sou uma mulher de carências e ciumes.
não consigo me desvincular da saudade do meu presente e da saudade do me passado.

a saudade do meu futuro assusta, mas por ela tenho mais anseio que falta.

. . .

fico feito uma esfera, com lados infinitos e sem lado nenhum.

não aguento amar, meus pesadelos não me suportam, queria querer putaria, pois a sensibilidade me faz brochar pênises por aí.

. . .

all around this fucking world

. . .

não aguento mais a desordem do meu Brasil interior. meus mil Brasis dentro de mim, ora tão frios quanto o rio grande do sul, ora tão quentes como eu mesma. ou como hellcife.

. . .

se eu pudesse desgraçar e amaldiçoar uma espécie, essa seria o sexo masculino em sua totalidade.

homem é uma delicia, homem é um bicho apaixonante.

barba pelo unha pinto pança cheiro suor 

homem é uma coisa gostosa, mas é uma desgraça. 

sabe, homem, o que você é? UMA DESGRAÇA, JOSUÉ. 
é isso que você é.

e aí a ninfomaníaca sou eu. 

que penso em pênises toda hora. 

. . .

aqui está uma pessoa que escreve muito sobre homens.

aqui está uma pessoa que morre de sensibilidade e de carência momentânea.

aqui está uma pessoa que não entende isso.

. . .

"não faz mal que ele não seja branco, não tenha cultura de qualquer altura, eu amo igual"

quinta-feira, 16 de maio de 2013

ciúme é assim:
QUEIMA.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

o primeiro amor da vida de meu pai

Esse sou eu:



Essa, abaixo, é Guita.
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E se Guita pudesse trocar uma só palavra comigo... eu seria o garoto pobre mais rico de São Paulo, ou talvez do mundo, pois era desenhada indomável e meu coração não caberia no peito depois de um sorriso dela.

Naquelas alturas, o que me constituía era um par de sapatos três números maiores que meus pés, meias furadas e uma boina cinza que mal se segurava em meus cabelos rústicos. Fazia entregas na casa de Guita, para sua mãe e avó, porém, trocar olhares com ela não me era permitido. Só conseguia flertar sozinho quando ela aparecia naquela sacada marrom de arte noveau. Ah, que pezinhos delicados tinha meu primeiro amor! Diferente de mim, pobre, fodido, fedido, sujo – pezinhos que calçavam sandálias de couro e meias brancas, vestido bege apaixonante, típico das garotas judias da Oscar Freire. Quando saia, usava um chapéu cor de rosa com uma fita de seda amarrada. Eu me casaria com ela vestida exatamente dessa forma, sem modificar sequer um grampo. Mas Guita não sabia meu nome, tampouco sabia de mim.

Quando comentei com meu primo Irineu que estava amando uma judiazinha, ele riu e pediu para que eu o ajudasse a carregar seu carrinho de brinquedo, um belo carrinho, imitação de um Puma. Mas que mundo besta pra mim. Se não era um diabo, o que era? Não tinha carrinho, nem pai, nem mãe, nem Guita. Só o que tinha era um pião velho, meus sapatos nadantes e uma imaginação brava. 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

voltei com meu ex



por esses dias resolvi voltar com meu ex. aquela coisa de “dar mais uma chance”, ou simplesmente “relembrar os velhos tempos”. resolvi reatar por que, de certa forma, ele me acompanha no bolso, não reclama, não me pede coisas e só me serve. meu ex tem uma submissão agradável, às vezes contraditória, mas que sempre me arranca bons suspiros cansados de mim. meu ex me completa de uma forma complexa, por que é alvo, é torneado, roliço, gostoso. chega a ser iluminado e até dourado. adoro colocar meu ex na boca, engolir ele quase todinho. e sempre encontro o gozo quando ele expele toda aquela coisa branca que adoro engolir. meu ex é quase a minha religião – transcende. e digo que esse exercício me causa um prazer inominável, pois, indômito, meu ex me acompanha ainda assim.

do meu ex não sinto ciúmes. adoro dividi-lo com as minhas amigas, uma quase suruba é o que fazemos. ele passa de boca em boca, sempre quieto, resiliente e sorridente. ele tolera nossas conversas e nem faz cara feia. meu ex é maravilhoso, pois ele me aguenta e ainda aguenta mais nove mulheres insanas. e como é resistente, esse rapaz! dá prazer a dez mulheres, de uma vez, se transformando em dez, ao mesmo tempo. meu ex me dá tesão. meu ex é a coisa mais gostosa do universo. ele combina com uma roda de conversa ou com uma rodada de breja barata. ele me acompanha enquanto uso o crachá da firma no almoço. me acompanha quando eu meto os chifres nele com outro homem. e não reclama. é silente e bondoso.

meu ex é tão gostoso, mas tão gostoso, que sempre que fumo um beck, ele fuma comigo. nunca recusou, eu juro!

desse meu ex, quero ser atual para sempre. desse meu ex, quero a eterna companhia. quando eu resolver assistir O Poderoso Chefão pela trigésima vez, quero meu ex na minha boca. pois ele não vai balbuciar absurdos e dizer “de novo?” nunca. nunquinha, eu garanto. a esse meu ex, confio minha vida e minha morte.

Marlboro, eu te amo. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

sou um parasita numa imensa rocha

por que nesse mundo a gente procura uma suavidade que não existe? uma pureza que não somos capazes de suportar, inocências que preferíamos ter antes de descobrir qual é a verdade sobre todos os seres.

comer chocolates ou cus não é coisa que faça diferença. apertar a mão de um amigo ou a bunda de um estranho no ônibus também não. afinal, nascemos para isso. nascemos para viver e seguir instintos que, teimosos, insistimos em dizer que podem ser podados e superados. nossos instintos não se acomodam nunca.

me encho de presunção para dizer que sou um ser humano racional, mas quando a raiva me sobre pras cabeças, falo coisas absurdas para seres humanos que não merecem lágrimas salgadas. eu já sofri por amor e, depois disso, fiz sofrer. eu sangrei pessoas sem saber, mas, sabendo, sangrei também. e que espécie de bicho racional sou eu? aquele que sabe ler e jogar todas essas palavras desgostosas aqui? não.

sou um bicho e só bicho. um bicho acoado, feliz e triste. de barriga cheia, feliz. sem um pênis por perto, triste. tenho lacunas a preencher e por isso gosto de homens. mas juro que bem quero uma canção de chet baker para ser tema da minha vida. e não consigo. eu só me arrasto.

já disse uma vez e repito: nada disso aqui é verdade, é tudo delírio. 

quero pessoas que não tenho coragem de conversar. quero pessoas que não tenho coragem de pedir atenção. assim, sofro. assim, sou humana e me enojo por isso.

sou o bicho humano, acoado e triste, insistente, burro, fraco.

zoado.

eles são homens e eu amo todos. amo homens, seus pelos, barbas, peitos e mãos gordas. 

elas são mulheres e delas só tiro um companheirismo que me nutre. é um amor só. (amor?)

eu sou um humano bicho, irracional, tremendamente irresponsável, em busca de dinheiro para comprar meus adornos de felicidade.

um parasita numa imensa rocha.

sábado, 27 de abril de 2013

M.B.

"(...)
Logo depois de terminado este livro, meu filho bem-amado, Marc, de cinco anos, foi tirado de mim. A ele eu dedico Tudo o que é sólido desmancha no ar. Sua vida e sua morte trazem muitas das ideias e temas do livro para bem perto: no mundo moderno, aqueles que são mais felizes na tranquilidade doméstica, como ele era, talvez sejam os mais vulneráveis aos demônios que assediam esse mundo; a rotina diária dos parques e bicicletas, das compras, do comer e limpar-se, dos abraços e beijos costumeiros, talvez não seja apenas infinitamente bela e festiva, mas também infinitamente frágil e precária; manter essa vida exige talvez esforços desesperados e heróicos, e às vezes perdemos. Ivan Karamázov diz que, acima de tudo o mais, a morte de uma criança lhe dá ganas de devolver ao universo o seu bilhete de entrada. Mas ele não o faz. Ele continua a lutar e a amar; ele continua a continuar."

Cidade de Nova Iorque
Janeiro de 1981
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trecho retirado do prefácio de Tudo que é sólido desmancha no ar, de Marshall Berman.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

veja bem, seu doutor: sou uma mulher. e este texto, quem escreveu fui eu



veja bem: eu sou uma mulher. MULHER.

não vou passar por um tormento duradouro. e isso é só por que eu fiz o que deveria. fiz o que poderia ser feito e fiz direito.

vai passar antes que eu perceba, pois eu creio nas pessoas que apostam em mim. elas me dão a mão e eu seguro forte, pois sorte, seu rapaz, é acreditar na vida. e a vida só é construída através da boa vontade de quem nos ama.

você não conquistou um puto sozinho. mas seu ego é a coisa ridícula que já vi.

meu coração não foi o primeiro que você despedaçou. nem o último.

mas, meu senhor, espero que o seu seja despedaçado um dia. pois problema, todos temos. mas a coragem de voltar, acreditar e amar as pessoas, só os seres humanos HUMANOS tem. 

para você, não desejo nada menos que aprendizado e humildade. e amor. amor pelas pessoas que te fazem ser o que você é. ninguém vive sozinho. 


seria melhor estar morto.


para mim, desejo toda a felicidade do mundo. pois é isso que mereço: toda a felicidade do mundo.

e para isso, vou buscar. vou cultivar amigos, agradecer sempre que possível e me desculpar sempre que minhas mãos tremerem.

pois sou assim. um tipo de ser humano maravilhoso no mundo.

você teve a maior sorte que poderia ao me ter nas mãos. mas você é burro. e além de burro, é egoísta.

minha dor do peito vai passar em 3, 2, 1. 



e para você, só desejo mais amor.

domingo, 14 de abril de 2013


Dia 2. Nível de amor: cem por cento.



O ventilador que causava tantas brigas não gira mais. Não sei dizer se era pirraça minha, ou se seu corpo era quente demais, ou se hoje está muito frio. Mas ele não roda, não existe mais barulho infernal, nem vento pneumônico.

Será que as hélices do ventilador são como a nossa vida? Giram, giram, giram só para nos dar conforto. Mas uma hora, por que queremos, elas param de funcionar. Está sendo assim. Do mesmo jeito que meu ventilador não trabalha mais, minha mente também não trabalha.

Me dói saber que talvez você tenha falado a verdade. Me dói mais ainda achar que você mentiu. Pois você é uma pessoa esquisita.

Fui ao show do Caetano, onde chorei. Chorei desde a terceira música até a última. Chorei em Tieta também. Chorei feito um bezerro. Sou “quase um bicho triste”.

Depois, fui ao Mc Donalds. Na Henrique Schaumman. Aquele, em que fomos daquela vez. Quando estávamos transbordando de amor e paixão. Passamos frio juntos só para comer um lanche gorduroso e voltar pra casa. Era o ritual chamado “ficar fofinho”.

Me dói saber que talvez você tenha falado a verdade. Me dói mais ainda achar que você mentiu. Pois você é uma pessoa esquisita.

Depois, fui pra Augusta. A Augusta é um dos lugares que mais odeio, você bem sabe. Mas minhas amigas estavam lá e não quero conviver com elas só quando eu precisar. Quero conviver e só.

Voltei pra casa de táxi.  Senti vontade de contar nossa história ao taxista. Saber a opinião de um estranho que, provavelmente, me confortaria. (Obviamente que ele não diria o que eu não quero ouvir.)

Quando ele parou na porta de casa, me ofereceu uns chicletes de caixinha. Aceitei dois. Mas agora tenho medo de comer. Por que um taxista me ofereceria chicletes? Ele viu minhas amigas com pena de mim, ou eles tem crack na composição? Não sei.

Me dói saber que talvez você tenha falado a verdade. Me dói mais ainda achar que você mentiu. Pois você é uma pessoa esquisita.

Agora pretendo me deitar e não te ligar amanhã, nem depois. Meu deadline é uma semana. No sábado que vem, ou na sexta, vou tentar contato com você. Isso se as coisas estiverem horríveis como ainda estão.

Não consigo tomar nada como definitivo. Não até você dizer que comeu outra pessoa. Aí, com o coração despedaçado, conseguirei.

Será que você saiu hoje? Será que está dormindo na cama de alguma peituda? Estou com medo por que amanhã é um domingo. Sim, você trabalha aos domingos, mas não amanhã. E foi por isso que sonhei com o show do Caetano ao seu lado. Pois chegaríamos em casa, faríamos um sexo bem feito e acordaríamos juntos sem a necessidade de pular cedo da cama. Seria o dia perfeito.

Mas você disse que não sente mais a minha falta. O que posso fazer? Dar seu espaço. E não ser cruel comigo. Nem dura como você foi. Pois não sou assim.

Me dói saber que talvez você tenha falado a verdade. Me dói mais ainda achar que você mentiu. Pois você é uma pessoa esquisita.

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Isso aqui é como um diário público. Vou escrever o que sinto como se meus escritos fossem um diário público. 

Espero que não me peçam motivos para isso.

sábado, 13 de abril de 2013

Triste como se inalasse enxofre em meu ultimo suspiro


Estou triste.
Como não ficava desde meus 16 anos
quando perdi a esperança na humanidade,
mas não no amor.

Estou triste.
Como quem perde esperanças.
Porém, não no amor.

Estou triste.
Como quem carrega o peso de todas as misérias humanas
em sacolas plásticas que me rasgam as mãos.

Triste como se inalasse enxofre em meu ultimo suspiro.

Triste como se não enxergasse almas.

Como se não existisse amor em mim...

Mas de maldade não morro.
E juro, que de maldade não morro.

Nem de egoísmo, tampouco por falta de amor.

Estou triste.
Ainda mais triste por que hoje,
num dia de tristezas,
a chuva escorre guerreira
e não se sente a vontade para parar.

Assim, me deixar enxergar o céu,
me perguntar quantos deuses existem...

Não tenho gestos,
nem mãos para gestos.
Mas tenho vontade de criar.

Sobressair, faltar e saltar.

Inutilizar dinheiro.


Sentir pena de quem não sabe amar.


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que fique clara a minha total inabilidade para a escrita.
que fique clara a minha total tristeza.
que fique clara a minha vontade de felicidade.

hoje é o dia em que registro a minha vontade de felicidade. como se meus escritos fossem um diário público.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

ceci n'est pas une poésie



eu não quis falar
mas acontece que as palavras de mim
são de um jeito estúpido:
escorregam e eu nem tomo nota.

hoje pela manhã
pedi as bençãos de Jah
no busum lotado onde a cobradora não gostava de mim
e me olhava feio.

pedi bençãos a mim mesma
mas como costumo dizer
sou desordem, nasci desordem
mas, espero morrer somente no progresso.

processo.

não sei falar francês
e isso não é uma poesia que valha.

isso não é uma poesia.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Tenho medo de pedir colo. 

Tenho medo de pedir colo por que, se me seguram, podem me deixar cair.

A morte é solução ou não.

Quero outra.

Preciso de paz.

quinta-feira, 21 de março de 2013

(ela se afoga) 7

"Richard Ellmann conta que Joyce nunca quis admitir que sua filha Lucia estava psicótica. Adaptava-se às manias da garota e tentava entendê-la e a seguia durante horas em estranhas conversas nas quais pareciam usar uma língua desconhecida. Animava-a a desenhar e a escrever. Mas não podia suportar que Lucia não o reconhecesse e que o insultasse e o chamasse de Mister Shit. Por isso pediu uma entrevista a Carl Jung, que admirava sua obra e que escrevera um artigo exaltando o Ulisses. Joyce, que nesse momento escrevia Finnegan's Wake, mostrou-lhe vários textos de Lucia. 'Ela usa a linguagem como eu', disse. 'Sim', respondeu-lhe Jung, 'mas ali onde você nada, ela se afoga'."

Ricardo Piglia, O laboratório do escritor.

domingo, 17 de março de 2013

meus escritos parecem um diário público.

Só o que eu estava tentando fazer era não voltar para o quarto de novo. Na última vez que te vi. Era tudo o que eu não deveria permitir: ser cruel comigo mesma. E que porra de vida, eu não canso de me maltratar. Naquela última vez em que te vi. Tive sonhos com uma velha japonesa. Sonhei que você entrava e saia rápido de mim. Sonhei com meu celular nos pés. E não sabia se seria pior dormir ou acordar. Não aguentava mais a minha volta e fui procurar a sua. Você foi solícito, meu coração não aguentou. Fui. Na chuva, doendo. Fui te ver. E tudo o que não aguento é seu rosto. Todas as vezes em que abri a porta para você, quase derreti. Você me enche de algo que não sei o nome. Me transborda fácil. Tento arrancar explicações, enxergar motivos. Mas tudo o que me sobra é um vazio intermitente. As vezes penso que sou uma leoa muito mais feroz do que eu mesma sou capaz de aceitar. O que tenho passado vai deixar calos, cicatrizes e feridas que vão atormentar por algum tempo. Tenho passado muito penosamente por isso, mas preciso acreditar que vai passar. Nunca tive fé em nada, mas preciso encontrar a fé dentro de mim. É o que me move. É apenas o que preciso. Sair da situação deriva. Remar com as duas mãos que tenho. São pequenas, mas aguentam firme. Só eu sei que sim. Ou não. Vou começar a entender agora. Eu discorro sobre isso para muitas pessoas. Acredito que elas me entendem, mas isso não me conforta muito. Logo eu, que sempre reclamei da incompreensão alheia.

Esse mundo é irônico demais para a minha imaginação. Acho difícil de acompanhar. 

sábado, 16 de março de 2013

extrato 92

"(...) Não havia comida para bebés em Malanje e a nossa filha tornou a Portugal magra e pálida, com a cor amarelada dos brancos de Angola, ferrugenta de febre, um ano a dormir em cama de bordão de palmeira junto das nossas camas de quartel, estava a fazer uma autópsia ao ar livre por via do cheiro quando me chamaram porque desmaiaras, encontrei-te exausta numa cadeira feita de tábuas de barrica, fechei a porta, acocorei-me a chorar ao pé de ti repetindo Até ao fim do mundo, até ao fim do mundo, até ao fim do mundo, certo da certeza de que nada nos podia separar, como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo, exclamou o Neruda e era assim conosco, e é assim comigo só que não sou capaz de to dizer ou digo-to quando não estás, digo-to sozinho tonto do amor que te tenho, demais nos ferimos, nos magoámos, nos tentámos matar dentro de cada um, e apesar disso, subterrânea e imensa, a onda continua e como para a praia na tua direção o trigo do meu corpo se inclina, espigas de dedos que te buscam, tentam tocar-te, se prendem na tua pele com força de unhas, as tuas pernas estreitas apertam-me a cintura, subo a escada, bato ao trinco, entro, o colchão conhece ainda o jeito do meu sono, penduro a roupa na cadeira, como uma onda para a praia como uma onda para a praia como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo."

Memória de Elefante, António Lobo Antunes