terça-feira, 15 de maio de 2012

Flácida


Preciso dizer que sou rebelde sem causa aparente.
Sofro por buscar demais o que é inominável.
Eu não tenho um nome.
Eu tenho a vida
e somente ela.
Não tenho bens,
nem saúde mental.

Mas tenho a vida

[ela é tudo que me resta]

É minha. Só minha.
Quem sabe dela sou eu.

Não me insulte
pelos meus cabelos jogados,
nem pelas unhas roídas,
nem pelo pé fedido
de chulé azedo.

Não me julgue:
sou ser humano,
sou flácida,
sou pálida.

OBRIGO, pois:

Quem enxerga as digitais dos meus dedos sou eu.

Dos meus pelos pubianos cuido eu.

Quero que saiam da minha volta,
mas preciso de abrigo absoluto.

O tempo todo, de qualquer forma que se abrigue.

Aqui
agora
pra já
pra sempre
sem limite
sem gente
sem teto, sem chão
de chinelo, ou no colchão:
quero abrigo.



OBRIGO!

Aceite de uma vez
As palavras que tenho para doar,
pois não quero ferir:
só quero dizer.

domingo, 13 de maio de 2012

Preenchidas pelo vazio



Mulheres como nós não merecem chances, nem perdões. Mulheres como nós desobedecem e merecem castigo eterno. Mulheres como nós latem feito cadelas que transbordam sangue entre os dentes, grandes protetoras da cria.

Mulheres como eu nascem para caminhar em linha reta até a morte.

Mulheres como eu nascem para servir de saco para os socos alheios. Nunca estão em evidencia, nunca serão as primeiras.

Oficiais, jamais.

Somos Genis. Damos para qualquer um que peça um bocado de algo que exija uma coragem homérica adornada por falta de caráter. Mulheres como nós, gritam. Fedem a álcool.

Constrangem. Estragam. Choram.

Mulheres como eu nunca dominam o desconhecido: submetem-se a ele.

(mascaradamente)


Dominamos somente a nós mesmas, mas nem sempre.
Dominamos os olhares alheios, mas causamos receio nos corações.

Olhamos sempre para frente, nunca para baixo.

Batem. Apanham. Acham justo.


Mulheres como nós, são amadas. Mas nunca saberão disso.



A única coisa que nos preenche é o vazio.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"O virtuoso não experimenta a necessidade de dominar-se"


Há um grau além do qual nenhum ser humano pode suportar uma emoção e um grau de apatia abaixo do qual não há como descer (a ausência absoluta do medo só existe para um deus ou para um animal). Entre esses dois limites há uma gama na qual se pode estabelecer a conduta correta ou média, a saber, a que nos permite evitar dois tipos de reações estereotipadas. No caso da raiva, por exemplo, a conduta correta (variável segundo as circunstancias) estará tão afastada da suscetibilidade extrema que me faz arrebatar à menor suspeita de ofensa quanto da insensibilidade extrema (ou vileza) que me faria tolerar palavras ou atos contrários à minha dignidade. Percebe-se assim que o homem “virtuoso” não é aquele que renunciou às paixões (como seria possível?), nem o que conseguiu abrandá-las ao máximo. O homem virtuoso ou “bom” é o que aprimora sua conduta de modo a medir da melhor maneira possível e em todas as circunstancias quanto de paixão seus atos comportam inevitavelmente.

(...)

Afirmaremos então que as paixões oferecem ao homem a ocasião de manifestar domínio de si mesmo? Isso não seria exato. O virtuoso não experimenta a necessidade de dominar-se.



Gerárd Lebrun

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ollie

“Você sabe que é uma praga de mulher. Um diabo.”

Levantou. Mijou denso. “Merda! Acabou o papel!”
Balançou o corpo. Chacoalhou a buceta. Subiu a calcinha mesmo sabendo que ainda haviam gotas pelo meio dos pelos que ela se  recusava a aparar há algum tempo.

“Você é um diabo mesmo... uma puta sem vergonha!”



Ouvia, mas dava de ombros enquanto escutava tudo o que poderia escutar numa noite onde o ódio de Alberto pairava pelo ar como a fumaça de seus charutos fedorentos. Ficava ali, com as pernas cruzadas, observando o movimento automático de seus pés ansiosos por saírem correndo daquela sala. Nada poderia ser concluído após aquela conversa, a não ser a certeza de que mesmo sendo corno de fato, ele ainda a amava e a perdoaria mil vezes de fosse preciso.

“Você se arrependeu de chupar o pau dele?”

Ela levantou os olhos, mas não a cabeça:

“Como você sabe que eu chupei o pau dele?”

“É tudo que posso esperar de uma filha da puta malandra feito você, Olivia. Se arrependeu ou não? Porra!”

Ela levantou os olhos, mas não a cabeça. Olhando por cima dos óculos de armação vermelha, respondeu vagarosamente:

“Não.”

Ele sabia a resposta e se sentiu mais otário após perguntar. Parecia masoquismo da parte dele, querer esclarecer os motivos que levaram Olivia a trepar três vezes com um escritor gaucho e careca numa cidade minúscula e quase feudal da Bulgária – Zlatograd. Pensava que maldita foi a hora em que sua esposa fora chamada parar participar daquele recital onde os autores aclamados pela critica e detestados pelo publico se encontraram no mesmo lugar para vomitar todo o lixo supostamente intelectual que guardam dentro de si. Não quis acompanhá-la e, não por isso, ela foi coberta pelo corpo de uma bicha gaucha e careca.

Qual era o problema de Olivia? De onde era proveniente aquele caráter solúvel e duvidoso? Ele não acreditava que tantos anos eram resultado de falácias incessantes. Ou pelo menos não queria acreditar naquele momento. Nada seria capaz de fazê-lo esquecer. Nem um teco, nem três garrafas de uísque, nem todos os calmantes do mundo.

(...)


quinta-feira, 26 de abril de 2012

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . VERMELHO


Todo mês a terceira guerra mundial acontece
Ela suja, enraivece e mente.
Afasta os amores de mim
Destrói meus amigos
E me machuca.

Uma vez a cada trinta dias
Sinto dores pontudas
Furando minha barriga
Provando que Deus não existe.

Mostrando que não há
Nenhum verme dentro de mim.

E tudo isso vai abaixo
Pela minha buceta.

domingo, 22 de abril de 2012

Amor punk

descendo, eu estava com frio.

no ponto, o sol começava a bater e eu derretia um pouco mais.

no ônibus, minha testa franzia.

no caminho, eu lia "amor punk" tatuado nos muros
envoltos por expressões coloridas de artistas que eu desejava conhecer.

gritavam algo
(que os humanos ordinários se recusavam a ouvir)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vazou pelas calcinhas

quis

suor
porra
fffff
...

afago
de quatro

embrulhado
em látex

shhhhhhh
...

me sobrou

[punheta]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Mestre

Álvaro de Campos

Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nessa forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem
de nada,
Alma abstrata e visual até o ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre
múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...

Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionalista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas do ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de
mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem
perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia
involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua
serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te
ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao
relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.

Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro
nem ninguém.
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver
clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia
respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia
que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a
nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de
sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre
aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser
humano!

Feliz o homem maçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve
ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é
dormir.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Triste é ter certeza

Não suporto fluidos, suposições ou pressupostos. Sinto medo de acreditar que o mundo é menos químico do que penso em relação a quantidade de forças que sinto escorrer entre meus dedos como se fosse mera água para sedentos. Esvai-se justamente com a minha compaixão para com aqueles que amo, pois não sei o motivo de amá-los – são todos tão monstruosos quanto o meu rosto refletido num banheiro de bar onde o mijo afoga meus pés sem qualquer resquício de piedade. São todos tão solúveis quanto o caráter dos governantes que ouso blasfemar por puro esporte e exercício de uma indignação chata e sem retorno. Sinto como se toda explicação (ou tentativa de) fosse inútil, pois a dor que me assola miseravelmente parece não escutar palavras. Jogadas, ou não.

Triste é ter certeza.

Saber que nada será diferente do que é agora e que a morte é uma parábola entre o tempo e o espaço de uma vida mal aproveitada. Saber que a paciência acaba e que as pessoas defecam através de olhares intimidadores que boicotam a esperança alheia sem nenhum motivo aparente. Devoram o luxo que consomem, cuidam de seus corpos e pensam estarem felizes por que aceitam conviver num esgoto recorrente.

Não fecho os olhos, pois sinto o peso nas costas.

Não faço diferença, pois não tenho coragem.

Sigo, observando formigas trabalhadoras que desejam mais agonia à medida que cada sol nasce mais quente. Inventam novos seios para embelezarem aqueles velhos caídos. Implantam novas carnes para que um pau (puro símbolo fálico, escorregadio e sadio) seja uma arma. Comem a lavagem que é proporcionada com a boca aberta e as mãos imundas. Feios e escrotos desde dentro, representando isso para fora.

Sinto-me a vontade para dizer que desejo a morte imediata de cada ser humano habitante da Terra.

(o receio não existe)

segunda-feira, 19 de março de 2012

é assim que sinto

não sei mais dizer o que faço
nem imagino o que ando buscando
em corredores escuros que cheiram a merda.

não encontro olhos que tragam luz:

pernas alheias não me guiam
e as minhas próprias enganam.

enganada por mim mesma
e durmo.

sem vontade de despertar para continuar
esmurrando facas afiadas:
é assim que sinto.

minha autonomia
esvaiu-se,
desde que escolhi viver numa redoma
que transpira muito
e lentamente.

lateja.

limpo bundas,
seco lágrimas.

desacato o sagrado,
clamo o inverso.

desrespeito

somente a mim mesma.

segunda-feira, 12 de março de 2012

HOMO ERECTUS

Marcelino Freire

Sabe o homem que encontraram no gelo? Encontraram no gelo da Prússia? Enrolado? Os arqueólogos encontraram no gelo gelado da Prússia? Perto das colinas calcárias da Prússia? O homem feito um feto gelado, com sua vara de pesca? Sabe o homem que encontraram? Com seu machado de pedra?
O homem que tinha cabeleira intacta? A arcada dentária? O homem meio macaco? Funerário? Fossilizado na encosta que o engoliu? No tempo perdido?
Você viu? Tetravô dos mamíferos do Brasil? O homem vestígio?
O homem engolido pela terra primitiva? Da Era Quaternária, não sei? Secundária? Que caçava avestruz sem plumas? Caçava o cervo turfeiras? Javali e mastodonte? Ia aos mares fisgar celacanto?
Inimigo de rinoceronte?
Sabe deste homem? Irmão do Homem de Piltdown? Primo do homem de Neanderthal? Do velho Cro-Magnon? Do Homem de Mauer? Dos Incas, até? Dos Filhos do Sol? Das tribos da Guiné?
O homem de 100 mil anos antes de nossa era? Ou mais? Um milhão de eras? Homem com mandíbula de chimpanzé? Parecido o mais terrível dos répteis carnívoros do Cretáceo? Um mistério maior que este mistério? Navegador de jacaré?
Não sabe?
Homem desenterrado por acaso? Pelos viajantes, por acaso? Pela paleontologia, não sabe? Visto nas costelas frias da Prússia, repito? Prússia renana, vá saber lá o que é isso?
O homem ressuscitado, você viu na TV? De ossos miúdos? Esmiuçados? Abertos para estudo? À visitação nos museus americanos? Como uma múmia sem roupa? Quase? Flagrada como se estivesse dormindo nas profundezas do mundo oceânico? O homem embrionário? Das origens cavernosas da humanidade? Sabe este homem, não sabe? Pintado nas cavernas da Dordonha? Mesolítico? Nômade? Perdido?
Este homem dava o cu para outros homens.

E ninguém - até então - tinha nada a ver com isso.

segunda-feira, 5 de março de 2012

neve e fogo
força e febre
no movimento
o silencio se bebe
e se embriaga

agora
aqui
no dentro do outro
estilhaços de estrelas

pleno de si
esse cio
eterno inicio
nunca se sacia


Alice Ruiz

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

ruir

nesse sal que anda o mundo
eu ando em pé

tão insignificante
quanto uma pomba branca.

nessa ruína que anda o mundo
eu ando
de costas.

eu ando
a rodo.

eu ando molhando
suando e cheia

de sede.

eu ando tão insignificante
tão pequena e demente

quanto uma pomba branca.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Ana, eu não gosto mais de você.

Sempre que Ana vinha com aquelas perguntas descaradamente cretinas eu pensava se ela, por um lapso de segundo qualquer, poderia se dar conta do quanto eu detestava seus interesses nada relevantes. Eu já não sabia mais se ela era relevante na minha vida, mas eu tinha uma ânsia quase jocosa quando ele me perguntava “esquerda ou direita”, “embaixo ou em cima”, “azul ou amarelo”.

Ana, saiba que nada disso importa. Meu signo não muda o fato de eu gostar de meter em você por trás... Minha camiseta de listras vermelhas não quer dizer que eu penso em te agradar ou ficar bonito para uma noite no cinema: é só mais uma noite de merda em que eu vou assistir algum filme estúpido, de qualidade duvidosa, para que você não chore pitangas demais no meu colarinho...

[Ana, eu não penso em nada. Nem em você.]

Ela queria saber a todo momento como eu passei o almoço de domingo ao lado da minha família. Queria saber se meu cachorro Brutus havia melhorado da doença no fígado,

{uma vez que nem eu, que era o dono daquele maldito labrador, lembrava que ele estava com hepatite, cirrose, sei lá}

ficava me perguntando se minha mãe já tinha entrado de férias – por que ela estava cansada, “falei com ela outro dia, Diogo. Ela disse que estava muito cansada. A Diana não anda fazendo o serviço direito em casa e as aulas na escola estão cada vez mais exaustivas. Me disse até que está pensando em passar um tempo naquele spa da Barra, que seu pai ficou nas férias passadas”.

O defeito de Ana era pensar que nos casaríamos.

Imagine se eu, no auto dos meus vinte anos, teria coragem de pensar em me casar com aquela garota que prestava vestibular e me deixava maluco dizendo que “morre se não entrar na Federal do Rio”...

Nunca pensei nisso.

Mas Ana pensava demais.

Não me deixava beber, nem fumar maconha enquanto surfava com os meus amigos. A transparência era uma qualidade totalmente afetada na nossa relação, por que ela me sufocava e as vezes eu queria matá-la. Tinha preguiça até de trepar com ela, por que sabia que depois de gozar, ao invés de deitar a bunda na cama e tirar um cochilo, ela ia querer me falar sobre amor e sobre como será a nossa vida depois que ela se mudasse de Niterói. Era um bombardeio cruel e, na verdade, eu poderia amar Ana.

Mas ela não me dava tempo para isso.

Durante todos os momentos em que eu pensava em amá-la (somente amá-la), nada menos sincero que isso, ela me vinha com indagações inúteis. Qual era o sentido em levar minha paciência até Júpiter só por que eu queria fazer um campeonato de quem goleava com a camisa do Flamengo no FIFA e arrotava mais alto com os meus amigos?

[Nunca proibi que ela fosse com aquela gangue de putas mirins no shopping comprar aqueles vestidinhos justos de vagabunda. Nunca impedi que ela passasse o dia a água e alface enquanto eu queria comer carne feito um pré-histórico.]

Ela tinha um sentimento de posse sobre mim. Me tratava feito um moleque de cuecas cagadas enquanto eu só era um moleque que pensou que ela fosse uma menina interessante.

Ana cresceu tão rápido quanto seus peitos, e, apesar de me culpar por isso, a culpa não era minha.

sábado, 28 de janeiro de 2012

muda/mundo/mudo

uma garganta apertada

que provém

não sei do que

e termina

não sei onde.

mundo

[mudo]

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O segundo sexo

“(…) a lei ou os costumes impõem-lhe o casamento, proíbem as medidas anticoncepcionais, o aborto e o divórcio. São exatamente essas velhas coações do patriarcado que a URSS ressuscitou; reavivou teorias paternalistas do casamento; e com isso foi levada a pedir novamente à mulher que se torne objeto erótico: um discurso recente convidava as cidadãs soviéticas a cuidarem dos vestidos, a usarem maquilagem, a se mostrarem faceiras para reter seus maridos e incentivar-lhes o desejo. É impossível, vê-se por esse exemplo, encarar a mulher unicamente como força produtora; ela é para o homem uma parceira sexual, uma reprodutora, um objeto erótico, um Outro através do qual ele busca a si próprio.”

Simone de Beauvoir – O segundo sexo.