Queria saber de onde vem uma angústia fria que recorre sem parar e jamais se cansa de espremer meu peito numa caixa torácica ridícula, frágil e useless. Não sei qual é a proveniência de tal sentimento nefasto, mas acredito que me falte liberdade. Ou coragem. Costumo dizer que pessoas corajosas são genuinamente livres, pois elas não temem. O que mais me aprisiona é o medo do fracasso. Me cobro enquanto todos repousam angelicais. Me cobro por não ter coragem de me desgarrar do mundo e partir, finalmente. Para onde? Não sei, sou livre de objetivos, apenas. Alguns objetivos mentirosos criei para ser sociável, pois ouvi dizer que o ser humano só existe por que convive socialmente. SO-CI-AL-MEN-TE: está aí uma palavra que me causa asco em turbilhões. Não gosto de regras, pois prefiro o amor e respeito grudados. Não gosto daqui e não gosto de lugar nenhum, pois não conheço o mundo por inteiro. Quero ser pertencente. Quero uma máquina de grana e um sublime contentamento com a realidade. (livre de anti depressivos) Queria humilde e simplesmente fazer somente aquilo que me alegra. De fato.
16/10/12 - Não consigo suportar meus sonhos
terça-feira, 16 de outubro de 2012
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Andar com teus pés eu irei até quando for possível.
Em questão de dias atrás, chuvas que não
chegavam em junho, sóis que derramavam desafeto em julho, amores oceânicos em
agosto, plenitude eterna desde setembro. Em questão de dias atrás, meses
passados rapidamente, horas arrastadas e minutos calculados com sangue de quem
sente saudade. Em questão de dias atrás deparei-me com uma brusca mudança de
vida. Senti cada célula derreter-se a partir de algo que me faz sentir um
parasita que não se cansa de sugar os mais nobres fluídos do corpo mais amável
e sublime com o qual já me deparei em sã consciência. Já havia sonhado com
muitos corpos, porém, só fui capaz de tocar um deles. O corpo que decidi,
certeira, cativa, de uma vez: será meu para sempre. Será nosso, será fruto,
será espinho, dor, amor, constância e inconstância. Sinto que sou diabo indigno
de olhar teus olhos de bolinha de gude. Sinto que sou um diabo indigno ao
sentir o cheiro da tua pele, ao beijar a superfície dela, ao enlaçar minhas
pernas nas tuas, ao lamber teus dedos, ao exigir, sem vergonha, “Casa comigo!”
Sou vítima desse cruel mundo que nos contorce entre tantas dores, mas,
inacreditavelmente, dentro do limbo pelo qual me sinto cercada (e com o qual me
identifico, humanidade demais, desejos demais, ganância, falta de fé) encontrei
o que parecia ser impossível, pois eu julgava impossível. Hoje sei de que se
tratam os escritos de Camões, a tristeza de Nietzsche, a impossível cura para a
angústia predominante de Schopenhauer. Se você não me correspondesse, eu
deteria de ser um desses diabos incompreendidos. Eu teria que me acostumar com
a blasfêmia, com o pó e o fedor mundano. Andar com teus pés eu irei até quando
for possível. Gostaria de ser assim, menos humana.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Víscera magoada
Não buscamos a mágoa. Ela ocorre como que num movimento de choque repentino e dolorido: sorrateiramente. Basta cerrar os olhos e dar um respiro atravessado. Basta.
Não existe dor maior do que magoar o ser amado.
Quando tal revés acontece, sentimo-nos como lagartos de patas amputadas, repudiáveis serpentes sem alma.
O amado é sereno.
O amado é bruto.
O amado é intocável.
Sacro.
Não existe dor maior do que magoar o ser amado.
Quando tal revés acontece, sentimo-nos como lagartos de patas amputadas, repudiáveis serpentes sem alma.
O amado é sereno.
O amado é bruto.
O amado é intocável.
Sacro.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Oceano, parte I
Eu
fazia desenhos antes de escrever contos. Colecionava tintas, pincéis, lápises
coloridos, canetas de ponta grossa, fina, mediana, borrachas, papéis
fluorescentes, origamis, telas de tecido, tecidos, gizes de cera. Eu
colecionava imagens e aí, num pulo separatório entre inocência e pederastia, li
Paulo Coelho, 11 minutos, a história da prostituta Maria. Li 11 minutos aos 11
anos de idade. Descobri o que era prostituição e o que era masturbação, pois
num dado momento o famigerado autor diz que Maria encontrou a “bolinha” que
ocupava o meio de suas pernas e tocou-a. Subiu aos céus e foi descendo devagar,
uma pena branca. Pomba. Aí comecei a inventar histórias e buscar outros livros
que me ensinassem coisas gostosas como a masturbação – infelizmente só
encontrei Bukowski aos 19 anos de idade. Antes disso, li Machado de Assis,
Nietzsche e me apaixonei por uma mulher chamada Florbela Espanca. Eu me sentia
estranha, pois me apaixonara meses antes pela minha professora de literatura que
nunca usava batom vermelho, mas que usou num dia e me fez ficar embalsamada,
embasbacada pela beleza que ela era capaz de ter. E aí me mostrou as letras de
Florbela. Me quedei extasiada e presa a um mundo chamado literatura.
Não teria como ser diferente. O sonho
de meu pai era que eu fosse advogada, ou médica, ou psicóloga. Mas nunca poeta.
Não que ele não fosse um amante das artes, mas foi um homem de vida sofrida e
queria que eu tivesse uma profissão onde eu adquirisse status para que nunca
fosse tratada como uma massa, um lixo, um chorume que escorrega diariamente
pelas mãos do capital.
Se estava certo eu não sei, só o
que sei é que ele me deixou vir de Catanduva para São Paulo estudar jornalismo.
Jornalismo é uma ova. Eu queria escrever
e continuar pintando quadros, mas isso era um lamaçal tenebroso perante os ares
do interior. Perdi a virgindade aqui. Virei usuária definitiva de maconha aqui.
Conheci Bukowski aqui. Conheci o amor da minha vida. Os melhores amigos. Os
lugares mais mágicos. As tristezas mais dilacerantes. As saudades mais pífias.
Os textos mais completos. Bolhas nos pés. Dores na coluna. Orgasmos múltiplos.
Tulipa Ruiz. Estação Sé.
Não teria como ser diferente. Eu
acabaria na cama de um músico com tatuagens nos dedos. E nos braços. Na perna.
Nos ombros. Eu acabaria no quarto de um cara. Um livro autobiográfico sem
pretensão. Uns olhos enormes. Um bigode fino e elegante. Eu estaria ali de
qualquer forma, chapada de maconha, com o cérebro fervilhando, olhando para o
homem deitado em meus peitos doloridos, pensando na vida – em dar aulas de
redação e literatura para o pessoal vestibulando das Perdizes, em produzir os
shows da banda dele, em virar garçonete aos fins de semana, em me suicidar. A
falta de dinheiro faz com que as pessoas transbordem. As notas de papel
estampadas com bichos me deixam maluca, parece que não posso nem respirar se
não estiver com a carteira lotada. Eu pensava e, repentinamente, surge um gato.
Dois gatos. Luma e Bartholomeu. Invadem a minha atenção e fazem meu namorado
levantar-se da cama: gatinhos são apaixonantes. Eu digo:
– Sabia que meu irmão quase morreu
por causa de gatos?
– Não. Por que?
– Por que minha avó morava em
Itajobi. E ela tinha, sei lá, uns 10 gatos na casa dela.
Ele escutava atento enquanto olhava
os gatos petrificado.
– E aí, um dia, meus pais resolveram
visitar um amigo deles que também morava em Itajobi. E eles deixaram eu e meu
irmão com a minha avó, só que eles não sabiam que o muleque tinha alergia a
gatos... Ele foi ficando roxo, sem ar. Minha avó ficou desesperada, ligou para
eles e foram até o hospital.
– Caralho...
– Aí todo mundo descobriu que ele
tinha alergia. Ele é meio sequelado até hoje por isso... Vive doente.
Os gatos saíram e ele me puxou para que eu me
deitasse novamente. Encostou sua cabeça em meu ombro e bastou um minuto de
cafunés amorosos para que ele adormecesse em posição fetal. Meu namorado era um
bebê fofinho. Eu o amava como nunca amara nada na vida. Comecei a pensar
denovo. Quero ser artista. Quero fotografar as camisas dele e fazer uma
exposição sobre grafismos. Aí eu posso fotografar as bicicletas estacionadas na
rua. As guitarras emparelhadas nos estúdios de gravação. Meus livros
empilhados. Quero ser artista. Dói saber que não serei feliz através de nada
que não seja a arte de fato. A vida é indecente. Ela dói.
“Eu estou me esforçando na mina
pesquisa. Juro que tenho passado o dia todo... pesquisando!”
Quero dar aulas de política. De
mídia e política. Mas também quero ser artista. Eu quero ser imensidão. Antes
de tudo quero escrever livros. Quero publicar este texto. Gostaria que alguem
lesse e me achasse genia (como eu acho todos os autores incríveis e
maravilhosos que leio).
domingo, 16 de setembro de 2012
Fragmento
"(...)
You ask for the impossible. You ask for the ruddy impossible. So if you love this girl as much as you say you do, you had better love her very hard and make up in intensity what the relation will lack in duration and in continuity. Do you hear that? In the old days people devoted a lifetime to it. And now when you have found it if you get two nights you wonder where all the luck came from. Two nights. Two nights to love, honor and cherish. For better and for worse. In sickness and in death. No that wasn't it. In sickness and in health. Till death do us part. In two nights. Much more than likely. Much more than likely and now lay off that sort of thinking. You can stop that now. That's not good for you. Do nothing that's not good for you. Sure that's it.
(...)"
You ask for the impossible. You ask for the ruddy impossible. So if you love this girl as much as you say you do, you had better love her very hard and make up in intensity what the relation will lack in duration and in continuity. Do you hear that? In the old days people devoted a lifetime to it. And now when you have found it if you get two nights you wonder where all the luck came from. Two nights. Two nights to love, honor and cherish. For better and for worse. In sickness and in death. No that wasn't it. In sickness and in health. Till death do us part. In two nights. Much more than likely. Much more than likely and now lay off that sort of thinking. You can stop that now. That's not good for you. Do nothing that's not good for you. Sure that's it.
(...)"
Ernest Hemingway, For Whom the Bell Tolls, chapter thirteen, p. 168
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Paranóia
A
nóia me faz querer parar.
Não
sou contente com o espaço delimitado pela minha pele perante meu conjunto de
células e hormônios e vísceras e pelos denominado corpo. Preciso de expansão,
mas ela não existe.
A
cada tragada a realidade vem brusca, em dilacerante doses cavalares de um excesso
que não compreendo há tempos. Antes, o real do mundo vinha ameno. Agora, é tão
miserando que mal posso suportar meus devaneios que pulsam altos num cérebro
parcialmente derretido e desprovido de memória.
A
nóia me faz querer parar, pois as pessoas que amo sentem-se odiadas por mim.
Por que pensam que sou ríspida e fria. Por que não existe constância aqui: a
única constante é a angústia. Medard Boss tenta me explicar, mas eu me
aborreço. Um emprego de 1.500 paus, férias na Argentina, bolsa de couro de
jacaré. Não me importa. O que me importa é a liberdade (que ainda é pequena
diante da imensidão que procuro no universo e nas almas habitantes dessa enorme
rocha).
Paranóia
não cabe aqui. Preciso comer e vestir. Me proteger do frio. Paranóia causa a
morte em vida, me faz um corpo andante sem voz. Paranóia existe nas vozes
alheias que não acrescentam. Paranóia existe entre os dedos que andam sozinhos.
Paranóia em todo lugar.
A
nóia me faz querer parar. O que há de ser maravilhoso, há de ser real.
A
nóia me faz querer parar.
(Buk
sopra ao meu ouvido: NÃO SOBRA NADA PARA MORRER)
sábado, 11 de agosto de 2012
Manifesto da vagina
Depois de anos pensando
se não seria muito ousado,
decido, do alto dos meus vinte anos,
que devo tirar a calcinha.
Nervosa e discreta
Cometo o polêmico
E retiro aquele pequeno
se não seria muito ousado,
decido, do alto dos meus vinte anos,
que devo tirar a calcinha.
Nervosa e discreta
Cometo o polêmico
E retiro aquele pequeno
pedaço de pano.
Depois,
pego minha bike
e pedalo pecadora.
De vestido,
Sorrio do vento em polpa
que brinca leve pelas saias
De minha coxa.
However não se engane:
Que esse poema
não é erótico
Antes,
é a libertação do sexo, do meu sexo, particularmente preso
desde o berço.
Meu sexo, que já passou
Por talco e fralda
Calcinha e tanga
Maio de natação
biquíni de verão
tecidos e mais tecidos
sempre cobrindo
sempre tapando
e nunca mostrando
o que de mais belo tem
a mulher.
Agora chega.
Pelo menos uma vez na vida
o sexo
deve ser livre.
Sem calcinha
Sinto o mundo todo
entrando dentro de mim
Como se, de repente, tivesse eu
engolido a vida
pela boca da minha coxa
Sem calcinha
fico mais atenta
ás pequenas, sempre lindas,
sensações do corpo
Desafio
os caretas de recalque
a rotina da cidade
e faço guerra
no silêncio dos meus pelos púbicos
(que agora também são públicos
e talvez até mais puros.)
Me sinto fêmea
como a morte
Forte
como a vida.
Sem calcinha,
sinto
Sinto e sinto muito
por todas as mulheres que ainda
não tiveram seu dia de glória.
Por isso é que vos digo:
Mulheres, uni-vos!
Livre teu sexo!
Tire a calcinha!
que isso, meus caros, é putaria uma ova:
Isso aqui
é uma revolução
Depois,
pego minha bike
e pedalo pecadora.
De vestido,
Sorrio do vento em polpa
que brinca leve pelas saias
De minha coxa.
However não se engane:
Que esse poema
não é erótico
Antes,
é a libertação do sexo, do meu sexo, particularmente preso
desde o berço.
Meu sexo, que já passou
Por talco e fralda
Calcinha e tanga
Maio de natação
biquíni de verão
tecidos e mais tecidos
sempre cobrindo
sempre tapando
e nunca mostrando
o que de mais belo tem
a mulher.
Agora chega.
Pelo menos uma vez na vida
o sexo
deve ser livre.
Sem calcinha
Sinto o mundo todo
entrando dentro de mim
Como se, de repente, tivesse eu
engolido a vida
pela boca da minha coxa
Sem calcinha
fico mais atenta
ás pequenas, sempre lindas,
sensações do corpo
Desafio
os caretas de recalque
a rotina da cidade
e faço guerra
no silêncio dos meus pelos púbicos
(que agora também são públicos
e talvez até mais puros.)
Me sinto fêmea
como a morte
Forte
como a vida.
Sem calcinha,
sinto
Sinto e sinto muito
por todas as mulheres que ainda
não tiveram seu dia de glória.
Por isso é que vos digo:
Mulheres, uni-vos!
Livre teu sexo!
Tire a calcinha!
que isso, meus caros, é putaria uma ova:
Isso aqui
é uma revolução
por Aline Vianna
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Andança
Cardoso
de Almeida
Avenida
Doutor Arnaldo
Avenida
Paulista
Brigadeiro
Luís Antônio
Desço a Teodoro
Seguro
nos amarelos dos ônibus
Fecho
os olhos para me lembrar do teu rosto:
Suspiro...
No
busão lotado,
A
pé,
No
metrô:
Vivo
sonhando...
*
Basta
lembrar e isso acontece:
me
apaixono por você denovo.
Me
lembro e sinto os músculos contraídos
É
de se transbordar...
*
Um
dia
Sem
você
Não
vale
NADA.
domingo, 29 de julho de 2012
Elegiazinha
Nelson Ascher
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.
Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.
Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.
Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.
Gatos não morrem: mais preciso
— se somem — é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso
e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.
sábado, 21 de julho de 2012
LA PE JU
Não
entendi o que o fez pensar que eu estaria disposta ao flete. Desde que eu havia
chegado naquele lugar, um calabouço escuro da Frei Caneca, fiquei sentada de
pernas cruzadas fazendo nada menos que gestos oscilantes entre o movimento de
sorver um ou dois goles de água. Água. Se ele fosse um pouco menos idiota,
perceberia que eu estava bebendo água e que, uma pessoa que não ingere álcool,
num sábado a noite, num bar cujo nome tem pronuncia francesa, porém escrita
brasileira, cercada por velhos, moços, moças, cheiradores, anarquistas, nerds
punheteiros e toda a gama de pessoas capazes de frequentar a Frei Caneca num
sábado de madrugada... bem, eu não estava disposta a flertar. Se ele fosse um
pouco menos babaca, perceberia que passei a noite grudada com o meu smart phone
preto, trocando mensagens com “sei lá quem”. Obvio que era com um homem. Obviamente
eu estava apaixonada. Que mulher idiota ficaria trocando mensagens com as
amigas num momento daqueles? Bebendo água e balançando os pezinhos calçados com
um sapatinho de sapatão? Ainda assim, ele não percebeu que eu estava de suéter,
cachecol, cabelo preso e completamente apaixonada. Ainda assim ele conseguiu
ser um otário, me olhando a noite toda e esperando o errado momento certo de,
feito um viking fedorento, enfiar a mão nos meus cabelos.
Filho da puta. Teve coragem de entremear
aqueles dedos imundos de cachaça nos meus cabelos presos. Tudo bem, mesmo que
amarrados os meus cabelos ainda aparentavam ser uma grande juba, deve ser
convidativo de fato... mas isso não significa que qualquer estranho possa se
apoderar deles. Era o que de mais sagrado havia no corpo: eram cabelos do
Robert Plant e isso não fui eu quem disse. Colocou as mãos no meu cabelo e saiu
sem dizer nenhuma palavra. Era tão idiota e babaca que esperou minhas
companheiras saírem de perto para se aproximar de mim. Tudo bem, foi rápido.
Fiquei quieta como se não tivesse notado tal audácia. Subi ao banheiro, mijei
em pé, senti o mijo escorrer nas minhas pernas, me limpei, lavei as mãos e o rosto
e saí. Tinha um brechó ali. Entrei. Perguntei os preços, cheirei as roupas...
não gastaria dinheiro com aquilo. Porra, eu estava num bar do centro da cidade,
tudo o que não me faltava era fazer compras naquele lugar. Sim, eu era
ridícula. Mas nem tanto.
Desci as escadas pensando apreensiva que
poderíamos ir embora. Já passava das 03:00 e eu estava exausta daquele lugar.
As pessoas – inclusive minhas três amigas – bebiam a porra de um drink que
chamava Tesão. Quisera eu ter ânimo e disponibilidade para beber aquela merda
que cheirava a licor barato. Aquilo era gorfo engarrafado, um nojeira sem
tamanho. [paro aqui de falar mal da bebida, pois se estivesse de coração vazio,
teria bebido dez doses daquela e agarrado o otário logo que ele me olhou pela
primeira vez] Quisera eu ter ânimo para um flerte naquela noite. Ânimo ou, sei
lá, menos humanidade. A merda estava feita: já era uma mulher apaixonada e não
sabia. Não largava a droga do celular pretinho, touchscreen, um deplorável
aparelho que eu costumava deixar jogado meses atrás. Agora eu não o soltava,
fazia questão de te-lo por perto por que queria saber a todo momento como
andava o meu, até então, “relacionamento”.
Sentei de pernas cruzadas novamente e
dessa vez pedi uma soda. “Soda. Isso, SODA! Com limão espremido no copo. Muito
limão! Ah, e sem gelo!” Foda-se o “sem gelo”: a porra da soda veio com limão
fatiado e muito gelo. Foda-se, bebi mesmo assim. Enrolei mais um tabaco e
resolvi que era hora de enfrentar o frio cortante do centro de São Paulo, onde
tudo cheirava a cocaína e metenlança sem camisinha. Saí. Dei dois tragos e
senti vontade de sumir daquele lugar: havia um casal de emos (sim, os emos,
aqueles de lápis no olho e tênis quadriculado) jogados na calçada, chorando.
Acho que estavam sem dinheiro pro táxi. Cheiradassos. Pensei comigo “Foda-se,
tem mais é que se fuder essa juventude de bosta” e, cansada daquela cena,
entrei na caverna. Ou, pelo menos, tentei. Senti uma mão pesada me segurando
forte pelo braço. Olhei para trás e era o segurança. “Que porra é essa?”,
perguntei puta, louca da buceta. “Preciso do seu RG, mocinha”, ele respondeu
com aquela cara de pastel amanhecido e eu repliquei “Eu já estava aqui dentro.
Solta o meu braço, caralho!” e ele, com jeito de cachorro cagado, disse
“Andreza?”, “Sim, meu!”. Me deixou entrar, desculpando-se sem querer e dizendo
que reconheceu meu rosto pela foto do meu RG que ele pegara um tempo antes, enquanto
eu cometia o imenso crime de entrar naquele lugar.
Não sei o que eu escrevia para ele
naquela hora, mas era algo do tipo “Quero ir embora, me salve!”, pois eu não via
a hora de chegar em casa, tomar um banho e espera-lo chegar. Eu estava na época
do amor, o estrago havia me cansado e tudo que eu queria era um ombro forte
para deitar minha cabeça e me fingir de garotinha frágil. Eu estava amando e
não sabia. E, enquanto amava, aquele negro otário se aproximava de mim sem que
eu percebesse. Colocou a mão no meu cabelo denovo. Levantei os olhos na
esperança de que fosse Helena ou Raquel. Não era. Era ele, com sua camiseta
azul e a cara de otário que não seria capaz de modificar nem com uma cirurgia
de reconstrução facial muito bem elaborada pelo Ivo Pitanguy. “Tira a mão de
mim”, falei, sem gritos e sem grosseria. Apenas falei. Ele tirou e,
rapidamente, prostrou a porra da mão nos meus cabelos denovo. “Tira a mão de
mim”, eu disse, empurrando o braço dele pra longe. “Seu cabelo é bonito. Você é
muito bonita”, “Ok”, respondi brava e cheia de raiva. Estava sem paciência,
oras. Esse cara tinha que aparecer bem na hora que eu dizia boa noite para o
meu futuro marido? “Pombas! Que merda!”, pensei. Ele deu meia volta e apareceu denovo
ameaçando um grito violento “Você é muito chata, moça!”, e eu, sem a mínima
vontade de argumentar com um verme bêbado, olhei e voltei a degustar minha soda
aguada. “Você é muito chata!”, disse mais uma vez, só que dessa vez num tom mais
baixo. Respondi, de cabeça baixa e fuçando a bolsa “Foda-se! Vá a merda,
cara!”. Ele saiu.
A situação não poderia estar pior. Eu
estava num lugar escuro, cercada por bêbados, totalmente sóbria, sendo xavecada
por um imbecil e amando a distância. Minhas preces foram ouvidas e, as 05:13 da
manhã, minhas amigas resolveram partir. Bingo! Agora eu poderia ir pra casa me
esquentar e esperar meu amor com as calcinhas infartadas.
Subimos as escadas tenebrosas, pagamos a conta
e, saindo do calabouço, sinto algo me puxar pelo braço denovo. Era ele, o
negro imbecil. Bonito, porém, imbecil. “Você é tão chata que até parece a minha
professora do primário!!!”. Olhei para ele com um semblante pesado, de quem só
queria que ele tomasse [no cu] um tiro na testa para que dormisse feliz naquele
resto de noite. Não disse nada, só levantei as sobrancelhas como quem diz
“Pena...” Não contente, ele gritou denovo “Certeza que você é petista e curtiu
a aliança do fulano com o Lula!!!” Depois disso, não tive sequer a coragem de
olha-lo. Desci os dois últimos degraus e encolhi os ombros para me proteger do
frio.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Um boa bunda
Se quiser chamar de amor, chame.
Ora, pois chame do que sentir vontade, Julia... chame de amor, minha Julia...
chame de loucura toda essa loucura que me toma conta quando eu penso em você...
Ah... mas não me deixe aqui esperando o teu sorriso bonito que vem desse belo
par de beiços cor de laranja... Ai, minha Julia, não me deixe sentar aqui em
vão... Esse banco, Julinha, não conforta minha bunda esquerda e amassa a
direita. Mas, o que eu não faria para te esperar sair desse ônibus... O que eu
não faço por você, minha menina... Julia, Julia...
E até parece que esse relógio está
quebrado. Por que o tempo está se arrastando pelo chão onde pisa esse mundo de
gente desesperada. Bate salto, bate bota, bate bola.... Essas tais horas se
quedam trôpegas pelos meios dessas catracas, pelas cadeiras onde as bundas
sujas sentaram, por guichês onde velhas e moças passaram. Julinha, por que o
ônibus de Juazeiro não aparece de uma vez? Já passou Belo Horizonte, Mariana, Itabira...
Juazeiro não aparecenunca. Meu Deus! Esse tal de Juazeiro... quase que perco a
fé nessas horas! Meu estômago deve estar despedaçado a essa altura. Sorte minha
não ter me dado uma caganeira brava bem agora. Imagina encontrar a Julia com a
bunda tão suja quanto as bundas das pessoas que sentam nas cadeiras dessa
lanchonete?
Se tem um lugar que eu detesto, vou
dizer: é a rodoviária. Lugarzinho para ter gente feia, sem dente... Impressionante
como todo mundo nesse lugar é feio e quer saber de viajar, visitar família...
até velho anda de ônibus como se fosse rapaz. Pensa se um deles cai na hora de
subir na plataforma pro ônibus? As escadas são muito grandes, é o maior perigo
isso acontecer...
Talvez a única pessoa bonita dessa
rodoviária fedida seja a minha Julia. A minha Julia e a moça dessa lanchonete.
(Me vendeu por três real uma coxinha
tão gostosa quanto a buzanfa dela)
Mas espero que a minha noiva apareça
com aquele vestido de rosa que minha mãe deu pra ela no natal passado. Fica
demais gostosa ainda com aquele vestido... na verdade, ela fica gostosa é de
qualquer jeito. Mas, aquele vestido... deixa a bunda dela empinadinha. Ai,
Julinha... que saudade que eu tenho de você, minha princesa. E esse ônibus
arruaceiro não aparece! Infeliz seja o motorista que estiver te guiando. Minha
vontade é de dar um morro na cara de velho imundo dele por me deixar assim,
feito um cachorro frioriento.
- Juazeiro! Julia! Julia! Juaziero!
(que bunda boa...)
terça-feira, 17 de julho de 2012
Sobretudo, gosto de você
Sou
do tipo esquisito. Não consigo me classificar e isso corrói minhas entranhas.
Fico triste, pensando em como as pessoas me vêem ou em como eu me comporto:
será que correspondo a tudo que penso? Não sei dizer, jamais soube. Hoje a
única coisa que busco é serenidade. Gosto de rock n roll, de cinema, de
literatura, de comida boa, teatro, artes plásticas e editoriais de moda. Mas
descobri que gosto de uma coisa sobre todas as coisas.
Gosto
de você.
Não
sabia disso. A primeira pessoa por quem me apaixonei foi pelo Nino, do Castelo
Rá-tim-bum. Achava que ele me via pela tela e, por isso, me ajeitava bonita
quando começava o programa. Depois disso, me apaixonei por alguns garotos e namorei três deles (mas nenhum por mais de dois meses). No primeiro colegial, me
apaixonei pela professora de literatura. Gostava quando ela ia de cabelo solto
pra escola. Tinha dias que ela usava batom. Aí eu ficava maluca, condenada a
olha-la profundamente e suspirar constante. Fazia perguntas só para que ela
visse que eu existia no fundo da sala onde o ar condicionado congelava corações
imaturos. No primeiro ano da faculdade, me apaixonei pelo meu melhor amigo. Mas
era tão infantil quanto meus namoradinhos de quatorze anos. Faltou pouco para
que cuspíssemos na cara um do outro...
Apaixonar
não: estou amando. Descobri a diferença entre estar apaixonado e estar amando
sinceramente alguem. Minha cabeça está no lugar, pois com você imagino uma
vida. Tenho medo de te desrespeitar. Tenho medo de te chatear.
Sobretudo,
tenho medo de te perder.
Mas
não é aquele medo apaixonado, de que vou ficar sem ar ou emagrecer por isso –
trata-se de um medo sóbrio. Se eu te perder, serei nada menos que nada.
Absolutamente. Se eu te perder, será pesado. Será triste. Ficarei em silêncio.
Não te blasfemarei. Por que estou sóbria. Estou com vontade de me juntar a você
e construir uma casa no meio do mato, pra gente fugir quando São Paulo estiver
muito cinza.
Não
sinto a necessidade brutal de te provar algo. Apenas sinto que preciso viver ao
teu lado e fincar minhas unhas nos teus ombros quando a chuva começar a cair.
Me sinto sóbria. Me sinto segura. Por
que você me observa. Você fica intrigado e eu acho graça. Acho graça enquanto
você fica parado, olhando, quieto. Penso “O que diabos esse cara tá imaginando
a meu respeito?” e sei que são coisas boas. Macias. Você precisa confiar em
mim, pois já me entreguei quando pensei que isso fosse impossível.
Não
sinto ciúmes. Não sinto... você não me provoca isso. Depois de você, aprendi
que sou adulta. Aprendi que adultos acordam cedo e são responsáveis. Mas só
fazem aquilo que querem: não somos máquinas. Ainda bem que você me fez pensar
assim. Mundo de merda esse, não? Mas, meu amor, não cairemos nesse abismo.
Acordaremos cedo sim, mas pra dormir vamos escutar Led Zeppelin.
Se
você não tivesse aparecido, eu teria que me conformar em ser incompleta. Como
se me faltasse um braço. Ou como se eu tivesse cabelos lisos e olhos negros.
Não
seria eu.
sábado, 14 de julho de 2012
Como tomar um ônibus
O velho Key esperando o ônibus. Magrelão, óculos quadrados, maletinha em mãos, calça social escura, sapato de ponta quadrada, camisa azul escuro sem estampa. Velho Key faz questão: se os jovens usam camisa xadrez, ele usa camisa sem estampa. Deus o livre de parecer um pouco com essa juventude.
Camisa por fora da calça.
O velho Key pensando. Domingo. Bom mesmo pra dar uma volta pela cidade, sair de casa. Precisava de um pouco de excitação. Velho Key aposentou há pouco tempo e se sente muito entediado sem ter um trabalho. Coitado de quem pensa que em ônibus não tem excitação. Hoje é domingo, não é dia de procurar um trabalho que o tire do marasmo, hoje é dia de passear - dar um rolê, diriam os jovens, rerere, acha que pode? - e dar uma espiada nas moças. Não que o velho Key ali seja um pervertido. A beleza feminina, como todos sabem, é fonte de inspiração e indiscutivelmente a maior das artes da raça humana. Não é porque a pipa do vovô não sobe mais que ele perde o direito à admiração. Devia, aliás, haver uma fila preferencial pros velhinhos. Deixa o vovô ver a mocinha e desmaiar logo. Rererê.
O velho Key esperando. O velho Key já está no ponto há uns trinta minutos e nada de ônibus. Acha isso um absurdo, mas fica quieto, não fica resmungando e praguejando. Não gosta de ser igual àqueles outros velhos que puxam papo com qualquer um no ponto de ônibus, na farmácia, em qualquer lugar. Estão com pressa pra conhecer a humanidade inteira antes de morrer, pensou o velho Key - rerere - essa devia ir pra algum caderno de anotações. O velho Key não gosta de ficar fazendo escândalo. Não gosta de reclamar muito, já passou a vida toda reclamando e o mundo nunca mudou por ele. Ninguém nunca mudou pra ele. Então deixa estar. A vida é assim mesmo. O mundo desce o cacete na gente, fuzila nossa vida, e o máximo que a gente pode fazer, de vez em quando, é dar uns tiros pro alto. Pra desestressar.
Até que enfim, o ônibus apareceu na distância. Ah - o velho Key gosta de passear - dar um rolê, rereré. Havia mais gente no ponto e o velho Key, todo paciência, deixou todo mundo entrar primeiro. Depois, subiu os dois degraus da entrada, pagou os R$1,10 da passagem ao cobrador, suspendeu a maletinha por cima da catraca, passou e sentou no assento preferencial. O motorista engatou segunda e o velho Key, abrindo a maletinha, lembrou das primeiras aulas de tiro ministradas a ele pelo próprio pai, sabe-se lá quantas eras antes dessa. O velho Key estava velho, aposentado.
Mas ainda dava pro gasto. Havia uma loira absurdamente gostosa sentada perto do velho Key, num assento preferencial. Não era o lugar dela. Devia ter uns 20 anos, pensou o velho Key, mas podia sentar ali, uma loira daquela poderia o que quisesse - podia até sentar no meu colo, rereré. Deveria ter usado uma gravata hoje. O velho Key levantando com o revólver em mãos, dando tiros pro alto: TODO MUNDO QUIETINHO E PASSANDO TUDO, CARALHO!!!
H.G.S.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Assinar:
Postagens (Atom)


