quinta-feira, 12 de julho de 2012

[tentativa de]

"Haikai" do devaneio: 

Te olho ensimesmado
um golpe baixo 
e meu nome poderia ser

"Teu"

sexta-feira, 1 de junho de 2012

"é o que fez a liberdade,

acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos."


____________________________________
valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Ligia


       Ela tinha braços cambaleantes e rodava ressabiada pela sala. Meus braços, que não eram nada além de braços peludos, faziam-se cipós, armas enormes para que eu carregasse meu amor pela cintura. Eu nadava minha palma da mão na infinidade do colo dela, pinçando e pintando o que havia de mais encantador no universo; não queria saber se existia astro no céu, me fazia feliz num teto onde cortininhas alaranjadas deixavam aquela casa quente cheirando a lar de mulher bonita e andante. Meus dedos perdidos entremeavam-se no negror da juba de Ligia, em movimentos de uma volúpia inegável e descaradamente apaixonada. Eu me cegava por ela e fazia questão de assumir minha condição de homem amarrado – Ligia devia fazer trabalhos na Mãe de Santo da rua de cima para me quedar assim, estilhaçado no asfalto, mexendo os dedos para chamar a atenção para a falta de humanidade desse suposto amor.

      Era uma languidez incansável que fazia meus dias mornos, tentando beijar uma boca inóspita e cheia de palavras inteiras por dizer. Ligia dizia muito mais do que era necessário para abalar o meu esturpor estrelar decorrente da convivência dela. Não se bastava de nada, era uma miserável sem tamanhos.

“Como eu odeio esse café”
“Não é tão interessante assim, Roberto”
“Faz pra mim? Por que ninguém me ajuda?”

      Chata.

      Não se acomodava num pensamento, pois quanto mais fosse e viesse – como que num caminho eterno de ondas balouçantes – sempre acharia que as pessoas são bobas demais e que os relevos do mundo estão povoados por seres humanos absolutamente descartáveis. Pensava que já não liam Coetzee como deveriam, ou que Charlie Parker era aclamado por gente que não se importava em beber uísque com Coca-Cola. Não enxergava qualquer sentido e sentia-se comprimida numa caixa de sapatos escura, sem nenhum buraco ínfimo pelo qual pudesse se dar a gloria de respirar.

      A cabeça sem fundo na lua, um momento criativo incapaz. Não dançava mais como nos seus dezoito anos e não sentia necessidades fisiológicas que antes eram imprescindíveis, pois vagava por seus crepúsculos diários pensando no quão triste e sinuosa poderia ser aquela vida que ela contornava desde que enxergara a primeira luz na face da Terra. A alegria não era uma constante: oscilava conforme seu humor a cada vez que pensava que as atitudes que realizava diariamente eram coisas pré destinadas, sem indumentária nenhuma que transformasse respectivos atos em alguma monumento que embelezasse a paisagem imunda que submergia, incessante, todas as noites e dias.

      Dava goles gigantescos em cafés no centro da cidade, ao lado de velhos obesos que não pensavam nas questões abstratas da existência.

      Casualmente, a casualidade.

      Não gostava de fumar, mas ao ver aquele conglomerado de células gordas, sentiu-se no dever de procurar algo que lhe rendesse algum prazer. Tragava e tossia, pensando que até a pior das drogas inventadas pelo homem rejeitavam seu corpo. Os caralhos que encontrava no trabalho – ora nas noites em que passava sozinha tomando chá – não serviam de nada além de deixá-la com a vulva ardida, em chamas. Não queria mais olhar sua boceta e desejava arrancá-la do corpo por que sentia um determinado asco inexplicável. Nadava profunda na merda em que havia escolhido cambalear. Olhava para seus amigos e sentia repulsa, pois eram todos maquinas de chatear pessoas preocupadas e demasiadamente ofegantes.

•   •   •

      Não suportava mais as mãos de Roberto enroladas na sua cintura como se fossem propriedade particular dele. Aquela cara de cão danado a levava a pensar que nada nesse mundo era justo, pois ele tinha cheiro de sexo e um pênis enorme que já não soava como grande vantagem. Nada tinha vantagem, era tudo delírio.

      Esperava acordar.


domingo, 20 de maio de 2012

Volver a los 17

(pelas coisas lindas que acalmam e emancipam)



Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella Diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Flácida


Preciso dizer que sou rebelde sem causa aparente.
Sofro por buscar demais o que é inominável.
Eu não tenho um nome.
Eu tenho a vida
e somente ela.
Não tenho bens,
nem saúde mental.

Mas tenho a vida

[ela é tudo que me resta]

É minha. Só minha.
Quem sabe dela sou eu.

Não me insulte
pelos meus cabelos jogados,
nem pelas unhas roídas,
nem pelo pé fedido
de chulé azedo.

Não me julgue:
sou ser humano,
sou flácida,
sou pálida.

OBRIGO, pois:

Quem enxerga as digitais dos meus dedos sou eu.

Dos meus pelos pubianos cuido eu.

Quero que saiam da minha volta,
mas preciso de abrigo absoluto.

O tempo todo, de qualquer forma que se abrigue.

Aqui
agora
pra já
pra sempre
sem limite
sem gente
sem teto, sem chão
de chinelo, ou no colchão:
quero abrigo.



OBRIGO!

Aceite de uma vez
As palavras que tenho para doar,
pois não quero ferir:
só quero dizer.

domingo, 13 de maio de 2012

Preenchidas pelo vazio



Mulheres como nós não merecem chances, nem perdões. Mulheres como nós desobedecem e merecem castigo eterno. Mulheres como nós latem feito cadelas que transbordam sangue entre os dentes, grandes protetoras da cria.

Mulheres como eu nascem para caminhar em linha reta até a morte.

Mulheres como eu nascem para servir de saco para os socos alheios. Nunca estão em evidencia, nunca serão as primeiras.

Oficiais, jamais.

Somos Genis. Damos para qualquer um que peça um bocado de algo que exija uma coragem homérica adornada por falta de caráter. Mulheres como nós, gritam. Fedem a álcool.

Constrangem. Estragam. Choram.

Mulheres como eu nunca dominam o desconhecido: submetem-se a ele.

(mascaradamente)


Dominamos somente a nós mesmas, mas nem sempre.
Dominamos os olhares alheios, mas causamos receio nos corações.

Olhamos sempre para frente, nunca para baixo.

Batem. Apanham. Acham justo.


Mulheres como nós, são amadas. Mas nunca saberão disso.



A única coisa que nos preenche é o vazio.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"O virtuoso não experimenta a necessidade de dominar-se"


Há um grau além do qual nenhum ser humano pode suportar uma emoção e um grau de apatia abaixo do qual não há como descer (a ausência absoluta do medo só existe para um deus ou para um animal). Entre esses dois limites há uma gama na qual se pode estabelecer a conduta correta ou média, a saber, a que nos permite evitar dois tipos de reações estereotipadas. No caso da raiva, por exemplo, a conduta correta (variável segundo as circunstancias) estará tão afastada da suscetibilidade extrema que me faz arrebatar à menor suspeita de ofensa quanto da insensibilidade extrema (ou vileza) que me faria tolerar palavras ou atos contrários à minha dignidade. Percebe-se assim que o homem “virtuoso” não é aquele que renunciou às paixões (como seria possível?), nem o que conseguiu abrandá-las ao máximo. O homem virtuoso ou “bom” é o que aprimora sua conduta de modo a medir da melhor maneira possível e em todas as circunstancias quanto de paixão seus atos comportam inevitavelmente.

(...)

Afirmaremos então que as paixões oferecem ao homem a ocasião de manifestar domínio de si mesmo? Isso não seria exato. O virtuoso não experimenta a necessidade de dominar-se.



Gerárd Lebrun

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ollie

“Você sabe que é uma praga de mulher. Um diabo.”

Levantou. Mijou denso. “Merda! Acabou o papel!”
Balançou o corpo. Chacoalhou a buceta. Subiu a calcinha mesmo sabendo que ainda haviam gotas pelo meio dos pelos que ela se  recusava a aparar há algum tempo.

“Você é um diabo mesmo... uma puta sem vergonha!”



Ouvia, mas dava de ombros enquanto escutava tudo o que poderia escutar numa noite onde o ódio de Alberto pairava pelo ar como a fumaça de seus charutos fedorentos. Ficava ali, com as pernas cruzadas, observando o movimento automático de seus pés ansiosos por saírem correndo daquela sala. Nada poderia ser concluído após aquela conversa, a não ser a certeza de que mesmo sendo corno de fato, ele ainda a amava e a perdoaria mil vezes de fosse preciso.

“Você se arrependeu de chupar o pau dele?”

Ela levantou os olhos, mas não a cabeça:

“Como você sabe que eu chupei o pau dele?”

“É tudo que posso esperar de uma filha da puta malandra feito você, Olivia. Se arrependeu ou não? Porra!”

Ela levantou os olhos, mas não a cabeça. Olhando por cima dos óculos de armação vermelha, respondeu vagarosamente:

“Não.”

Ele sabia a resposta e se sentiu mais otário após perguntar. Parecia masoquismo da parte dele, querer esclarecer os motivos que levaram Olivia a trepar três vezes com um escritor gaucho e careca numa cidade minúscula e quase feudal da Bulgária – Zlatograd. Pensava que maldita foi a hora em que sua esposa fora chamada parar participar daquele recital onde os autores aclamados pela critica e detestados pelo publico se encontraram no mesmo lugar para vomitar todo o lixo supostamente intelectual que guardam dentro de si. Não quis acompanhá-la e, não por isso, ela foi coberta pelo corpo de uma bicha gaucha e careca.

Qual era o problema de Olivia? De onde era proveniente aquele caráter solúvel e duvidoso? Ele não acreditava que tantos anos eram resultado de falácias incessantes. Ou pelo menos não queria acreditar naquele momento. Nada seria capaz de fazê-lo esquecer. Nem um teco, nem três garrafas de uísque, nem todos os calmantes do mundo.

(...)


quinta-feira, 26 de abril de 2012

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . VERMELHO


Todo mês a terceira guerra mundial acontece
Ela suja, enraivece e mente.
Afasta os amores de mim
Destrói meus amigos
E me machuca.

Uma vez a cada trinta dias
Sinto dores pontudas
Furando minha barriga
Provando que Deus não existe.

Mostrando que não há
Nenhum verme dentro de mim.

E tudo isso vai abaixo
Pela minha buceta.

domingo, 22 de abril de 2012

Amor punk

descendo, eu estava com frio.

no ponto, o sol começava a bater e eu derretia um pouco mais.

no ônibus, minha testa franzia.

no caminho, eu lia "amor punk" tatuado nos muros
envoltos por expressões coloridas de artistas que eu desejava conhecer.

gritavam algo
(que os humanos ordinários se recusavam a ouvir)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vazou pelas calcinhas

quis

suor
porra
fffff
...

afago
de quatro

embrulhado
em látex

shhhhhhh
...

me sobrou

[punheta]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Mestre

Álvaro de Campos

Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nessa forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem
de nada,
Alma abstrata e visual até o ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre
múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...

Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionalista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas do ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de
mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem
perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia
involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua
serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te
ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao
relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.

Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro
nem ninguém.
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver
clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia
respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia
que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a
nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de
sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre
aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser
humano!

Feliz o homem maçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve
ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é
dormir.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Triste é ter certeza

Não suporto fluidos, suposições ou pressupostos. Sinto medo de acreditar que o mundo é menos químico do que penso em relação a quantidade de forças que sinto escorrer entre meus dedos como se fosse mera água para sedentos. Esvai-se justamente com a minha compaixão para com aqueles que amo, pois não sei o motivo de amá-los – são todos tão monstruosos quanto o meu rosto refletido num banheiro de bar onde o mijo afoga meus pés sem qualquer resquício de piedade. São todos tão solúveis quanto o caráter dos governantes que ouso blasfemar por puro esporte e exercício de uma indignação chata e sem retorno. Sinto como se toda explicação (ou tentativa de) fosse inútil, pois a dor que me assola miseravelmente parece não escutar palavras. Jogadas, ou não.

Triste é ter certeza.

Saber que nada será diferente do que é agora e que a morte é uma parábola entre o tempo e o espaço de uma vida mal aproveitada. Saber que a paciência acaba e que as pessoas defecam através de olhares intimidadores que boicotam a esperança alheia sem nenhum motivo aparente. Devoram o luxo que consomem, cuidam de seus corpos e pensam estarem felizes por que aceitam conviver num esgoto recorrente.

Não fecho os olhos, pois sinto o peso nas costas.

Não faço diferença, pois não tenho coragem.

Sigo, observando formigas trabalhadoras que desejam mais agonia à medida que cada sol nasce mais quente. Inventam novos seios para embelezarem aqueles velhos caídos. Implantam novas carnes para que um pau (puro símbolo fálico, escorregadio e sadio) seja uma arma. Comem a lavagem que é proporcionada com a boca aberta e as mãos imundas. Feios e escrotos desde dentro, representando isso para fora.

Sinto-me a vontade para dizer que desejo a morte imediata de cada ser humano habitante da Terra.

(o receio não existe)

segunda-feira, 19 de março de 2012

é assim que sinto

não sei mais dizer o que faço
nem imagino o que ando buscando
em corredores escuros que cheiram a merda.

não encontro olhos que tragam luz:

pernas alheias não me guiam
e as minhas próprias enganam.

enganada por mim mesma
e durmo.

sem vontade de despertar para continuar
esmurrando facas afiadas:
é assim que sinto.

minha autonomia
esvaiu-se,
desde que escolhi viver numa redoma
que transpira muito
e lentamente.

lateja.

limpo bundas,
seco lágrimas.

desacato o sagrado,
clamo o inverso.

desrespeito

somente a mim mesma.

segunda-feira, 12 de março de 2012

HOMO ERECTUS

Marcelino Freire

Sabe o homem que encontraram no gelo? Encontraram no gelo da Prússia? Enrolado? Os arqueólogos encontraram no gelo gelado da Prússia? Perto das colinas calcárias da Prússia? O homem feito um feto gelado, com sua vara de pesca? Sabe o homem que encontraram? Com seu machado de pedra?
O homem que tinha cabeleira intacta? A arcada dentária? O homem meio macaco? Funerário? Fossilizado na encosta que o engoliu? No tempo perdido?
Você viu? Tetravô dos mamíferos do Brasil? O homem vestígio?
O homem engolido pela terra primitiva? Da Era Quaternária, não sei? Secundária? Que caçava avestruz sem plumas? Caçava o cervo turfeiras? Javali e mastodonte? Ia aos mares fisgar celacanto?
Inimigo de rinoceronte?
Sabe deste homem? Irmão do Homem de Piltdown? Primo do homem de Neanderthal? Do velho Cro-Magnon? Do Homem de Mauer? Dos Incas, até? Dos Filhos do Sol? Das tribos da Guiné?
O homem de 100 mil anos antes de nossa era? Ou mais? Um milhão de eras? Homem com mandíbula de chimpanzé? Parecido o mais terrível dos répteis carnívoros do Cretáceo? Um mistério maior que este mistério? Navegador de jacaré?
Não sabe?
Homem desenterrado por acaso? Pelos viajantes, por acaso? Pela paleontologia, não sabe? Visto nas costelas frias da Prússia, repito? Prússia renana, vá saber lá o que é isso?
O homem ressuscitado, você viu na TV? De ossos miúdos? Esmiuçados? Abertos para estudo? À visitação nos museus americanos? Como uma múmia sem roupa? Quase? Flagrada como se estivesse dormindo nas profundezas do mundo oceânico? O homem embrionário? Das origens cavernosas da humanidade? Sabe este homem, não sabe? Pintado nas cavernas da Dordonha? Mesolítico? Nômade? Perdido?
Este homem dava o cu para outros homens.

E ninguém - até então - tinha nada a ver com isso.

segunda-feira, 5 de março de 2012

neve e fogo
força e febre
no movimento
o silencio se bebe
e se embriaga

agora
aqui
no dentro do outro
estilhaços de estrelas

pleno de si
esse cio
eterno inicio
nunca se sacia


Alice Ruiz