quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um boa bunda



Se quiser chamar de amor, chame. Ora, pois chame do que sentir vontade, Julia... chame de amor, minha Julia... chame de loucura toda essa loucura que me toma conta quando eu penso em você... Ah... mas não me deixe aqui esperando o teu sorriso bonito que vem desse belo par de beiços cor de laranja... Ai, minha Julia, não me deixe sentar aqui em vão... Esse banco, Julinha, não conforta minha bunda esquerda e amassa a direita. Mas, o que eu não faria para te esperar sair desse ônibus... O que eu não faço por você, minha menina... Julia, Julia...

E até parece que esse relógio está quebrado. Por que o tempo está se arrastando pelo chão onde pisa esse mundo de gente desesperada. Bate salto, bate bota, bate bola.... Essas tais horas se quedam trôpegas pelos meios dessas catracas, pelas cadeiras onde as bundas sujas sentaram, por guichês onde velhas e moças passaram. Julinha, por que o ônibus de Juazeiro não aparece de uma vez? Já passou Belo Horizonte, Mariana, Itabira... Juazeiro não aparecenunca. Meu Deus! Esse tal de Juazeiro... quase que perco a fé nessas horas! Meu estômago deve estar despedaçado a essa altura. Sorte minha não ter me dado uma caganeira brava bem agora. Imagina encontrar a Julia com a bunda tão suja quanto as bundas das pessoas que sentam nas cadeiras dessa lanchonete?

Se tem um lugar que eu detesto, vou dizer: é a rodoviária. Lugarzinho para ter gente feia, sem dente... Impressionante como todo mundo nesse lugar é feio e quer saber de viajar, visitar família... até velho anda de ônibus como se fosse rapaz. Pensa se um deles cai na hora de subir na plataforma pro ônibus? As escadas são muito grandes, é o maior perigo isso acontecer...

Talvez a única pessoa bonita dessa rodoviária fedida seja a minha Julia. A minha Julia e a moça dessa lanchonete.

(Me vendeu por três real uma coxinha tão gostosa quanto a buzanfa dela)

Mas espero que a minha noiva apareça com aquele vestido de rosa que minha mãe deu pra ela no natal passado. Fica demais gostosa ainda com aquele vestido... na verdade, ela fica gostosa é de qualquer jeito. Mas, aquele vestido... deixa a bunda dela empinadinha. Ai, Julinha... que saudade que eu tenho de você, minha princesa. E esse ônibus arruaceiro não aparece! Infeliz seja o motorista que estiver te guiando. Minha vontade é de dar um morro na cara de velho imundo dele por me deixar assim, feito um cachorro frioriento.

- Juazeiro! Julia! Julia! Juaziero!

(que bunda boa...)

terça-feira, 17 de julho de 2012

Sobretudo, gosto de você



Sou do tipo esquisito. Não consigo me classificar e isso corrói minhas entranhas. Fico triste, pensando em como as pessoas me vêem ou em como eu me comporto: será que correspondo a tudo que penso? Não sei dizer, jamais soube. Hoje a única coisa que busco é serenidade. Gosto de rock n roll, de cinema, de literatura, de comida boa, teatro, artes plásticas e editoriais de moda. Mas descobri que gosto de uma coisa sobre todas as coisas.

Gosto de você.

Não sabia disso. A primeira pessoa por quem me apaixonei foi pelo Nino, do Castelo Rá-tim-bum. Achava que ele me via pela tela e, por isso, me ajeitava bonita quando começava o programa. Depois disso, me apaixonei por alguns garotos e namorei três deles (mas nenhum por mais de dois meses). No primeiro colegial, me apaixonei pela professora de literatura. Gostava quando ela ia de cabelo solto pra escola. Tinha dias que ela usava batom. Aí eu ficava maluca, condenada a olha-la profundamente e suspirar constante. Fazia perguntas só para que ela visse que eu existia no fundo da sala onde o ar condicionado congelava corações imaturos. No primeiro ano da faculdade, me apaixonei pelo meu melhor amigo. Mas era tão infantil quanto meus namoradinhos de quatorze anos. Faltou pouco para que cuspíssemos na cara um do outro...

Hoje eu resolvi me apaixonar por você.

Apaixonar não: estou amando. Descobri a diferença entre estar apaixonado e estar amando sinceramente alguem. Minha cabeça está no lugar, pois com você imagino uma vida. Tenho medo de te desrespeitar. Tenho medo de te chatear.

Sobretudo, tenho medo de te perder.

Mas não é aquele medo apaixonado, de que vou ficar sem ar ou emagrecer por isso – trata-se de um medo sóbrio. Se eu te perder, serei nada menos que nada. Absolutamente. Se eu te perder, será pesado. Será triste. Ficarei em silêncio. Não te blasfemarei. Por que estou sóbria. Estou com vontade de me juntar a você e construir uma casa no meio do mato, pra gente fugir quando São Paulo estiver muito cinza.

Não sinto a necessidade brutal de te provar algo. Apenas sinto que preciso viver ao teu lado e fincar minhas unhas nos teus ombros quando a chuva começar a cair. Me sinto sóbria. Me sinto segura.  Por que você me observa. Você fica intrigado e eu acho graça. Acho graça enquanto você fica parado, olhando, quieto. Penso “O que diabos esse cara tá imaginando a meu respeito?” e sei que são coisas boas. Macias. Você precisa confiar em mim, pois já me entreguei quando pensei que isso fosse impossível.

Não sinto ciúmes. Não sinto... você não me provoca isso. Depois de você, aprendi que sou adulta. Aprendi que adultos acordam cedo e são responsáveis. Mas só fazem aquilo que querem: não somos máquinas. Ainda bem que você me fez pensar assim. Mundo de merda esse, não? Mas, meu amor, não cairemos nesse abismo. Acordaremos cedo sim, mas pra dormir vamos escutar Led Zeppelin.

Se você não tivesse aparecido, eu teria que me conformar em ser incompleta. Como se me faltasse um braço. Ou como se eu tivesse cabelos lisos e olhos negros.

Não seria eu. 

sábado, 14 de julho de 2012

Como tomar um ônibus

O velho Key esperando o ônibus. Magrelão, óculos quadrados, maletinha em mãos, calça social escura, sapato de ponta quadrada, camisa azul escuro sem estampa. Velho Key faz questão: se os jovens usam camisa xadrez, ele usa camisa sem estampa. Deus o livre de parecer um pouco com essa juventude.
Camisa por fora da calça.

O velho Key pensando. Domingo. Bom mesmo pra dar uma volta pela cidade, sair de casa. Precisava de um pouco de excitação. Velho Key aposentou há pouco tempo e se sente muito entediado sem ter um trabalho. Coitado de quem pensa que em ônibus não tem excitação. Hoje é domingo, não é dia de procurar um trabalho que o tire do marasmo, hoje é dia de passear - dar um rolê, diriam os jovens, rerere, acha que pode? - e dar uma espiada nas moças. Não que o velho Key ali seja um pervertido. A beleza feminina, como todos sabem, é fonte de inspiração e indiscutivelmente a maior das artes da raça humana. Não é porque a pipa do vovô não sobe mais que ele perde o direito à admiração. Devia, aliás, haver uma fila preferencial pros velhinhos. Deixa o vovô ver a mocinha e desmaiar logo. Rererê.

O velho Key esperando. O velho Key já está no ponto há uns trinta minutos e nada de ônibus. Acha isso um absurdo, mas fica quieto, não fica resmungando e praguejando. Não gosta de ser igual àqueles outros velhos que puxam papo com qualquer um no ponto de ônibus, na farmácia, em qualquer lugar. Estão com pressa pra conhecer a humanidade inteira antes de morrer, pensou o velho Key - rerere - essa devia ir pra algum caderno de anotações. O velho Key não gosta de ficar fazendo escândalo. Não gosta de reclamar muito, já passou a vida toda reclamando e o mundo nunca mudou por ele. Ninguém nunca mudou pra ele. Então deixa estar. A vida é assim mesmo. O mundo desce o cacete na gente, fuzila nossa vida, e o máximo que a gente pode fazer, de vez em quando, é dar uns tiros pro alto. Pra desestressar.

Até que enfim, o ônibus apareceu na distância. Ah - o velho Key gosta de passear - dar um rolê, rereré. Havia mais gente no ponto e o velho Key, todo paciência, deixou todo mundo entrar primeiro. Depois, subiu os dois degraus da entrada, pagou os R$1,10 da passagem ao cobrador, suspendeu a maletinha por cima da catraca, passou e sentou no assento preferencial. O motorista engatou segunda e o velho Key, abrindo a maletinha, lembrou das primeiras aulas de tiro ministradas a ele pelo próprio pai, sabe-se lá quantas eras antes dessa. O velho Key estava velho, aposentado.

Mas ainda dava pro gasto. Havia uma loira absurdamente gostosa sentada perto do velho Key, num assento preferencial. Não era o lugar dela. Devia ter uns 20 anos, pensou o velho Key, mas podia sentar ali, uma loira daquela poderia o que quisesse - podia até sentar no meu colo, rereré. Deveria ter usado uma gravata hoje. O velho Key levantando com o revólver em mãos, dando tiros pro alto: TODO MUNDO QUIETINHO E PASSANDO TUDO, CARALHO!!!


H.G.S.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

[tentativa de]

"Haikai" do devaneio: 

Te olho ensimesmado
um golpe baixo 
e meu nome poderia ser

"Teu"

sexta-feira, 1 de junho de 2012

"é o que fez a liberdade,

acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos."


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valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Ligia


       Ela tinha braços cambaleantes e rodava ressabiada pela sala. Meus braços, que não eram nada além de braços peludos, faziam-se cipós, armas enormes para que eu carregasse meu amor pela cintura. Eu nadava minha palma da mão na infinidade do colo dela, pinçando e pintando o que havia de mais encantador no universo; não queria saber se existia astro no céu, me fazia feliz num teto onde cortininhas alaranjadas deixavam aquela casa quente cheirando a lar de mulher bonita e andante. Meus dedos perdidos entremeavam-se no negror da juba de Ligia, em movimentos de uma volúpia inegável e descaradamente apaixonada. Eu me cegava por ela e fazia questão de assumir minha condição de homem amarrado – Ligia devia fazer trabalhos na Mãe de Santo da rua de cima para me quedar assim, estilhaçado no asfalto, mexendo os dedos para chamar a atenção para a falta de humanidade desse suposto amor.

      Era uma languidez incansável que fazia meus dias mornos, tentando beijar uma boca inóspita e cheia de palavras inteiras por dizer. Ligia dizia muito mais do que era necessário para abalar o meu esturpor estrelar decorrente da convivência dela. Não se bastava de nada, era uma miserável sem tamanhos.

“Como eu odeio esse café”
“Não é tão interessante assim, Roberto”
“Faz pra mim? Por que ninguém me ajuda?”

      Chata.

      Não se acomodava num pensamento, pois quanto mais fosse e viesse – como que num caminho eterno de ondas balouçantes – sempre acharia que as pessoas são bobas demais e que os relevos do mundo estão povoados por seres humanos absolutamente descartáveis. Pensava que já não liam Coetzee como deveriam, ou que Charlie Parker era aclamado por gente que não se importava em beber uísque com Coca-Cola. Não enxergava qualquer sentido e sentia-se comprimida numa caixa de sapatos escura, sem nenhum buraco ínfimo pelo qual pudesse se dar a gloria de respirar.

      A cabeça sem fundo na lua, um momento criativo incapaz. Não dançava mais como nos seus dezoito anos e não sentia necessidades fisiológicas que antes eram imprescindíveis, pois vagava por seus crepúsculos diários pensando no quão triste e sinuosa poderia ser aquela vida que ela contornava desde que enxergara a primeira luz na face da Terra. A alegria não era uma constante: oscilava conforme seu humor a cada vez que pensava que as atitudes que realizava diariamente eram coisas pré destinadas, sem indumentária nenhuma que transformasse respectivos atos em alguma monumento que embelezasse a paisagem imunda que submergia, incessante, todas as noites e dias.

      Dava goles gigantescos em cafés no centro da cidade, ao lado de velhos obesos que não pensavam nas questões abstratas da existência.

      Casualmente, a casualidade.

      Não gostava de fumar, mas ao ver aquele conglomerado de células gordas, sentiu-se no dever de procurar algo que lhe rendesse algum prazer. Tragava e tossia, pensando que até a pior das drogas inventadas pelo homem rejeitavam seu corpo. Os caralhos que encontrava no trabalho – ora nas noites em que passava sozinha tomando chá – não serviam de nada além de deixá-la com a vulva ardida, em chamas. Não queria mais olhar sua boceta e desejava arrancá-la do corpo por que sentia um determinado asco inexplicável. Nadava profunda na merda em que havia escolhido cambalear. Olhava para seus amigos e sentia repulsa, pois eram todos maquinas de chatear pessoas preocupadas e demasiadamente ofegantes.

•   •   •

      Não suportava mais as mãos de Roberto enroladas na sua cintura como se fossem propriedade particular dele. Aquela cara de cão danado a levava a pensar que nada nesse mundo era justo, pois ele tinha cheiro de sexo e um pênis enorme que já não soava como grande vantagem. Nada tinha vantagem, era tudo delírio.

      Esperava acordar.


domingo, 20 de maio de 2012

Volver a los 17

(pelas coisas lindas que acalmam e emancipam)



Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella Diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Flácida


Preciso dizer que sou rebelde sem causa aparente.
Sofro por buscar demais o que é inominável.
Eu não tenho um nome.
Eu tenho a vida
e somente ela.
Não tenho bens,
nem saúde mental.

Mas tenho a vida

[ela é tudo que me resta]

É minha. Só minha.
Quem sabe dela sou eu.

Não me insulte
pelos meus cabelos jogados,
nem pelas unhas roídas,
nem pelo pé fedido
de chulé azedo.

Não me julgue:
sou ser humano,
sou flácida,
sou pálida.

OBRIGO, pois:

Quem enxerga as digitais dos meus dedos sou eu.

Dos meus pelos pubianos cuido eu.

Quero que saiam da minha volta,
mas preciso de abrigo absoluto.

O tempo todo, de qualquer forma que se abrigue.

Aqui
agora
pra já
pra sempre
sem limite
sem gente
sem teto, sem chão
de chinelo, ou no colchão:
quero abrigo.



OBRIGO!

Aceite de uma vez
As palavras que tenho para doar,
pois não quero ferir:
só quero dizer.

domingo, 13 de maio de 2012

Preenchidas pelo vazio



Mulheres como nós não merecem chances, nem perdões. Mulheres como nós desobedecem e merecem castigo eterno. Mulheres como nós latem feito cadelas que transbordam sangue entre os dentes, grandes protetoras da cria.

Mulheres como eu nascem para caminhar em linha reta até a morte.

Mulheres como eu nascem para servir de saco para os socos alheios. Nunca estão em evidencia, nunca serão as primeiras.

Oficiais, jamais.

Somos Genis. Damos para qualquer um que peça um bocado de algo que exija uma coragem homérica adornada por falta de caráter. Mulheres como nós, gritam. Fedem a álcool.

Constrangem. Estragam. Choram.

Mulheres como eu nunca dominam o desconhecido: submetem-se a ele.

(mascaradamente)


Dominamos somente a nós mesmas, mas nem sempre.
Dominamos os olhares alheios, mas causamos receio nos corações.

Olhamos sempre para frente, nunca para baixo.

Batem. Apanham. Acham justo.


Mulheres como nós, são amadas. Mas nunca saberão disso.



A única coisa que nos preenche é o vazio.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"O virtuoso não experimenta a necessidade de dominar-se"


Há um grau além do qual nenhum ser humano pode suportar uma emoção e um grau de apatia abaixo do qual não há como descer (a ausência absoluta do medo só existe para um deus ou para um animal). Entre esses dois limites há uma gama na qual se pode estabelecer a conduta correta ou média, a saber, a que nos permite evitar dois tipos de reações estereotipadas. No caso da raiva, por exemplo, a conduta correta (variável segundo as circunstancias) estará tão afastada da suscetibilidade extrema que me faz arrebatar à menor suspeita de ofensa quanto da insensibilidade extrema (ou vileza) que me faria tolerar palavras ou atos contrários à minha dignidade. Percebe-se assim que o homem “virtuoso” não é aquele que renunciou às paixões (como seria possível?), nem o que conseguiu abrandá-las ao máximo. O homem virtuoso ou “bom” é o que aprimora sua conduta de modo a medir da melhor maneira possível e em todas as circunstancias quanto de paixão seus atos comportam inevitavelmente.

(...)

Afirmaremos então que as paixões oferecem ao homem a ocasião de manifestar domínio de si mesmo? Isso não seria exato. O virtuoso não experimenta a necessidade de dominar-se.



Gerárd Lebrun

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ollie

“Você sabe que é uma praga de mulher. Um diabo.”

Levantou. Mijou denso. “Merda! Acabou o papel!”
Balançou o corpo. Chacoalhou a buceta. Subiu a calcinha mesmo sabendo que ainda haviam gotas pelo meio dos pelos que ela se  recusava a aparar há algum tempo.

“Você é um diabo mesmo... uma puta sem vergonha!”



Ouvia, mas dava de ombros enquanto escutava tudo o que poderia escutar numa noite onde o ódio de Alberto pairava pelo ar como a fumaça de seus charutos fedorentos. Ficava ali, com as pernas cruzadas, observando o movimento automático de seus pés ansiosos por saírem correndo daquela sala. Nada poderia ser concluído após aquela conversa, a não ser a certeza de que mesmo sendo corno de fato, ele ainda a amava e a perdoaria mil vezes de fosse preciso.

“Você se arrependeu de chupar o pau dele?”

Ela levantou os olhos, mas não a cabeça:

“Como você sabe que eu chupei o pau dele?”

“É tudo que posso esperar de uma filha da puta malandra feito você, Olivia. Se arrependeu ou não? Porra!”

Ela levantou os olhos, mas não a cabeça. Olhando por cima dos óculos de armação vermelha, respondeu vagarosamente:

“Não.”

Ele sabia a resposta e se sentiu mais otário após perguntar. Parecia masoquismo da parte dele, querer esclarecer os motivos que levaram Olivia a trepar três vezes com um escritor gaucho e careca numa cidade minúscula e quase feudal da Bulgária – Zlatograd. Pensava que maldita foi a hora em que sua esposa fora chamada parar participar daquele recital onde os autores aclamados pela critica e detestados pelo publico se encontraram no mesmo lugar para vomitar todo o lixo supostamente intelectual que guardam dentro de si. Não quis acompanhá-la e, não por isso, ela foi coberta pelo corpo de uma bicha gaucha e careca.

Qual era o problema de Olivia? De onde era proveniente aquele caráter solúvel e duvidoso? Ele não acreditava que tantos anos eram resultado de falácias incessantes. Ou pelo menos não queria acreditar naquele momento. Nada seria capaz de fazê-lo esquecer. Nem um teco, nem três garrafas de uísque, nem todos os calmantes do mundo.

(...)


quinta-feira, 26 de abril de 2012

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . VERMELHO


Todo mês a terceira guerra mundial acontece
Ela suja, enraivece e mente.
Afasta os amores de mim
Destrói meus amigos
E me machuca.

Uma vez a cada trinta dias
Sinto dores pontudas
Furando minha barriga
Provando que Deus não existe.

Mostrando que não há
Nenhum verme dentro de mim.

E tudo isso vai abaixo
Pela minha buceta.

domingo, 22 de abril de 2012

Amor punk

descendo, eu estava com frio.

no ponto, o sol começava a bater e eu derretia um pouco mais.

no ônibus, minha testa franzia.

no caminho, eu lia "amor punk" tatuado nos muros
envoltos por expressões coloridas de artistas que eu desejava conhecer.

gritavam algo
(que os humanos ordinários se recusavam a ouvir)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vazou pelas calcinhas

quis

suor
porra
fffff
...

afago
de quatro

embrulhado
em látex

shhhhhhh
...

me sobrou

[punheta]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Mestre

Álvaro de Campos

Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nessa forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem
de nada,
Alma abstrata e visual até o ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre
múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...

Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionalista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas do ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de
mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem
perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia
involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua
serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te
ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao
relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.

Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro
nem ninguém.
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver
clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia
respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia
que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a
nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de
sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre
aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser
humano!

Feliz o homem maçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve
ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é
dormir.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Triste é ter certeza

Não suporto fluidos, suposições ou pressupostos. Sinto medo de acreditar que o mundo é menos químico do que penso em relação a quantidade de forças que sinto escorrer entre meus dedos como se fosse mera água para sedentos. Esvai-se justamente com a minha compaixão para com aqueles que amo, pois não sei o motivo de amá-los – são todos tão monstruosos quanto o meu rosto refletido num banheiro de bar onde o mijo afoga meus pés sem qualquer resquício de piedade. São todos tão solúveis quanto o caráter dos governantes que ouso blasfemar por puro esporte e exercício de uma indignação chata e sem retorno. Sinto como se toda explicação (ou tentativa de) fosse inútil, pois a dor que me assola miseravelmente parece não escutar palavras. Jogadas, ou não.

Triste é ter certeza.

Saber que nada será diferente do que é agora e que a morte é uma parábola entre o tempo e o espaço de uma vida mal aproveitada. Saber que a paciência acaba e que as pessoas defecam através de olhares intimidadores que boicotam a esperança alheia sem nenhum motivo aparente. Devoram o luxo que consomem, cuidam de seus corpos e pensam estarem felizes por que aceitam conviver num esgoto recorrente.

Não fecho os olhos, pois sinto o peso nas costas.

Não faço diferença, pois não tenho coragem.

Sigo, observando formigas trabalhadoras que desejam mais agonia à medida que cada sol nasce mais quente. Inventam novos seios para embelezarem aqueles velhos caídos. Implantam novas carnes para que um pau (puro símbolo fálico, escorregadio e sadio) seja uma arma. Comem a lavagem que é proporcionada com a boca aberta e as mãos imundas. Feios e escrotos desde dentro, representando isso para fora.

Sinto-me a vontade para dizer que desejo a morte imediata de cada ser humano habitante da Terra.

(o receio não existe)