terça-feira, 6 de julho de 2010

o molho e o frango.

acidente de trânsito ontem.
um homem, ao entrar no carro estacionado à direita da rua, abriu a porta sem prestar atenção e ralou a lateral do carro do babaca que estava passando.

-e o que nós vamos fazer?
-ué, quem você acha que tá errado?!

não tem segunda-feira melhor.
tá, tá... todo mundo faz cagada.
liga pro seguro. é bom fazer um B.O.

dia seguinte: fazer B.O.

-bom dia, B.O. de acidente de trânsito.
-a outra parte?
-muito longe daqui, espero eu.
-olha, vou te dizer, é o que eu digo, se pensa bem se precisa mesmo fazer porque o tem de gente que vem aqui e faz e depois nem volta pra pegar, olha, é o que eu falo, se quer fazer, vamo lá.
-mas eu preciso fazer por efeitos de direito, pra seguro. (blas blas blas)
-bom, então vamo lá, pode sentar aí.

...

-o sr. tem outro documento do veículo?
-hmmm... não?
-esse documento tá vencido por 5 dias, seu veículo vai ser apreendido.
- B E L E Z A
- bom, esse documento aqui é da multa pelo documento vencido e blas bla bla bla você pode se negar a assinar, ou assinar.
-e qual a diferença?
-nnnnnenhuma.
-então não vou assinar.
-então tá bom. ó, essa ficha aqui mostra que seu veículo tá retido, você tem que fazer outro documento pro carro, e essa ficha a gente tem cinco dias pra mandar láááa pra delegacia de trânsito aí o sr. com seu novo documento vai pra la e ai vai poder remover o carro do guincho, mas só a sra. dona do veículo é que vai poder ir lá retirar ele, e aí, é o que eu digo, pra guinchar o sr. pode deixar que a gente guinche, ou pode o sr. mesmo levar o carro até lá e depois que o delegado autorizar também então, ENTÃO, é mais fácil pelo, viiiiiish, bem mais fácil pelo despachante sim. é. pois é. então. o sr. aguarda um pouco que o nosso soldado já tá vindo.

- Q

- o sr. viu só, é o que eu digo, as vezes a pessoa vem aqui toda apressada pra fazer um b.o. e tá com documentação errada, e aí que que a gente pode fazer né? pois é, outro dia uma mulher tava até com a carta vencida, aí, vish, que que a gente faz né? é o que eu falo pro sr., pensa beeem, depois faz! ééée complicado né, mas depois também, é o que eu digo, como é que fica, né? pois é.
tinha alguuma coisa me dizendo pra não fazer seu b.o., se viu que eu te disse quando chegou né? mas é o que eu te disse. é isso. GUINCHA AQUI, JOSUÉ!


no pátio, cercado de carros e motos parados:
-o preço vai ser 180 por 5 dias e mais 18 reais por dia que o veículo ficar aqui, sr. aqui como se pode ver tá tudo anotado sobre seu veículo, do jeito que entrou, ele tem que sair né. hehe.



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7 pontos.
é o que eu digo.
quem aí tá afim de perder a CNH?

QUE PAIS É ESSE?

Difícil não se lembrar do título da canção de Renato Russo, cantada pela sua banda Legião Urbana, ao ler a coluna da competente Mônica Bergamo no último domingo. Antes de seguir em frente, digo logo que não sou nenhum comunista. Considero o capitalismo, dentro das circunstâncias atuais, o modelo mais apropriado para garantir o crescimento da economia mundial, com seu estímulo à competitividade e à lucratividade. Não é um modelo perfeito, mas funciona com todas as suas imperfeições. Entre elas, a principal, em minha opinião, é não ter eliminado ou reduzido a contento o fosso entre ricos e pobres.

Bem, voltando ao início, é exatamente por isso que, ao ler a coluna de Mônica Bergamo, bateu o mesmo questionamento de Renato Russo. Impossível, na minha opinião, ler o "Guia da Pechincha" e não perguntar "que país é esse?". Está lá impresso, no caderno Ilustrada da Folha, que foi aberta a temporada de liquidações das grifes internacionais e clientes saíram correndo para comprar casacos por R$ 28 mil, vestidos por R$ 16 mil e botas por R$ 3.000. E, segundo registra a jornalista, a turma do andar de cima, como diz Elio Gaspari, achou tudo barato, avaliou que "o preço tava ótimo!".

A coluna de Bergamo revela o mundo da pechincha das grifes internacionais, de como o andar de cima consome o seu dinheirinho. Tudo bem, eles têm direito de gastar sua grana do jeito que quiserem, ainda mais se foi ganho honestamente. Ninguém tem nada com isso. Cada um faz o que quiser com o que é seu. Não vou nem entrar em comparações sobre quantas famílias poderiam receber o benefício do Bolsa Família com o casaco de R$ 28 mil adquirido na liquidação. Gostaria, sinceramente, é que a turma que governa esse país parasse para meditar um pouquinho sobre essas cenas de realismo fantástico relatadas no "Guia da Pechincha". Principalmente os políticos, como Serra e Dilma, que, neste ano eleitoral, estão disputando a sucessão do presidente Lula.

Sabe por quê? Primeiro, porque, proporcionalmente, o rico paga muito menos imposto do que as classes média e baixa desse país chamado Brasil. A baixa não paga impostos diretamente, mas sofre com a tributação indireta embutida nos produtos que consome. A média é tributada diretamente pelo Leão da Receita Federal e não tem como fugir da mordida. Quando tenta, corre o risco de cair na famosa malha fina. Já a classe alta, a verdadeiramente rica, tem fórmulas e fórmulas de fugir da tributação. As famosas brechas tributárias, ou elisão fiscal, no jargão fiscal. Assim, essa classe deixa de contribuir como deveria para os cofres públicos.

Enquanto isso, ela desfila pelas liquidações de grifes internacionais, torrando até R$ 200 mil em casacos de pele, de couro e outras peças por cabeça. Isso mesmo, uma única pessoa torrou essa grana na liquidação. Repetindo, se o dinheiro é dela, o que eu tenho com isso? Ela tem o direito de fazer da sua grana o que bem entender. Só que, quem governa esse país, deveria dar uma olhada mais atenta sobre essa turma. Checar se realmente está pagando impostos equivalentes ao seu poder de compra. Com certeza, vão descobrir que muitos não estão. Posso estar errado, mas a pessoa que comprou uma única peça de grife internacional por R$ 35 mil pode muito bem não ter contribuído para a Receita tanto quanto um assalariado de classe média. O triste da história é que, se esse grupo pagasse na mesma proporção que os demais, o tal fosso entre ricos e pobres poderia ser menor.

Aí vem o segundo ponto que os candidatos deveriam observar. Enquanto alguns poucos têm mais do que o suficiente para torrar sua grana em grifes internacionais, a maioria sobrevive com baixos salários. Esse fosso entre classes é o retrato da nossa desigualdade de renda, que está entre as maiores do mundo. Isso mesmo, continua sendo uma das maiores do mundo. E trabalhar para reduzi-la não significa ir contra o sistema em vigor. Pelo contrário. A experiência mostra, inclusive, que a economia melhora quanto mais renda for distribuída.

O detalhe dessa questão é que ninguém se mostra muito disposto a mexer com esse pessoal da classe alta. Principalmente quando se chega ao poder e com ele começa a conviver.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/valdocruz/762301-que-pais-e-esse.shtml