quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Coisas que escrevi enquanto te esperava chegar

Quero, ao menos um dia, encontrar vocábulos, palavras ou expressões qualqueres para demonstrar sem mentir o que significa para mim um dia sem teu corpinho.
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Fico quase irreconhecível te esperando chegar. Nada ocupa minha mente se não a lembrança do teu rosto fofo na minha porta. Teu semblante me diz "Eu te amo", mesmo sem querer.
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Tento, todas as noites, respeitar teu sono. Mas você é de uma beleza divina e tal instancia me faz te querer em todos os mínimos lapsos. A coisa mais linda e indefesa que fui capaz de notar em vida: teu sono.
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Hoje você não vai aparecer. Te vi pela manhã e teus olhos estavam mais verdes e teus cabelos mais loiros. Os momentos em que mais gosto de te ver são pela manhã e pela noite, pois ficas cheio de vulnerabilidade e dengo.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

A flor e a náusea - Drummond


Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Não consigo suportar meus pesadelos

Queria saber de onde vem uma angústia fria que recorre sem parar e jamais se cansa de espremer meu peito numa caixa torácica ridícula, frágil e useless. Não sei qual é a proveniência de tal sentimento nefasto, mas acredito que me falte liberdade. Ou coragem. Costumo dizer que pessoas corajosas são genuinamente livres, pois elas não temem. O que mais me aprisiona é o medo do fracasso. Me cobro enquanto todos repousam angelicais. Me cobro por não ter coragem de me desgarrar do mundo e partir, finalmente. Para onde? Não sei, sou livre de objetivos, apenas. Alguns objetivos mentirosos criei para ser sociável, pois ouvi dizer que o ser humano só existe por que convive socialmente. SO-CI-AL-MEN-TE: está aí uma palavra que me causa asco em turbilhões. Não gosto de regras, pois prefiro o amor e respeito grudados. Não gosto daqui e não gosto de lugar nenhum, pois não conheço o mundo por inteiro. Quero ser pertencente. Quero uma máquina de grana e um sublime contentamento com a realidade. (livre de anti depressivos) Queria humilde e simplesmente fazer somente aquilo que me alegra. De fato.

16/10/12 - Não consigo suportar meus sonhos

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Andar com teus pés eu irei até quando for possível.

            Em questão de dias atrás, chuvas que não chegavam em junho, sóis que derramavam desafeto em julho, amores oceânicos em agosto, plenitude eterna desde setembro. Em questão de dias atrás, meses passados rapidamente, horas arrastadas e minutos calculados com sangue de quem sente saudade. Em questão de dias atrás deparei-me com uma brusca mudança de vida. Senti cada célula derreter-se a partir de algo que me faz sentir um parasita que não se cansa de sugar os mais nobres fluídos do corpo mais amável e sublime com o qual já me deparei em sã consciência. Já havia sonhado com muitos corpos, porém, só fui capaz de tocar um deles. O corpo que decidi, certeira, cativa, de uma vez: será meu para sempre. Será nosso, será fruto, será espinho, dor, amor, constância e inconstância. Sinto que sou diabo indigno de olhar teus olhos de bolinha de gude. Sinto que sou um diabo indigno ao sentir o cheiro da tua pele, ao beijar a superfície dela, ao enlaçar minhas pernas nas tuas, ao lamber teus dedos, ao exigir, sem vergonha, “Casa comigo!” Sou vítima desse cruel mundo que nos contorce entre tantas dores, mas, inacreditavelmente, dentro do limbo pelo qual me sinto cercada (e com o qual me identifico, humanidade demais, desejos demais, ganância, falta de fé) encontrei o que parecia ser impossível, pois eu julgava impossível. Hoje sei de que se tratam os escritos de Camões, a tristeza de Nietzsche, a impossível cura para a angústia predominante de Schopenhauer. Se você não me correspondesse, eu deteria de ser um desses diabos incompreendidos. Eu teria que me acostumar com a blasfêmia, com o pó e o fedor mundano. Andar com teus pés eu irei até quando for possível. Gostaria de ser assim, menos humana.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Víscera magoada

Não buscamos a mágoa. Ela ocorre como que num movimento de choque repentino e dolorido: sorrateiramente. Basta cerrar os olhos e dar um respiro atravessado. Basta.

Não existe dor maior do que magoar o ser amado.

Quando tal revés acontece, sentimo-nos como lagartos de patas amputadas, repudiáveis serpentes sem alma.

O amado é sereno.

O amado é bruto.

O amado é intocável.

Sacro.

sábado, 29 de setembro de 2012

Não

"Aqui está bom, senhor?", perguntava o ajudante, montador do palco ao ar livre na praça de cristais multicoloridos, no centro desta cidade maravilhosa, fincada profunda na rocha também cristalina destas montanhas superiores e sobreviventes. O músico, pensativo, olhava para a aglomeração ao redor distraído. Percebeu então que algum som falado o atingira e virou-se.
"Ah, sim... Obrigado."
Quando o ajudante saiu de perto, ajeitou a cadeira do modo como preferia.

Este músico era o maior artista de todos os tempos. Um homem além dos outros homens. Um ser da arte, de além da própria música, a primeira delas todas, e também por ele a mais adorada forma de expressão. Era pintor, escritor de romances, poesia, teatro, epopeias, escultor, filósofo. Paradigmático em todas as áreas. Nome fundamental de todos os cânones.
Sua maior obra musical era o instrumento sem nome. Preferiu não nomeá-lo, mas as razões eram desconhecidas e muitos palpites tocavam diferentes porquês, o que aumentava mais ainda a popularidade da peça musical e que, talvez, fosse mesmo o objetivo da ausência de um nome. Quem entenderia as nomenclaturas de tal artista?
Tendo sido a essência de seu funcionamento buscada nas profundezas arqueológicas das alquimias aborígenes, era dito que - era assim chamado popularmente - O Instrumento fazia soar o timbre da própria alma humana, como se o espírito é que se tocasse e, de sua própria matéria desconhecida, reproduzisse-se a música do espírito daquele que o tocasse.
Segundo o artista e inventor, cada alma tinha seu timbre particular e único, e aqui, mais uma vez, encontrava-se a diferenciação pelo dom: a alma do inventor d'O Instrumento era a mais bela de se ouvir. Muitos experimentaram tocar a nova peça. Pessoas famosas tinham os sons de suas almas gravadas, presidentes, cientistas, grandes comerciantes, famosos viajantes, operários, bebês e idosos decepcionavam ou impressionavam o vulgo com suas melodias e harmonias intrínsecas. Porém, acima de todos, sempre inigualável, o artista provocava arrepios, calafrios, desmaios, alucinações, hipnoses, ataques de alegria e de pânico nos ouvintes do seu âmago. Um deus da música.

Hoje ele preocupava-se. Havia sido deixado.
Sentou-se na cadeira ao centro da praça. O tempo passava devagar. Os ouvintes aproximavam-se e cercavam o local, enquanto ele pensava que, ora, para um artista seria sempre fácil encontrar conforto efêmero num colo macio; mas, como está pensado, efêmero... E para aquele que perde o que era seu, por natureza, o que sobra? Para onde aquele seu colo macio preferido, dentro de toda a espécie, de toda a vida o conforto supremo, iria agora?
Aquilo que, pensava ele, era sua metade de alma, perdida, o abandonara e ele não conseguia pensar no que iria acontecer a ele. Iria morrer? Iria definhar aos poucos? Estaria melhor amanhã?
Ah, se todos ali soubessem do amor deste pobre ser, ele pensava.

Mas todos julgavam saber. Só havia ali convidados, dos mais importantes. Excelências. Os leitores assíduos e os estudiosos descabelados de todas as obras. Senhores e senhoras das mais altas classes e das mais tradicionais famílias, com até seus escravos excelentemente vestidos. Uma massa de vestidos longos, brilhantes, trajes de gala e fitas multicoloridas - como os cristais do chão - preenchia a cidade e cercava o palco. Aquela multidão vinha para vê-lo na sua apresentação mais esperada, a mais sonhada por todos e por ele próprio. Um concerto no topo do mundo.

Foi dado início. Uma pronunciação de alguma autoridade local e, logo depois, um ajudante trouxe O Instrumento cautelosamente até o artista. A marcha deste cúmplice com o Sem Nome nos ombros fazia parte da performance. Criava uma tensão. Uma espécie de prólogo do concerto, no qual todos pensavam que então era aquilo o famoso instrumento anônimo. O artista, que teve seus pensamentos interrompidos pelo pronunciamento e pelo começo do concerto, agiu mecanicamente e, pegando sua criação nas mãos, manteve-se sentado e posicionou-se, com o olhar baixo e muita calma.
O sol brilhava estaticamente no centro do céu e seus raios eram decompostos pelos cristais, espalhados por todos os lados da cidade e daquela praça. Uma leve brisa fez os longos cabelos do artista balançarem suavemente e ele posicionou as mãos n'O Instrumento, pronto para dar início a mais um evento marcante, a mais um divisor de águas da história de qualquer tipo de arte, diante de todos aqueles homens e mulheres que esperavam por algo diferenciado, sempre. Respirou fundo.
De repente, uma lágrima escorreu pelo seu rosto e ele, desmontando tudo, disse: "Não há o que soar, não há o que tocar."

H.G.S.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Oceano, parte I


            Eu fazia desenhos antes de escrever contos. Colecionava tintas, pincéis, lápises coloridos, canetas de ponta grossa, fina, mediana, borrachas, papéis fluorescentes, origamis, telas de tecido, tecidos, gizes de cera. Eu colecionava imagens e aí, num pulo separatório entre inocência e pederastia, li Paulo Coelho, 11 minutos, a história da prostituta Maria. Li 11 minutos aos 11 anos de idade. Descobri o que era prostituição e o que era masturbação, pois num dado momento o famigerado autor diz que Maria encontrou a “bolinha” que ocupava o meio de suas pernas e tocou-a. Subiu aos céus e foi descendo devagar, uma pena branca. Pomba. Aí comecei a inventar histórias e buscar outros livros que me ensinassem coisas gostosas como a masturbação – infelizmente só encontrei Bukowski aos 19 anos de idade. Antes disso, li Machado de Assis, Nietzsche e me apaixonei por uma mulher chamada Florbela Espanca. Eu me sentia estranha, pois me apaixonara meses antes pela minha professora de literatura que nunca usava batom vermelho, mas que usou num dia e me fez ficar embalsamada, embasbacada pela beleza que ela era capaz de ter. E aí me mostrou as letras de Florbela. Me quedei extasiada e presa a um mundo chamado literatura.

            Não teria como ser diferente. O sonho de meu pai era que eu fosse advogada, ou médica, ou psicóloga. Mas nunca poeta. Não que ele não fosse um amante das artes, mas foi um homem de vida sofrida e queria que eu tivesse uma profissão onde eu adquirisse status para que nunca fosse tratada como uma massa, um lixo, um chorume que escorrega diariamente pelas mãos do capital.

            Se estava certo eu não sei, só o que sei é que ele me deixou vir de Catanduva para São Paulo estudar jornalismo.

            Jornalismo é uma ova. Eu queria escrever e continuar pintando quadros, mas isso era um lamaçal tenebroso perante os ares do interior. Perdi a virgindade aqui. Virei usuária definitiva de maconha aqui. Conheci Bukowski aqui. Conheci o amor da minha vida. Os melhores amigos. Os lugares mais mágicos. As tristezas mais dilacerantes. As saudades mais pífias. Os textos mais completos. Bolhas nos pés. Dores na coluna. Orgasmos múltiplos. Tulipa Ruiz. Estação Sé.

            Não teria como ser diferente. Eu acabaria na cama de um músico com tatuagens nos dedos. E nos braços. Na perna. Nos ombros. Eu acabaria no quarto de um cara. Um livro autobiográfico sem pretensão. Uns olhos enormes. Um bigode fino e elegante. Eu estaria ali de qualquer forma, chapada de maconha, com o cérebro fervilhando, olhando para o homem deitado em meus peitos doloridos, pensando na vida – em dar aulas de redação e literatura para o pessoal vestibulando das Perdizes, em produzir os shows da banda dele, em virar garçonete aos fins de semana, em me suicidar. A falta de dinheiro faz com que as pessoas transbordem. As notas de papel estampadas com bichos me deixam maluca, parece que não posso nem respirar se não estiver com a carteira lotada. Eu pensava e, repentinamente, surge um gato. Dois gatos. Luma e Bartholomeu. Invadem a minha atenção e fazem meu namorado levantar-se da cama: gatinhos são apaixonantes. Eu digo:

            – Sabia que meu irmão quase morreu por causa de gatos?

           – Não. Por que?

           – Por que minha avó morava em Itajobi. E ela tinha, sei lá, uns 10 gatos na casa dela.

            Ele escutava atento enquanto olhava os gatos petrificado.

          – E aí, um dia, meus pais resolveram visitar um amigo deles que também morava em Itajobi. E eles deixaram eu e meu irmão com a minha avó, só que eles não sabiam que o muleque tinha alergia a gatos... Ele foi ficando roxo, sem ar. Minha avó ficou desesperada, ligou para eles e foram até o hospital.

            – Caralho...

         – Aí todo mundo descobriu que ele tinha alergia. Ele é meio sequelado até hoje por isso... Vive doente.

           Os gatos saíram e ele me puxou para que eu me deitasse novamente. Encostou sua cabeça em meu ombro e bastou um minuto de cafunés amorosos para que ele adormecesse em posição fetal. Meu namorado era um bebê fofinho. Eu o amava como nunca amara nada na vida. Comecei a pensar denovo. Quero ser artista. Quero fotografar as camisas dele e fazer uma exposição sobre grafismos. Aí eu posso fotografar as bicicletas estacionadas na rua. As guitarras emparelhadas nos estúdios de gravação. Meus livros empilhados. Quero ser artista. Dói saber que não serei feliz através de nada que não seja a arte de fato. A vida é indecente. Ela dói.

            “Eu estou me esforçando na mina pesquisa. Juro que tenho passado o dia todo... pesquisando!”

         Quero dar aulas de política. De mídia e política. Mas também quero ser artista. Eu quero ser imensidão. Antes de tudo quero escrever livros. Quero publicar este texto. Gostaria que alguem lesse e me achasse genia (como eu acho todos os autores incríveis e maravilhosos que leio).

domingo, 16 de setembro de 2012

Fragmento

"(...)
You ask for the impossible. You ask for the ruddy impossible. So if you love this girl as much as you say you do, you had better love her very hard and make up in intensity what the relation will lack in duration and in continuity. Do you hear that? In the old days people devoted a lifetime to it. And now when you have found it if you get two nights you wonder where all the luck came from. Two nights. Two nights to love, honor and cherish. For better and for worse. In sickness and in death. No that wasn't it. In sickness and in health. Till death do us part. In two nights. Much more than likely. Much more than likely and now lay off that sort of thinking. You can stop that now. That's not good for you. Do nothing that's not good for you. Sure that's it.
(...)"

Ernest Hemingway, For Whom the Bell Tolls, chapter thirteen, p. 168


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Suicide's Note

Langston Hughes

The calm,
Cool face of the river
Asked me for a kiss.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Paranóia


A nóia me faz querer parar.  

Não sou contente com o espaço delimitado pela minha pele perante meu conjunto de células e hormônios e vísceras e pelos denominado corpo. Preciso de expansão, mas ela não existe.

A cada tragada a realidade vem brusca, em dilacerante doses cavalares de um excesso que não compreendo há tempos. Antes, o real do mundo vinha ameno. Agora, é tão miserando que mal posso suportar meus devaneios que pulsam altos num cérebro parcialmente derretido e desprovido de memória.

A nóia me faz querer parar, pois as pessoas que amo sentem-se odiadas por mim. Por que pensam que sou ríspida e fria. Por que não existe constância aqui: a única constante é a angústia. Medard Boss tenta me explicar, mas eu me aborreço. Um emprego de 1.500 paus, férias na Argentina, bolsa de couro de jacaré. Não me importa. O que me importa é a liberdade (que ainda é pequena diante da imensidão que procuro no universo e nas almas habitantes dessa enorme rocha).

Paranóia não cabe aqui. Preciso comer e vestir. Me proteger do frio. Paranóia causa a morte em vida, me faz um corpo andante sem voz. Paranóia existe nas vozes alheias que não acrescentam. Paranóia existe entre os dedos que andam sozinhos. Paranóia em todo lugar.

A nóia me faz querer parar. O que há de ser maravilhoso, há de ser real.

A nóia me faz querer parar.



(Buk sopra ao meu ouvido: NÃO SOBRA NADA PARA MORRER)

sábado, 11 de agosto de 2012

Manifesto da vagina

Depois de anos pensando 
se não seria muito ousado,
decido, do alto dos meus vinte anos, 
que devo tirar a calcinha.

Nervosa e discreta
Cometo o polêmico
E retiro aquele pequeno 
pedaço de pano.

Depois,
pego minha bike
e pedalo pecadora.

De vestido,
Sorrio do vento em polpa
que brinca leve pelas saias
De minha coxa.

However não se engane:
Que esse poema
não é erótico
Antes,
é a libertação do sexo, do meu sexo, particularmente preso
desde o berço.

Meu sexo, que já passou
Por talco e fralda
Calcinha e tanga
Maio de natação
biquíni de verão
tecidos e mais tecidos
sempre cobrindo
sempre tapando
e nunca mostrando
o que de mais belo tem
a mulher.

Agora chega.
Pelo menos uma vez na vida
o sexo
deve ser livre.

Sem calcinha
Sinto o mundo todo
entrando dentro de mim
Como se, de repente, tivesse eu
engolido a vida
pela boca da minha coxa

Sem calcinha
fico mais atenta
ás pequenas, sempre lindas,
sensações do corpo
Desafio
os caretas de recalque
a rotina da cidade
e faço guerra
no silêncio dos meus pelos púbicos

(que agora também são públicos
e talvez até mais puros.)

Me sinto fêmea
como a morte
Forte
como a vida.

Sem calcinha,
sinto
Sinto e sinto muito
por todas as mulheres que ainda
não tiveram seu dia de glória.

Por isso é que vos digo:
Mulheres, uni-vos!
Livre teu sexo!
Tire a calcinha!
que isso, meus caros, é putaria uma ova:
Isso aqui
é uma revolução

por Aline Vianna

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Andança


Cardoso de Almeida
Avenida Doutor Arnaldo
Avenida Paulista
Brigadeiro Luís Antônio

Desço a Teodoro 
Seguro nos amarelos dos ônibus
Fecho os olhos para me lembrar do teu rosto:

Suspiro...

No busão lotado,
A pé,
No metrô:

Vivo sonhando...

*

Basta lembrar e isso acontece:
me apaixono por você denovo.

Me lembro e sinto os músculos contraídos
É de se transbordar...

*

Um dia
Sem você
Não vale

NADA.

domingo, 29 de julho de 2012

Elegiazinha

Nelson Ascher

Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
— se somem — é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

sábado, 21 de julho de 2012

LA PE JU



      Não entendi o que o fez pensar que eu estaria disposta ao flete. Desde que eu havia chegado naquele lugar, um calabouço escuro da Frei Caneca, fiquei sentada de pernas cruzadas fazendo nada menos que gestos oscilantes entre o movimento de sorver um ou dois goles de água. Água. Se ele fosse um pouco menos idiota, perceberia que eu estava bebendo água e que, uma pessoa que não ingere álcool, num sábado a noite, num bar cujo nome tem pronuncia francesa, porém escrita brasileira, cercada por velhos, moços, moças, cheiradores, anarquistas, nerds punheteiros e toda a gama de pessoas capazes de frequentar a Frei Caneca num sábado de madrugada... bem, eu não estava disposta a flertar. Se ele fosse um pouco menos babaca, perceberia que passei a noite grudada com o meu smart phone preto, trocando mensagens com “sei lá quem”. Obvio que era com um homem. Obviamente eu estava apaixonada. Que mulher idiota ficaria trocando mensagens com as amigas num momento daqueles? Bebendo água e balançando os pezinhos calçados com um sapatinho de sapatão? Ainda assim, ele não percebeu que eu estava de suéter, cachecol, cabelo preso e completamente apaixonada. Ainda assim ele conseguiu ser um otário, me olhando a noite toda e esperando o errado momento certo de, feito um viking fedorento, enfiar a mão nos meus cabelos.

      Filho da puta. Teve coragem de entremear aqueles dedos imundos de cachaça nos meus cabelos presos. Tudo bem, mesmo que amarrados os meus cabelos ainda aparentavam ser uma grande juba, deve ser convidativo de fato... mas isso não significa que qualquer estranho possa se apoderar deles. Era o que de mais sagrado havia no corpo: eram cabelos do Robert Plant e isso não fui eu quem disse. Colocou as mãos no meu cabelo e saiu sem dizer nenhuma palavra. Era tão idiota e babaca que esperou minhas companheiras saírem de perto para se aproximar de mim. Tudo bem, foi rápido. Fiquei quieta como se não tivesse notado tal audácia. Subi ao banheiro, mijei em pé, senti o mijo escorrer nas minhas pernas, me limpei, lavei as mãos e o rosto e saí. Tinha um brechó ali. Entrei. Perguntei os preços, cheirei as roupas... não gastaria dinheiro com aquilo. Porra, eu estava num bar do centro da cidade, tudo o que não me faltava era fazer compras naquele lugar. Sim, eu era ridícula. Mas nem tanto.

      Desci as escadas pensando apreensiva que poderíamos ir embora. Já passava das 03:00 e eu estava exausta daquele lugar. As pessoas – inclusive minhas três amigas – bebiam a porra de um drink que chamava Tesão. Quisera eu ter ânimo e disponibilidade para beber aquela merda que cheirava a licor barato. Aquilo era gorfo engarrafado, um nojeira sem tamanho. [paro aqui de falar mal da bebida, pois se estivesse de coração vazio, teria bebido dez doses daquela e agarrado o otário logo que ele me olhou pela primeira vez] Quisera eu ter ânimo para um flerte naquela noite. Ânimo ou, sei lá, menos humanidade. A merda estava feita: já era uma mulher apaixonada e não sabia. Não largava a droga do celular pretinho, touchscreen, um deplorável aparelho que eu costumava deixar jogado meses atrás. Agora eu não o soltava, fazia questão de te-lo por perto por que queria saber a todo momento como andava o meu, até então, “relacionamento”.

      Sentei de pernas cruzadas novamente e dessa vez pedi uma soda. “Soda. Isso, SODA! Com limão espremido no copo. Muito limão! Ah, e sem gelo!” Foda-se o “sem gelo”: a porra da soda veio com limão fatiado e muito gelo. Foda-se, bebi mesmo assim. Enrolei mais um tabaco e resolvi que era hora de enfrentar o frio cortante do centro de São Paulo, onde tudo cheirava a cocaína e metenlança sem camisinha. Saí. Dei dois tragos e senti vontade de sumir daquele lugar: havia um casal de emos (sim, os emos, aqueles de lápis no olho e tênis quadriculado) jogados na calçada, chorando. Acho que estavam sem dinheiro pro táxi. Cheiradassos. Pensei comigo “Foda-se, tem mais é que se fuder essa juventude de bosta” e, cansada daquela cena, entrei na caverna. Ou, pelo menos, tentei. Senti uma mão pesada me segurando forte pelo braço. Olhei para trás e era o segurança. “Que porra é essa?”, perguntei puta, louca da buceta. “Preciso do seu RG, mocinha”, ele respondeu com aquela cara de pastel amanhecido e eu repliquei “Eu já estava aqui dentro. Solta o meu braço, caralho!” e ele, com jeito de cachorro cagado, disse “Andreza?”, “Sim, meu!”. Me deixou entrar, desculpando-se sem querer e dizendo que reconheceu meu rosto pela foto do meu RG que ele pegara um tempo antes, enquanto eu cometia o imenso crime de entrar naquele lugar.

      Não sei o que eu escrevia para ele naquela hora, mas era algo do tipo “Quero ir embora, me salve!”, pois eu não via a hora de chegar em casa, tomar um banho e espera-lo chegar. Eu estava na época do amor, o estrago havia me cansado e tudo que eu queria era um ombro forte para deitar minha cabeça e me fingir de garotinha frágil. Eu estava amando e não sabia. E, enquanto amava, aquele negro otário se aproximava de mim sem que eu percebesse. Colocou a mão no meu cabelo denovo. Levantei os olhos na esperança de que fosse Helena ou Raquel. Não era. Era ele, com sua camiseta azul e a cara de otário que não seria capaz de modificar nem com uma cirurgia de reconstrução facial muito bem elaborada pelo Ivo Pitanguy. “Tira a mão de mim”, falei, sem gritos e sem grosseria. Apenas falei. Ele tirou e, rapidamente, prostrou a porra da mão nos meus cabelos denovo. “Tira a mão de mim”, eu disse, empurrando o braço dele pra longe. “Seu cabelo é bonito. Você é muito bonita”, “Ok”, respondi brava e cheia de raiva. Estava sem paciência, oras. Esse cara tinha que aparecer bem na hora que eu dizia boa noite para o meu futuro marido? “Pombas! Que merda!”, pensei. Ele deu meia volta e apareceu denovo ameaçando um grito violento “Você é muito chata, moça!”, e eu, sem a mínima vontade de argumentar com um verme bêbado, olhei e voltei a degustar minha soda aguada. “Você é muito chata!”, disse mais uma vez, só que dessa vez num tom mais baixo. Respondi, de cabeça baixa e fuçando a bolsa “Foda-se! Vá a merda, cara!”. Ele saiu.

      A situação não poderia estar pior. Eu estava num lugar escuro, cercada por bêbados, totalmente sóbria, sendo xavecada por um imbecil e amando a distância. Minhas preces foram ouvidas e, as 05:13 da manhã, minhas amigas resolveram partir. Bingo! Agora eu poderia ir pra casa me esquentar e esperar meu amor com as calcinhas infartadas.


      Subimos as escadas tenebrosas, pagamos a conta e, saindo do calabouço, sinto algo me puxar pelo braço denovo. Era ele, o negro imbecil. Bonito, porém, imbecil. “Você é tão chata que até parece a minha professora do primário!!!”. Olhei para ele com um semblante pesado, de quem só queria que ele tomasse [no cu] um tiro na testa para que dormisse feliz naquele resto de noite. Não disse nada, só levantei as sobrancelhas como quem diz “Pena...” Não contente, ele gritou denovo “Certeza que você é petista e curtiu a aliança do fulano com o Lula!!!” Depois disso, não tive sequer a coragem de olha-lo. Desci os dois últimos degraus e encolhi os ombros para me proteger do frio.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um boa bunda



Se quiser chamar de amor, chame. Ora, pois chame do que sentir vontade, Julia... chame de amor, minha Julia... chame de loucura toda essa loucura que me toma conta quando eu penso em você... Ah... mas não me deixe aqui esperando o teu sorriso bonito que vem desse belo par de beiços cor de laranja... Ai, minha Julia, não me deixe sentar aqui em vão... Esse banco, Julinha, não conforta minha bunda esquerda e amassa a direita. Mas, o que eu não faria para te esperar sair desse ônibus... O que eu não faço por você, minha menina... Julia, Julia...

E até parece que esse relógio está quebrado. Por que o tempo está se arrastando pelo chão onde pisa esse mundo de gente desesperada. Bate salto, bate bota, bate bola.... Essas tais horas se quedam trôpegas pelos meios dessas catracas, pelas cadeiras onde as bundas sujas sentaram, por guichês onde velhas e moças passaram. Julinha, por que o ônibus de Juazeiro não aparece de uma vez? Já passou Belo Horizonte, Mariana, Itabira... Juazeiro não aparecenunca. Meu Deus! Esse tal de Juazeiro... quase que perco a fé nessas horas! Meu estômago deve estar despedaçado a essa altura. Sorte minha não ter me dado uma caganeira brava bem agora. Imagina encontrar a Julia com a bunda tão suja quanto as bundas das pessoas que sentam nas cadeiras dessa lanchonete?

Se tem um lugar que eu detesto, vou dizer: é a rodoviária. Lugarzinho para ter gente feia, sem dente... Impressionante como todo mundo nesse lugar é feio e quer saber de viajar, visitar família... até velho anda de ônibus como se fosse rapaz. Pensa se um deles cai na hora de subir na plataforma pro ônibus? As escadas são muito grandes, é o maior perigo isso acontecer...

Talvez a única pessoa bonita dessa rodoviária fedida seja a minha Julia. A minha Julia e a moça dessa lanchonete.

(Me vendeu por três real uma coxinha tão gostosa quanto a buzanfa dela)

Mas espero que a minha noiva apareça com aquele vestido de rosa que minha mãe deu pra ela no natal passado. Fica demais gostosa ainda com aquele vestido... na verdade, ela fica gostosa é de qualquer jeito. Mas, aquele vestido... deixa a bunda dela empinadinha. Ai, Julinha... que saudade que eu tenho de você, minha princesa. E esse ônibus arruaceiro não aparece! Infeliz seja o motorista que estiver te guiando. Minha vontade é de dar um morro na cara de velho imundo dele por me deixar assim, feito um cachorro frioriento.

- Juazeiro! Julia! Julia! Juaziero!

(que bunda boa...)

terça-feira, 17 de julho de 2012

Sobretudo, gosto de você



Sou do tipo esquisito. Não consigo me classificar e isso corrói minhas entranhas. Fico triste, pensando em como as pessoas me vêem ou em como eu me comporto: será que correspondo a tudo que penso? Não sei dizer, jamais soube. Hoje a única coisa que busco é serenidade. Gosto de rock n roll, de cinema, de literatura, de comida boa, teatro, artes plásticas e editoriais de moda. Mas descobri que gosto de uma coisa sobre todas as coisas.

Gosto de você.

Não sabia disso. A primeira pessoa por quem me apaixonei foi pelo Nino, do Castelo Rá-tim-bum. Achava que ele me via pela tela e, por isso, me ajeitava bonita quando começava o programa. Depois disso, me apaixonei por alguns garotos e namorei três deles (mas nenhum por mais de dois meses). No primeiro colegial, me apaixonei pela professora de literatura. Gostava quando ela ia de cabelo solto pra escola. Tinha dias que ela usava batom. Aí eu ficava maluca, condenada a olha-la profundamente e suspirar constante. Fazia perguntas só para que ela visse que eu existia no fundo da sala onde o ar condicionado congelava corações imaturos. No primeiro ano da faculdade, me apaixonei pelo meu melhor amigo. Mas era tão infantil quanto meus namoradinhos de quatorze anos. Faltou pouco para que cuspíssemos na cara um do outro...

Hoje eu resolvi me apaixonar por você.

Apaixonar não: estou amando. Descobri a diferença entre estar apaixonado e estar amando sinceramente alguem. Minha cabeça está no lugar, pois com você imagino uma vida. Tenho medo de te desrespeitar. Tenho medo de te chatear.

Sobretudo, tenho medo de te perder.

Mas não é aquele medo apaixonado, de que vou ficar sem ar ou emagrecer por isso – trata-se de um medo sóbrio. Se eu te perder, serei nada menos que nada. Absolutamente. Se eu te perder, será pesado. Será triste. Ficarei em silêncio. Não te blasfemarei. Por que estou sóbria. Estou com vontade de me juntar a você e construir uma casa no meio do mato, pra gente fugir quando São Paulo estiver muito cinza.

Não sinto a necessidade brutal de te provar algo. Apenas sinto que preciso viver ao teu lado e fincar minhas unhas nos teus ombros quando a chuva começar a cair. Me sinto sóbria. Me sinto segura.  Por que você me observa. Você fica intrigado e eu acho graça. Acho graça enquanto você fica parado, olhando, quieto. Penso “O que diabos esse cara tá imaginando a meu respeito?” e sei que são coisas boas. Macias. Você precisa confiar em mim, pois já me entreguei quando pensei que isso fosse impossível.

Não sinto ciúmes. Não sinto... você não me provoca isso. Depois de você, aprendi que sou adulta. Aprendi que adultos acordam cedo e são responsáveis. Mas só fazem aquilo que querem: não somos máquinas. Ainda bem que você me fez pensar assim. Mundo de merda esse, não? Mas, meu amor, não cairemos nesse abismo. Acordaremos cedo sim, mas pra dormir vamos escutar Led Zeppelin.

Se você não tivesse aparecido, eu teria que me conformar em ser incompleta. Como se me faltasse um braço. Ou como se eu tivesse cabelos lisos e olhos negros.

Não seria eu. 

sábado, 14 de julho de 2012

Como tomar um ônibus

O velho Key esperando o ônibus. Magrelão, óculos quadrados, maletinha em mãos, calça social escura, sapato de ponta quadrada, camisa azul escuro sem estampa. Velho Key faz questão: se os jovens usam camisa xadrez, ele usa camisa sem estampa. Deus o livre de parecer um pouco com essa juventude.
Camisa por fora da calça.

O velho Key pensando. Domingo. Bom mesmo pra dar uma volta pela cidade, sair de casa. Precisava de um pouco de excitação. Velho Key aposentou há pouco tempo e se sente muito entediado sem ter um trabalho. Coitado de quem pensa que em ônibus não tem excitação. Hoje é domingo, não é dia de procurar um trabalho que o tire do marasmo, hoje é dia de passear - dar um rolê, diriam os jovens, rerere, acha que pode? - e dar uma espiada nas moças. Não que o velho Key ali seja um pervertido. A beleza feminina, como todos sabem, é fonte de inspiração e indiscutivelmente a maior das artes da raça humana. Não é porque a pipa do vovô não sobe mais que ele perde o direito à admiração. Devia, aliás, haver uma fila preferencial pros velhinhos. Deixa o vovô ver a mocinha e desmaiar logo. Rererê.

O velho Key esperando. O velho Key já está no ponto há uns trinta minutos e nada de ônibus. Acha isso um absurdo, mas fica quieto, não fica resmungando e praguejando. Não gosta de ser igual àqueles outros velhos que puxam papo com qualquer um no ponto de ônibus, na farmácia, em qualquer lugar. Estão com pressa pra conhecer a humanidade inteira antes de morrer, pensou o velho Key - rerere - essa devia ir pra algum caderno de anotações. O velho Key não gosta de ficar fazendo escândalo. Não gosta de reclamar muito, já passou a vida toda reclamando e o mundo nunca mudou por ele. Ninguém nunca mudou pra ele. Então deixa estar. A vida é assim mesmo. O mundo desce o cacete na gente, fuzila nossa vida, e o máximo que a gente pode fazer, de vez em quando, é dar uns tiros pro alto. Pra desestressar.

Até que enfim, o ônibus apareceu na distância. Ah - o velho Key gosta de passear - dar um rolê, rereré. Havia mais gente no ponto e o velho Key, todo paciência, deixou todo mundo entrar primeiro. Depois, subiu os dois degraus da entrada, pagou os R$1,10 da passagem ao cobrador, suspendeu a maletinha por cima da catraca, passou e sentou no assento preferencial. O motorista engatou segunda e o velho Key, abrindo a maletinha, lembrou das primeiras aulas de tiro ministradas a ele pelo próprio pai, sabe-se lá quantas eras antes dessa. O velho Key estava velho, aposentado.

Mas ainda dava pro gasto. Havia uma loira absurdamente gostosa sentada perto do velho Key, num assento preferencial. Não era o lugar dela. Devia ter uns 20 anos, pensou o velho Key, mas podia sentar ali, uma loira daquela poderia o que quisesse - podia até sentar no meu colo, rereré. Deveria ter usado uma gravata hoje. O velho Key levantando com o revólver em mãos, dando tiros pro alto: TODO MUNDO QUIETINHO E PASSANDO TUDO, CARALHO!!!


H.G.S.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

[tentativa de]

"Haikai" do devaneio: 

Te olho ensimesmado
um golpe baixo 
e meu nome poderia ser

"Teu"

sexta-feira, 1 de junho de 2012

"é o que fez a liberdade,

acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos."


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valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Ligia


       Ela tinha braços cambaleantes e rodava ressabiada pela sala. Meus braços, que não eram nada além de braços peludos, faziam-se cipós, armas enormes para que eu carregasse meu amor pela cintura. Eu nadava minha palma da mão na infinidade do colo dela, pinçando e pintando o que havia de mais encantador no universo; não queria saber se existia astro no céu, me fazia feliz num teto onde cortininhas alaranjadas deixavam aquela casa quente cheirando a lar de mulher bonita e andante. Meus dedos perdidos entremeavam-se no negror da juba de Ligia, em movimentos de uma volúpia inegável e descaradamente apaixonada. Eu me cegava por ela e fazia questão de assumir minha condição de homem amarrado – Ligia devia fazer trabalhos na Mãe de Santo da rua de cima para me quedar assim, estilhaçado no asfalto, mexendo os dedos para chamar a atenção para a falta de humanidade desse suposto amor.

      Era uma languidez incansável que fazia meus dias mornos, tentando beijar uma boca inóspita e cheia de palavras inteiras por dizer. Ligia dizia muito mais do que era necessário para abalar o meu esturpor estrelar decorrente da convivência dela. Não se bastava de nada, era uma miserável sem tamanhos.

“Como eu odeio esse café”
“Não é tão interessante assim, Roberto”
“Faz pra mim? Por que ninguém me ajuda?”

      Chata.

      Não se acomodava num pensamento, pois quanto mais fosse e viesse – como que num caminho eterno de ondas balouçantes – sempre acharia que as pessoas são bobas demais e que os relevos do mundo estão povoados por seres humanos absolutamente descartáveis. Pensava que já não liam Coetzee como deveriam, ou que Charlie Parker era aclamado por gente que não se importava em beber uísque com Coca-Cola. Não enxergava qualquer sentido e sentia-se comprimida numa caixa de sapatos escura, sem nenhum buraco ínfimo pelo qual pudesse se dar a gloria de respirar.

      A cabeça sem fundo na lua, um momento criativo incapaz. Não dançava mais como nos seus dezoito anos e não sentia necessidades fisiológicas que antes eram imprescindíveis, pois vagava por seus crepúsculos diários pensando no quão triste e sinuosa poderia ser aquela vida que ela contornava desde que enxergara a primeira luz na face da Terra. A alegria não era uma constante: oscilava conforme seu humor a cada vez que pensava que as atitudes que realizava diariamente eram coisas pré destinadas, sem indumentária nenhuma que transformasse respectivos atos em alguma monumento que embelezasse a paisagem imunda que submergia, incessante, todas as noites e dias.

      Dava goles gigantescos em cafés no centro da cidade, ao lado de velhos obesos que não pensavam nas questões abstratas da existência.

      Casualmente, a casualidade.

      Não gostava de fumar, mas ao ver aquele conglomerado de células gordas, sentiu-se no dever de procurar algo que lhe rendesse algum prazer. Tragava e tossia, pensando que até a pior das drogas inventadas pelo homem rejeitavam seu corpo. Os caralhos que encontrava no trabalho – ora nas noites em que passava sozinha tomando chá – não serviam de nada além de deixá-la com a vulva ardida, em chamas. Não queria mais olhar sua boceta e desejava arrancá-la do corpo por que sentia um determinado asco inexplicável. Nadava profunda na merda em que havia escolhido cambalear. Olhava para seus amigos e sentia repulsa, pois eram todos maquinas de chatear pessoas preocupadas e demasiadamente ofegantes.

•   •   •

      Não suportava mais as mãos de Roberto enroladas na sua cintura como se fossem propriedade particular dele. Aquela cara de cão danado a levava a pensar que nada nesse mundo era justo, pois ele tinha cheiro de sexo e um pênis enorme que já não soava como grande vantagem. Nada tinha vantagem, era tudo delírio.

      Esperava acordar.


domingo, 20 de maio de 2012

Volver a los 17

(pelas coisas lindas que acalmam e emancipam)



Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella Diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Flácida


Preciso dizer que sou rebelde sem causa aparente.
Sofro por buscar demais o que é inominável.
Eu não tenho um nome.
Eu tenho a vida
e somente ela.
Não tenho bens,
nem saúde mental.

Mas tenho a vida

[ela é tudo que me resta]

É minha. Só minha.
Quem sabe dela sou eu.

Não me insulte
pelos meus cabelos jogados,
nem pelas unhas roídas,
nem pelo pé fedido
de chulé azedo.

Não me julgue:
sou ser humano,
sou flácida,
sou pálida.

OBRIGO, pois:

Quem enxerga as digitais dos meus dedos sou eu.

Dos meus pelos pubianos cuido eu.

Quero que saiam da minha volta,
mas preciso de abrigo absoluto.

O tempo todo, de qualquer forma que se abrigue.

Aqui
agora
pra já
pra sempre
sem limite
sem gente
sem teto, sem chão
de chinelo, ou no colchão:
quero abrigo.



OBRIGO!

Aceite de uma vez
As palavras que tenho para doar,
pois não quero ferir:
só quero dizer.