quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O vento lá fora arrastava a terra seca na manhã.
A casa vazia, mal cuidada, era escura por dentro. Ele recostou na janela e agora olhava para o deserto, bege, amarelo, fervendo no calor já antes da quarta parte do dia. Não havia nada lá fora além da luz quente e entorpecente do sol, e nada além desse outro inferno, de sombras e nostalgia, do lado de dentro.

A velha saiu das sombras de um canto e disse:
- Horrível, não? Como tudo fica assim sem ele aqui. Sabe, o Velho Capitão odiava este lugar, dizia que o deserto entra dentro das pessoas...
Silêncio. Ela completou:
- Apesar de termos vencido, não sei como continuar.

Era verdade. Como continuar? Depois de tanto tempo, tantas batalhas, as mortes, o acidente no vale, a doença da menina mais nova que acabou sendo deixada para trás, a viagem quase impossível no norte durante o inverno; a última e definitiva vitória não dava a alegria conclusiva que um dia fora sonhada. O que contava agora, o que pesava, era toda a vida (por que não usar essa palavra?) gasta na campanha sangrenta e desgraçada desses homens. Sentia-se mal por ter sido transformado pelas experiências.

E como se houvesse razão nas palavras defuntas do Capitão, sentiu-se seco e parte do deserto. Enfim, não seria possível, nem valeria a pena, voltar à vida de antes, percebeu, à felicidade de antes. Felicidade, porque tudo que está no passado, embaçado e enfeitado pela memória, parece mais feliz, mais próspero, e tudo que está no hoje parece decadente. Mas ele decidiu que não iria ficar mais um dia naquele forno inerte de saudade e filosofia. Havia mudado com tudo, e continuaria mudando até morrer.

Fez força com os pensamentos e tirou da alma aquela areia.
Tirou de dentro o deserto.
Foi embora da casa naquele dia, precisava viver qualquer coisa.
Continuaria mudando até morrer.



H.G.S.

domingo, 28 de agosto de 2011

sulcos

hoje o vento soprou sulcos no relevo
e eu não via você ao meu lado.

eu não via você ao meu lado.

eu não via você.

hoje eu tive fortes dores
e não sabia a quem dizer,
pois eu não via você.

não via você.

desde sempre você sumiu,
mas apenas hoje

eu não vi.

sábado, 27 de agosto de 2011

Texto sem revisão. Numa cagada. Eu sou louca.

Eu não sei se o rapaz da livraria sabia o que estava me vendendo. Também não sei se era pretensão minha achar que Hunter Thompson e Marx pudessem ser tão importantes assim... Bem, pretensão eu sei que não era: jamais serei capaz de negar a importância de Karl Marx, por que eu gosto dessa historia de comunismo. E anarquismo. E tudo que é contra. Até o gonzo do Hunter pra mim é contrario. E os olhos do rapaz da livraria não eram contrários, mas me eram estranhos. Dois olhos que eu nunca tinha visto me vendendo obras primas. Coisa de valos inestimável... Coisa de louco.
Esse moço estava me vendendo o gozo impresso e não sabia. Pelas mãos dele a minha alegria foi materializada. Matéria, materialismo, eu materialista. Já deixei de comer para ler. Já deixei de comer para alimentar os neurônios que me restam. Afinal, Amy morreu disso: cigarro, maconha e álcool. Não, ela não morreu assim, mas foi isso que me disseram ontem. Só para me assustar.

De qualquer forma eu não me assusto mais, apesar das suposições que afirmam que deve ser difícil ser eu. Eu não odeio nada, meu rei... Eu só odeio o sistema. Abomino a própria maquina que me faz ser capaz de guardar o manifesto comunista no sutiã. É culpa da bufunfa se hoje eu posso dormir com Engels me soprando ideias enquanto repouso tranquila com minha cabeça no travesseiro. Eu durmo e tenho sonhos intensos. Eu acordo e tenho sonhos intensos. Eu vivo por isso mesmo.

Será que o rapaz do caixa vive imerso na intensidade ou é um trabalhador alienado no meio do caos? Eu não sei... Eu não vi isso nos olhos dele... Eu sei que ele precisa comprar remédio, água e biscoito. Mas um livro igual ao meu eu não sei se ele compra.

Eu não conheço ninguém. Eu só divago.

Meus pés estão gelados.
Desculpa, vou calçar um sapato.

Meu livro novo escorregou do meu colo e uma mulher afobada me perguntou se eu vou pra São Roque. Não, eu vou pra Catanduva. "Catanduvas é frio né?" Não, moça. Catanduva - no singular - não é fria. Não respondi isso, logico. Mas pensei e disse a ela que é calor. E ela se sentiu confortável para conversar enquanto eu queria ler. Me perdoe a falta de humanidade, mas eu não troco essas letrinhas pela sua companhia. Sabe que ainda ontem, eu e meu amigo-irmão ficamos o dia todo encurralados na cama; lendo. Ele recitava pra mim e eu recitava pra ele. Encontrei uma coisa que eu gosto de fazer com ele alem de sexo: ler. Qualquer coisa mesmo, mas ler junto com ele.

Olha só, o ônibus chegou!
Tem um policial atras de mim, uma véia na minha frente e o motorista se chama Pedro, igual ao meu amigo. Aqui dentro tá quente. Lá fora eu estava tremendo, mas aqui dentro eu ameaço suar. Espero que liguem o ar condicionado rápido. Já estou em plena agonia. Por fora da janela os corpos tremem. Por dentro dela, eu fico suada. E me irrito.

Me lembro denovo de ter comprado dois livros. Pois é, os últimos trinta reais que ocupavam a minha carteira foram parar nas mãos do rapaz de olhar desconhecido. Depois no caixa. E depois - ou antes - no cofre da editora. Um livro de bolso que tem como tema o manifesto do partido comunista e custa onze reais. Tem exploração aí! Espera mais um minuto que eu vou comer.

Uma criança dá berros estrondosos ao meu lado. Estamos num ônibus fechado, sem escapatória e e essa cena me faz ter certeza de que filhos nao farão parte da minha biografia. Nem os fones de ouvido me poupam desse choco infernal. Criança maldita! Jorge Ben, me de uma mão?

"Cadê Tereza? Onde anda a minha Tereza?" Por onde ando eu? Sou Terê ou Andrê? Por onde ando eu, que tenho dois nomes, duas mãos e um corpo só? Segunda não vai ser fácil. Eu vou ao banco... Será que o rapaz do caixa da livraria tem divida no cheque especial? Eu espero que não. Esse tipo de transtorno eu não quero ver ninguém passar. Alias, seria engraçado ver o Eike Batista quebrado e devendo para o banco... Sendo mortal, igual a mim e ao rapaz do caixa. Não desejo o mal, só estou sendo iconoclasta. Ele é um icone: o homem mais rico do Brasil. Chega a ser mistico. Ou não. Um diabo em corpo de gente. Será que o rapaz da livraria sabe quem é ele?

Olha só, Catanduva está quente...

Espera um segundo, vou descalçar os tênis.

sábado, 13 de agosto de 2011

nota:

Eu não gosto de contato visual - por obrigação. Elevador lotado com cheiro de gente conhecida estranha... Não gosto de acenar sem vontade, nem de abraço sem saudade. Pois as pessoas são dúbias e constantemente mascaradas. Racionais e atentas, corujas que não giram o pescoço, mas que observam o movimento alheio com uma sapiência destra e deveras rasteira. As pessoas sufocam... São em demasia cansativas.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ordem e Exatidão

Chegando assim, manso
E vindo me dizer
"I wanna be your dog!"

Despindo a vergonha
Jogando bosta na cara
De uma família inteira...

Pois é,
Entre todos os revezes
Eu descobri:
com você
(e por você)


eu teria um filho.



Eu pediria
Inversamente
Para ser um cão.

Eu admitiria a dependência.

Eu assumiria a saudade
De uma vida.

Por você
Eu faria da existência
A minha dança
Maior que Pina.

E somente por você
Meus dias não estariam
Contados.

Com sangue
Eu aviso assim:

Te amo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011



Não acho que a vida foi feita para que necessariamente exista nela a divulgada felicidade.
Aliás, só de falar em toda a divulgação da alegria exuberante da vida, meu nariz já coça.
Penso que, por baixo da máscara de quem luta, existe um menos real e mais verdadeiro rosto sem fé, de um corpo que não tem força pra se tirar do chão.
Ou talvez, seja assim só por baixo da minha máscara.
Acho que isso foi um desabafo.



H.G.S.







''Nothing is ever really straightforward, I don’t see things straightforward.
I see them broken, that’s just how I am.''
Paul Banks