sábado, 29 de setembro de 2012

Não

"Aqui está bom, senhor?", perguntava o ajudante, montador do palco ao ar livre na praça de cristais multicoloridos, no centro desta cidade maravilhosa, fincada profunda na rocha também cristalina destas montanhas superiores e sobreviventes. O músico, pensativo, olhava para a aglomeração ao redor distraído. Percebeu então que algum som falado o atingira e virou-se.
"Ah, sim... Obrigado."
Quando o ajudante saiu de perto, ajeitou a cadeira do modo como preferia.

Este músico era o maior artista de todos os tempos. Um homem além dos outros homens. Um ser da arte, de além da própria música, a primeira delas todas, e também por ele a mais adorada forma de expressão. Era pintor, escritor de romances, poesia, teatro, epopeias, escultor, filósofo. Paradigmático em todas as áreas. Nome fundamental de todos os cânones.
Sua maior obra musical era o instrumento sem nome. Preferiu não nomeá-lo, mas as razões eram desconhecidas e muitos palpites tocavam diferentes porquês, o que aumentava mais ainda a popularidade da peça musical e que, talvez, fosse mesmo o objetivo da ausência de um nome. Quem entenderia as nomenclaturas de tal artista?
Tendo sido a essência de seu funcionamento buscada nas profundezas arqueológicas das alquimias aborígenes, era dito que - era assim chamado popularmente - O Instrumento fazia soar o timbre da própria alma humana, como se o espírito é que se tocasse e, de sua própria matéria desconhecida, reproduzisse-se a música do espírito daquele que o tocasse.
Segundo o artista e inventor, cada alma tinha seu timbre particular e único, e aqui, mais uma vez, encontrava-se a diferenciação pelo dom: a alma do inventor d'O Instrumento era a mais bela de se ouvir. Muitos experimentaram tocar a nova peça. Pessoas famosas tinham os sons de suas almas gravadas, presidentes, cientistas, grandes comerciantes, famosos viajantes, operários, bebês e idosos decepcionavam ou impressionavam o vulgo com suas melodias e harmonias intrínsecas. Porém, acima de todos, sempre inigualável, o artista provocava arrepios, calafrios, desmaios, alucinações, hipnoses, ataques de alegria e de pânico nos ouvintes do seu âmago. Um deus da música.

Hoje ele preocupava-se. Havia sido deixado.
Sentou-se na cadeira ao centro da praça. O tempo passava devagar. Os ouvintes aproximavam-se e cercavam o local, enquanto ele pensava que, ora, para um artista seria sempre fácil encontrar conforto efêmero num colo macio; mas, como está pensado, efêmero... E para aquele que perde o que era seu, por natureza, o que sobra? Para onde aquele seu colo macio preferido, dentro de toda a espécie, de toda a vida o conforto supremo, iria agora?
Aquilo que, pensava ele, era sua metade de alma, perdida, o abandonara e ele não conseguia pensar no que iria acontecer a ele. Iria morrer? Iria definhar aos poucos? Estaria melhor amanhã?
Ah, se todos ali soubessem do amor deste pobre ser, ele pensava.

Mas todos julgavam saber. Só havia ali convidados, dos mais importantes. Excelências. Os leitores assíduos e os estudiosos descabelados de todas as obras. Senhores e senhoras das mais altas classes e das mais tradicionais famílias, com até seus escravos excelentemente vestidos. Uma massa de vestidos longos, brilhantes, trajes de gala e fitas multicoloridas - como os cristais do chão - preenchia a cidade e cercava o palco. Aquela multidão vinha para vê-lo na sua apresentação mais esperada, a mais sonhada por todos e por ele próprio. Um concerto no topo do mundo.

Foi dado início. Uma pronunciação de alguma autoridade local e, logo depois, um ajudante trouxe O Instrumento cautelosamente até o artista. A marcha deste cúmplice com o Sem Nome nos ombros fazia parte da performance. Criava uma tensão. Uma espécie de prólogo do concerto, no qual todos pensavam que então era aquilo o famoso instrumento anônimo. O artista, que teve seus pensamentos interrompidos pelo pronunciamento e pelo começo do concerto, agiu mecanicamente e, pegando sua criação nas mãos, manteve-se sentado e posicionou-se, com o olhar baixo e muita calma.
O sol brilhava estaticamente no centro do céu e seus raios eram decompostos pelos cristais, espalhados por todos os lados da cidade e daquela praça. Uma leve brisa fez os longos cabelos do artista balançarem suavemente e ele posicionou as mãos n'O Instrumento, pronto para dar início a mais um evento marcante, a mais um divisor de águas da história de qualquer tipo de arte, diante de todos aqueles homens e mulheres que esperavam por algo diferenciado, sempre. Respirou fundo.
De repente, uma lágrima escorreu pelo seu rosto e ele, desmontando tudo, disse: "Não há o que soar, não há o que tocar."

H.G.S.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Oceano, parte I


            Eu fazia desenhos antes de escrever contos. Colecionava tintas, pincéis, lápises coloridos, canetas de ponta grossa, fina, mediana, borrachas, papéis fluorescentes, origamis, telas de tecido, tecidos, gizes de cera. Eu colecionava imagens e aí, num pulo separatório entre inocência e pederastia, li Paulo Coelho, 11 minutos, a história da prostituta Maria. Li 11 minutos aos 11 anos de idade. Descobri o que era prostituição e o que era masturbação, pois num dado momento o famigerado autor diz que Maria encontrou a “bolinha” que ocupava o meio de suas pernas e tocou-a. Subiu aos céus e foi descendo devagar, uma pena branca. Pomba. Aí comecei a inventar histórias e buscar outros livros que me ensinassem coisas gostosas como a masturbação – infelizmente só encontrei Bukowski aos 19 anos de idade. Antes disso, li Machado de Assis, Nietzsche e me apaixonei por uma mulher chamada Florbela Espanca. Eu me sentia estranha, pois me apaixonara meses antes pela minha professora de literatura que nunca usava batom vermelho, mas que usou num dia e me fez ficar embalsamada, embasbacada pela beleza que ela era capaz de ter. E aí me mostrou as letras de Florbela. Me quedei extasiada e presa a um mundo chamado literatura.

            Não teria como ser diferente. O sonho de meu pai era que eu fosse advogada, ou médica, ou psicóloga. Mas nunca poeta. Não que ele não fosse um amante das artes, mas foi um homem de vida sofrida e queria que eu tivesse uma profissão onde eu adquirisse status para que nunca fosse tratada como uma massa, um lixo, um chorume que escorrega diariamente pelas mãos do capital.

            Se estava certo eu não sei, só o que sei é que ele me deixou vir de Catanduva para São Paulo estudar jornalismo.

            Jornalismo é uma ova. Eu queria escrever e continuar pintando quadros, mas isso era um lamaçal tenebroso perante os ares do interior. Perdi a virgindade aqui. Virei usuária definitiva de maconha aqui. Conheci Bukowski aqui. Conheci o amor da minha vida. Os melhores amigos. Os lugares mais mágicos. As tristezas mais dilacerantes. As saudades mais pífias. Os textos mais completos. Bolhas nos pés. Dores na coluna. Orgasmos múltiplos. Tulipa Ruiz. Estação Sé.

            Não teria como ser diferente. Eu acabaria na cama de um músico com tatuagens nos dedos. E nos braços. Na perna. Nos ombros. Eu acabaria no quarto de um cara. Um livro autobiográfico sem pretensão. Uns olhos enormes. Um bigode fino e elegante. Eu estaria ali de qualquer forma, chapada de maconha, com o cérebro fervilhando, olhando para o homem deitado em meus peitos doloridos, pensando na vida – em dar aulas de redação e literatura para o pessoal vestibulando das Perdizes, em produzir os shows da banda dele, em virar garçonete aos fins de semana, em me suicidar. A falta de dinheiro faz com que as pessoas transbordem. As notas de papel estampadas com bichos me deixam maluca, parece que não posso nem respirar se não estiver com a carteira lotada. Eu pensava e, repentinamente, surge um gato. Dois gatos. Luma e Bartholomeu. Invadem a minha atenção e fazem meu namorado levantar-se da cama: gatinhos são apaixonantes. Eu digo:

            – Sabia que meu irmão quase morreu por causa de gatos?

           – Não. Por que?

           – Por que minha avó morava em Itajobi. E ela tinha, sei lá, uns 10 gatos na casa dela.

            Ele escutava atento enquanto olhava os gatos petrificado.

          – E aí, um dia, meus pais resolveram visitar um amigo deles que também morava em Itajobi. E eles deixaram eu e meu irmão com a minha avó, só que eles não sabiam que o muleque tinha alergia a gatos... Ele foi ficando roxo, sem ar. Minha avó ficou desesperada, ligou para eles e foram até o hospital.

            – Caralho...

         – Aí todo mundo descobriu que ele tinha alergia. Ele é meio sequelado até hoje por isso... Vive doente.

           Os gatos saíram e ele me puxou para que eu me deitasse novamente. Encostou sua cabeça em meu ombro e bastou um minuto de cafunés amorosos para que ele adormecesse em posição fetal. Meu namorado era um bebê fofinho. Eu o amava como nunca amara nada na vida. Comecei a pensar denovo. Quero ser artista. Quero fotografar as camisas dele e fazer uma exposição sobre grafismos. Aí eu posso fotografar as bicicletas estacionadas na rua. As guitarras emparelhadas nos estúdios de gravação. Meus livros empilhados. Quero ser artista. Dói saber que não serei feliz através de nada que não seja a arte de fato. A vida é indecente. Ela dói.

            “Eu estou me esforçando na mina pesquisa. Juro que tenho passado o dia todo... pesquisando!”

         Quero dar aulas de política. De mídia e política. Mas também quero ser artista. Eu quero ser imensidão. Antes de tudo quero escrever livros. Quero publicar este texto. Gostaria que alguem lesse e me achasse genia (como eu acho todos os autores incríveis e maravilhosos que leio).

domingo, 16 de setembro de 2012

Fragmento

"(...)
You ask for the impossible. You ask for the ruddy impossible. So if you love this girl as much as you say you do, you had better love her very hard and make up in intensity what the relation will lack in duration and in continuity. Do you hear that? In the old days people devoted a lifetime to it. And now when you have found it if you get two nights you wonder where all the luck came from. Two nights. Two nights to love, honor and cherish. For better and for worse. In sickness and in death. No that wasn't it. In sickness and in health. Till death do us part. In two nights. Much more than likely. Much more than likely and now lay off that sort of thinking. You can stop that now. That's not good for you. Do nothing that's not good for you. Sure that's it.
(...)"

Ernest Hemingway, For Whom the Bell Tolls, chapter thirteen, p. 168


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Suicide's Note

Langston Hughes

The calm,
Cool face of the river
Asked me for a kiss.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Paranóia


A nóia me faz querer parar.  

Não sou contente com o espaço delimitado pela minha pele perante meu conjunto de células e hormônios e vísceras e pelos denominado corpo. Preciso de expansão, mas ela não existe.

A cada tragada a realidade vem brusca, em dilacerante doses cavalares de um excesso que não compreendo há tempos. Antes, o real do mundo vinha ameno. Agora, é tão miserando que mal posso suportar meus devaneios que pulsam altos num cérebro parcialmente derretido e desprovido de memória.

A nóia me faz querer parar, pois as pessoas que amo sentem-se odiadas por mim. Por que pensam que sou ríspida e fria. Por que não existe constância aqui: a única constante é a angústia. Medard Boss tenta me explicar, mas eu me aborreço. Um emprego de 1.500 paus, férias na Argentina, bolsa de couro de jacaré. Não me importa. O que me importa é a liberdade (que ainda é pequena diante da imensidão que procuro no universo e nas almas habitantes dessa enorme rocha).

Paranóia não cabe aqui. Preciso comer e vestir. Me proteger do frio. Paranóia causa a morte em vida, me faz um corpo andante sem voz. Paranóia existe nas vozes alheias que não acrescentam. Paranóia existe entre os dedos que andam sozinhos. Paranóia em todo lugar.

A nóia me faz querer parar. O que há de ser maravilhoso, há de ser real.

A nóia me faz querer parar.



(Buk sopra ao meu ouvido: NÃO SOBRA NADA PARA MORRER)