quinta-feira, 26 de abril de 2012

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . VERMELHO


Todo mês a terceira guerra mundial acontece
Ela suja, enraivece e mente.
Afasta os amores de mim
Destrói meus amigos
E me machuca.

Uma vez a cada trinta dias
Sinto dores pontudas
Furando minha barriga
Provando que Deus não existe.

Mostrando que não há
Nenhum verme dentro de mim.

E tudo isso vai abaixo
Pela minha buceta.

domingo, 22 de abril de 2012

Amor punk

descendo, eu estava com frio.

no ponto, o sol começava a bater e eu derretia um pouco mais.

no ônibus, minha testa franzia.

no caminho, eu lia "amor punk" tatuado nos muros
envoltos por expressões coloridas de artistas que eu desejava conhecer.

gritavam algo
(que os humanos ordinários se recusavam a ouvir)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Vazou pelas calcinhas

quis

suor
porra
fffff
...

afago
de quatro

embrulhado
em látex

shhhhhhh
...

me sobrou

[punheta]

quinta-feira, 12 de abril de 2012

recorte número [desconhecido]


H.G.S.

Darinka aguardou pacientemente, sentada no trono abandonado do templo em ruínas no topo do morro. Freya pisou todos os degraus da escadaria pensando em Ekon, e em como poria fim àquilo que sobrara dele, dentro dela. Ou aquilo, não que sobrara, mas que seria o espaço vazio que ele deixou nela quando morreu.
A Vermelha chegou então aos pés do trono irônico da Azul. Esta se levantou, empunhou o machado, que agora tem o nome de terrível e lendário, mas que, da última vez que aquela o viu, era apenas o machado de uma principiante. Darinka não conseguiu evitar o sorriso. Sorriu como quem ama o objeto que vê. Então começou a tremer, porque entendeu que ponto sua jornada finalmente havia atingido. O sorriso se desfez, e Freya deixou de ser uma memória feliz para ser o alvo de sua vingança - alvo que conduzira tudo, nestes últimos cinqüenta anos, até aqui. Freya sorriu, e nunca parou de sorrir.
“Alguma última declaração?”, quis saber Darinka, quando retomou o controle sobre seus nervos. Surpreendeu-se com tudo o que Freya tinha para dizer:
“De norte a sul, histórias são contadas. Dizem que um demônio azul, disfarçado de donzela, caminha por este mundo caçando os injustos e punindo-os com seu machado flamejante. E dizem que o demônio caça alguém em especial, desde o dia em que partiu das profundezas da Terra. Dizem que ele caça uma raposa vermelha, semeadora da impureza. É curioso pensar como os homens são bons contadores de histórias. O quão boas são suas alegorias.”
“Mas também me parece interessante notar que, apesar de este demônio azul ser justo, ele ainda é chamado de demônio. E a raposa, fonte do mal, é só uma raposa. Será que os nomes servem apenas para criar essa hierarquia de seres, que faz com que esperemos que o poderoso - bom ou mal - demônio vá um dia encontrar a - sempre insignificante - raposa, e destruí-la?”
“Meu ponto é: talvez você devesse pensar melhor sobre o mundo que ajuda em sua jornada. Os homens nunca... Enfim, mas a alegoria é muito boa.” - Freya empunhou sua lança - “Só existe uma coisa que foge demais à relação com a realidade, o machado flamejante. Isso é demais para o teu ego, garota.”
“Dizem que o demônio azul poderia atingir um dos leviatãs mais antigos com sua arma de chamas, e vencê-lo neste único golpe, tamanho é seu poder. Bem... Nunca encontramos leviatãs em nossas jornadas, não é? Garota...” - e sorriu para dizer as próximas palavras - “...E se eu nunca for quebrar?”
Darinka não disse nada, mas seu machado flamejou.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Mestre

Álvaro de Campos

Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nessa forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem
de nada,
Alma abstrata e visual até o ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre
múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...

Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionalista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas do ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de
mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem
perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia
involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua
serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te
ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao
relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.

Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro
nem ninguém.
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver
clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia
respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia
que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a
nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de
sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre
aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser
humano!

Feliz o homem maçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve
ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é
dormir.

Sonho

Surgimos das cinzas de um mundo perdido, há muito abandonado pelos seres viventes, mas éramos viventes. Surgimos numa erupção pontual, nus, vulneráveis, e armados.

Nascemos simplesmente, mãos que buscavam o ponto mais alto, a maçã rubra, muito rubra. Não alcançamos o pico das macieiras. O mundo vivente nos venceu. Por séculos, nos vencia todo dia. Todos os dias a derrota.

Depois da última batalha, feita com todas as últimas forças estendidas ao máximo, caímos. E caindo, no calor da batalha, que é derrota para todos, conseguimos atingir poucos inimigos. Golpes à sorte. E ele, no meio do campo, foi perfurado pela lâmina quente e fria da vida e da morte. Nos agarrei, segurei-o comigo, ambos caímos na escuridão, e só eu respirava.

Caímos, mas no fim da queda, no vale mais profundo de todas as sombras, quando nos estacamos no chão, atravessou. Atravessou a pedra, para cair muito mais, mais que as rochas, as jóias e os rios subterrâneos, para além dos fósseis, dos ossos daqueles que caíram antes de nós, para além do fogo máximo, para os Elísios, o Tártaro, o além de tudo. Em direção ao Não. Ao escuro da ausência da razão e para além de todas as loucuras. Além do tempo, do espaço e da matéria.
Eu, que fiquei, fiquei talvez para me levantar.

H.G.S.