sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

12/09/91

"Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até sua morte. Não reverenciam suas próprias vidas, mijam em suas vidas. As pessoas cagam. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, cinema, dinheiro, família, foder. Suas mentes estão cheias de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem o país sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas. Seus cérebros estão entupidos de algodão. São feios, falam feio, caminham feio. Toque para elas a maior música de todos os tempos e elas não conseguem ouvi-la. A maioria das mortes das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada pra morrer."

Charles Bukowski.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

por Victor Bauab

Era uma noite quente no interior
Era, mas era há 2 minutos atrás.
Enquanto fumava meu último
(último?)
cigarro da noite
Me vinha a mente as nossas noites
aqui, nessa mesma sacada
Com as mesmas músicas que oscilam, vascilam, nos confortam, nos marejam os olhos
e são nossas
Aquela velha - ou não - máquina de fotos em que fazíamos poses
ora bizarras, oras genias.
Me veio as confissões
As desilusões e desabafos
Carinhos, afagos
Numa dualidade sentimental
que significam o amor - um amor puro e mais nada.
Me veio até a xana peludinha da FY enquanto tentava me vestir de John Corleone.
Veio o amor que guardo para você.
Por favor, meu amor, minha nêga, minha musa
Faz isso de novo amanhã?
Posso ajoelhar em seus pés
ou te encher de beijos
ou até mesmo atirar dessa mesma sacada que me cobre
Mas vem me dar isso de novo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

tempestade

na tempestade
o trovão

grita.

nem o trovão
assusta

de manhã.

passarinhos

cantam.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

erótico

salamandra
psicodélica

na manteiga
na chapa
no mato

você é
biscoito fino,
baby...

sábado, 10 de dezembro de 2011

Não. Pela terceira vez.

Não sei qual fora a intenção de perguntar, mas perguntou. Enquanto eu estava cheirando a goró, perguntou se eu queria dançar por ali, no meio de muita gente, dançar arrastando os pés e dançar na ponta dos dedinhos magoados que são meus dedinhos dos pés. Se chegou perguntando por que eu dizia que tinha dormido com os braços enlaçados naquela noite, me indagou dizendo que a dissimulação é uma causa de sofrimento, me indagou – com as mãos no guardanapo azul, fuçando o paliteiro, equilibrando o azeite por cima do paliteiro sem me olhar nos olhos – dizendo que eu deveria ser sincera na maior parte das vezes, pois da sinceridade nasce a lealdade que falece um pouco todos os dias.

Me fez dizer qual era a cor de carro que mais me atraia, somente na intenção de descobrir se eu era mais uma dessas emergentes, ou se eu era aquilo que meus cabelos transpareciam. Eu, por inteira, transparecia um mar de desordens. Transtornos do sono, transtornos bipolares e transtornos byronianos que oscilavam tanto quanto a folha de alface crocante de rolava de um lado para o outro naquele beiço sem saliva. Enquanto as verduras cantarolavam dentro do céu da boca, Janis Joplin sussurrava bem baixo no meu tímpano estourado, compartilhando a angustia de que ela, tanto quanto eu, precisava de um homem que a amasse. Continuou ali, prostrado com as mãos caídas sobre a mesa, com olhos de lince rondando as quatro pontas de uma mesa redonda, pedindo que eu não olhasse seus olhos. Implorou que eu não deixasse cair, implorou por clemência e quase chamou a progenitora afim de que eu tivesse misericórdia. Falhou.

Pediu que eu botasse a cabeça no lugar, mas tudo o que eu conseguia ter em mente era a necessidade brutal de tirar os sapatos, o sutiã e mentir mais um pouco. Eu tinha necessidade de disfarçar a minha imensa vontade de vê-lo caído de quatro na minha frente, despido e desprotegido, pelado, com frio e com fome. Eram desejos sádicos que passeavam de um lado para o outro, do lóbulo frontal para o hemisfério esquerdo, fazendo barulhos de carros de corrida, fazendo ruídos estranhos. Dor de amor. Me doía, me deflorava como uma barragem que rompe um turbilhão de sentimentos dúbios e sofríveis. Por menos que eu quisesse, me tornei uma pessoal sofredora, capaz de fazer sangrar e rir a partir da dor de quem tivesse ao meu lado. Eu queria sentir cheiro de merda, fazia questão de sentir fortemente as agulhas nas veias azuis que me regavam. Porém, ainda estava ali, estaticamente posicionada olhando o movimento de suas mãos naquela toalha de seda preta.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Pães de queijo, frio e um cobrador gentil

Era um cobrador sangue bom. Não sei o nome dele, mas desde o princípio imaginei que pudesse ser Jorge, Jorjão, ou Paulo, Paulão. Pois ele era grande, de pele preta, mas tinha feições infantis. O típico homem capaz de destruir um templo, porem, tão inofensivo quanto eu. Encontrei-o ali no Largo da Batata – lugar horroroso no meio de um bairro bonito. Ficava mais feio e estranho quando olhávamos o Tomi Otaki, edifício medonho e bárbaro que habita o centro de São Paulo. Tomei o ônibus que me deixaria em casa. Sentei ao seu lado, junto com Helena que estava aparentemente cansada, faminta e com muito frio. Fez alguns malabarismos para entrar na cadeirinha que era seu local de trabalho, aquele assento minúsculo e grotesco para um cara daquele porte. Abriu o caixa e retirou de dentro um pacote de bolachas recheadas. “Qué?”, ofereceu aquilo que parecia ser um bom prato para duas damas perdidas num ônibus vazio. Com dor na alma, recusamos o lanche. Duas passarinhas deprimidas, sem água na fonte para tomar um banho quente e cantarolar, piar por aí.

Sua cabeça cambaleava numa filistria permanente de ir para cima e para baixo. O cobrador estava com sono, apesar de aparentar ter entrado a pouco tempo na condução – era visível que acabara de sair do banho, estava ainda perfumado e com a roupa bem passada. O monstrão parecia morar com a mamãe, tinha cara de muleque bem criado em igreja evangélica. Pedimos para que ele gentilmente nos informasse o ponto mais perto da nossa casa e ele afirmou com prioridade que nos diria, pedindo para que ficássemos tranqüilas. E ficamos. Passaram carros, pontos, semáforos, padarias, estacionamentos. Passou por nossa cabeça o suicídio, pois o que mais queríamos na vida era a ternura do lar após um dia cansativo na Praça do Por do Sol. Até o momento em que ele avisou para que descêssemos, deixando-nos no posto de gasolina errado. Eram dois pontos seguidos por postos de gasolinas da mesma corporação. Aquele cobrador infeliz deu uma pista falsa que elevou nossa alma ao maior grau de fúria possível num sábado a noite onde tudo era gélido e com cara de domingo.

Helena precisava mijar. Miramos uma dessas padarias da elite da Zona Oeste e resolvemos, cegas, adentrá-la. Sentimos uma falta incomensurável dos nossos pais quando avistamos aquele vinhos chilenos, portugueses, franceses. Sonhamos por exatos 12 segundos com a riqueza eterna e com a barriga quente de tanta comida burguesa: quatro pães de queijo, quatro salgadinhos de salsicha (que tinham o diâmetro menor que três centímetros cada) e cinco pães franceses. Debito de onze reais: é o preço que se paga por uma mijada. Não enfiamos o rabo entre as pernas, pois não tínhamos um rabo. Mas nossa possível expressão de ódio e indignação foi marcante. “O que? Por que ONZE reais?” Um punhado de emoções dúbias apenas numa volta para casa que não deveria, pela lei de todos os universos possíveis, se sair por onze preciosos reais.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

SUMA

(...)

vim aqui dizer também
que quero que você suma
e em suma, quero sumir.
que é para não te ver
que é para espantar a Babylon de mim
que é pra tirar isso da cabeça
e "por o resto no lugar."

náusea: é o que você me causa
com essa personalidade mutante
metamorfoseando a minha cabeça
fazendo o meu pescoço cair
cada vez que alguma lamuria
escapa da tua boca
e pinga junto com saliva
na minha testa.


vim aqui dizer também,
que te quero.
porém, com muito pesar...
com muita tristeza
e com extrema alegria
de ter te descoberto ontem
para poder viver
rindo e catando
na minha cidade natal.

domingo, 27 de novembro de 2011

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

‎"Eu vou te contar que voce não me conhece e eu tenho que gritar isso por que você esta surdo e nao me ouve. A sedução me escraviza a você. Ao fim de tudo, você permancece comigo, mas preso ao que eu criei e não a mim. Quanto mais falo sobre a verdade inteira, um abismo maior nos separa... Você não tem um nome e eu tenho; você é um rosto na multidão e eu sou o centro das atenções. Mas a mentira da aparência do que eu sou e a mentira da aparência do que você é: por que eu não sou o meu nome e você não é ninguém. O jogo perigoso que eu pratico aqui, ele busca chegar ao limite possível de aproximação através da distancia e do reconhecimento dela. Entre eu e você existe a noticia, que nos separa. Eu quero que voce me veja a mim. Eu me dispo da noticia e a minha nudez, parada, te denuncia e te espelha. Eu me delato. Tu me relatas. Eu nos acuso e confesso por nós. Assim, me livro das palavras com as quais você me veste."

Maria Bethania

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

(de coração)

Hugo
Huguinho
Hugoso
tão lindinho
e ao mesmo tempo
tão feioso.

Legs - Novembro, 2011, 3

EXCEÇÃO

"Entre todos os revezes
Eu descobri:
com você
[e por você]

eu teria um filho.

Por você
[e com você]

meus dias não estariam contados.

Despindo a vergonha,
Jogando bosta na cara
De uma família inteira.

Por você
[e com você]

Eu teria uma família."

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O homem da cicatriz

De dia, escrever, tomar cafezinhos, ler jornais no McDonald's. De noite, beber Jack Daniel's, comer chocolates ou cus, ler um livro sobre o surrealismo francês e pensar como ficaria seu corpo lá embaixo estatelado no asfalto, chapado de maconha. De dia, no PC, escrever mensagens, mandar cerca de trinta e-mails das 9 às 6, contando coisas pessoais, extremamente pessoais, ouvindo isso de outras pessoas, tratando de assuntos pseudamente profissionais, pedindo coisas, favores, retribuindo, oferecendo favores e gentilezas, quase sempre muito gentil, mesmo, e tudo enquanto trabalha, ou seja, o que é trabalhar? Quase não fazer nada, conversa fiada transubstanciada em memorandos, anotações, idéias, resenhas sobre fatos alheios e reuniões em que se finge um interesse inviável pelo que diz o chefe, passeando pelos corredores vazios da firma assuntos como futebol ou guerra, elogiando ou metendo o pau, dissimulando intrigas e mexericos, comentando as bundas das mulheres, e, se der sorte, numa hora de almoço perdida no tempo, foder aquela assistente gostosinha [desesperado estupro da noite no dia]; de noite, ou muito devagar ou muito muito rápido, no Mac, tentar escrever, num simulacro de diário, sua vida reinventada, criando mentiras aos amigos, rindo falso no telefone, comendo coisas estranhas e quase sempre mulheres estranhas, estranhas que de repente ficam bem naturais, essas mulheres de mil anáguas e calcinhas e aí nuas nuasnuas de dizer até mesmo eu te amo.

O dia rasurado por signos conhecidos, a rotina equacionada pra não dar errado nunca. Nunca o sinal se abrir lento demais, nunca o carro da frente demorar, nunca chover pra caralho ou fazer sol além do bastante, nunca falar com o mendigo no semáforo, nunca cometer imprudências ou desperdiçar bons-dias, esconder-se, profundamente de si esconder-se, no cansaço do sono, na pedra do sonho, lavrando a certeza de que amanhã sim, amanhã talvez. E todo dia, entre madrugada e manhã, a cicatriz cada vez mais aberta e funda, entre crepúsculo e lua formulários agonizam, secretárias se ocultam nas casas dos maridos, assistentes viram um porre, vais pra puta que pariu que morreram amargos no âmago da garganta, e então a sede, a sede da noite, porém junto um arrependimento, de sensação de lixo, suor grosso expulso dos poros, expulso do dia, e então exilado, insulado. [Mas mais preciso. Pois a cada despertar, outro delírio abortado.] Um dia, ligar o foda-se. Um dia, a noite plena. O sol que se dane. A cicatriz, o próprio sol.

Vila Madalena [SP], outono, 1999

Ronaldo Bressane

domingo, 23 de outubro de 2011

SOLO

Eu não poderia deixar de me arrepiar. É como se ela falasse.
Ela, não o instrumento; ela, a personagem. Que muda para cada um, mas que para a maioria das pessoas e na maioria das vezes é o próprio eu, que gosta de remoer emoções.
É como se ela falasse, e mais do que falar. As frases lentas Confortavelmente apresentam o tema, e quando a velocidade daquela voz sem língua se acelera e atropela o tempo dá pra sentir na pele, nos ossos, em tudo, tudo aquilo que a alma queria gritar.
É como alguém que pragueja contra o mundo, como a alma quer fazer. Grita maldições, chora de raiva e pede pra brigar contra o universo. É como alguém que implora pelo fim do mundo, como a alma tantas vezes quis. A voz abaixa e aumenta, e é possível encontrar Entorpecida a declaração de amor ou de guerra que se quiser.
Amor, ódio, dor, doença, solidão, morte, escuridão, céus escuros, nuvens negras, caos, tédio, saudades, mais solidão, mais dor, mais alto, mais alto, mais alto.

Pode ser muitas coisas, mas seu propósito é de ser basicamente, fundamentalmente, sempre, absurdamente, triste.


H.G.S.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Desconheço

Porra louca.

Intensamente sensível.

Mas, porra louca...

Errante freqüente,

Dramática e doente.

Vim me desdizer,

Pois de mais ninguém posso fazê-lo

Pela legitimidade do fato que alego:

Só me conheço a eu e a mim mesma.

Mas de minha doença

Não posso falar sequer um verbo

Uma vez que não a conheço

E mais que isso:

Desconheço.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Náusea

Me causaste tanta dor que a náusea foi irremediável. A dor, anteriormente metafísica, era agora sentina na superfície da minha carne, na região abdominal, no tórax e no rosto, pois apesar de todo o esforço brutal, não consegui derramar sequer uma lagrima. Incrivelmente, eu não consegui derramar as malditas lágrimas. Mas o esgotamento que você fez ocorrer me deixou por alguns segundos com a garganta fechada, gelada e quente ao mesmo tempo. Ficou dolorida, como se as palavras que eu havia de dizer fossem espinhos a sair da minha boca para profanar tua existência.

Todo esse enjôo, esse mal estar funesto e esse drama sem vertente, me fizeram constatar que você tem um caráter solúvel. Nunca me permiti estar em nenhum tipo de relacionamento com individuos de caráter solúvel. Minhas amigas do colégio, por mais putanas que fossem, ainda tinham algum tipo de principio oculto no âmago de suas vaginas. Mas, você demonstrou que só tem resíduos de humanidade correndo no sangue. Resíduos: não mais que isso.

Quando me deitei na cama e acendi o abajour, senti que ela capaz de golfar no seu rosto. Senti que se a sua figura aparecesse repentinamente em frente a mim, eu era capaz de sujar sua roupa com o meu asco perante as suas atitudes. Senti minha pele mergulhar no esgoto conforme eu remoia aquelas cenas, aqueles gestos e aquelas vulneráveis palavras – provenientes do seu vulnerável vocabulário que sempre se encabula diante de mim. Meus olhos estavam estaticamente estalados enquanto eu olhava para o teto vazio. Com as mãos cruzadas sobre a pança, em posição de defunta, eu esperava as indagações passarem uma a uma rapidamente pelo meu cérebro derretido.

Por mais que eu me sentasse aos pés do meu leito e rogasse aos céus que o choro viesse, eu não consegui molhar o rosto. Nenhuma vez, de nenhuma maneira. A minha podridão ainda não foi expelida e continua a rondar minhas vísceras. Você transformou uma dor transcendente numa dor carnal. Egoísta que foi, me roubou o direito de soluçar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Tão insignificante quanto uma pomba branca

Sentada, ela fazia um colar de contas para o casamento. Estava com as pernas cruzadas, vestindo uma calcinha azul marinho, uma blusa bege que usava para dormir e um chinelo de quarto. Balançava as pernas enquanto ouvia os diálogos dramáticos da novela - a novela sim, um drama que fazia sua existência funestamente vazia oscilar entre emoções e calmarias do cotidiano da gente rica que aparecia na tela. Esforçava o dedão do pé para não perder o chinelo. Periodicamente ajeitava os óculos por cima do nariz minúsculo.

Contava as pérolas falsas que ia colocando alinhadamente no fio de náilon; não tinha atenção para nada que não fosse aquele colar de contas proveniente de pérolas falsas. Estava ali, tão avulsa quanto a matrioshka da estante, tão alheia ao mundo quanto as taças de vinho do armário da cozinha. Estava ali, fabricando um colar e pensando em seu uso no dia do casamento da prima bonita que tanto invejava desde a adolescência na paroquia de São José. Ela queria ser um sucesso, pois também desejava um marido.

Desviou o olhar para aquela bonequinha russa e começou a percorrer o devaneio que se formava em sua mente. Ficou pensando em quantas aquele enfeite era capaz de se desdobrar e ficou análoga a aquele pensamento. Concluía pouco a pouco que ela, por sua vez, era uma matrioshka presa no corpo de uma mulher e a ultima das miniaturas era ela como fêmea endiabrada. O lado luxurioso da vida ela não tinha. Tudo parava ali, aquela era a ultima instancia: o viés sexual da filistria diária. Era capaz de ser estudante, trabalhadora, filha e amiga. Mas nunca mulher.

Bianca jamais havia se tocado. Já ouvira das amigas que a sensação era sublime; algo parecido com subir aos céus e descer flutuando vagarosamente. No alto de seus vinte e oito anos, ainda não tinha experimentado o prazer do gozo. Divagou sozinha sobre isso por um tempo significativo enquanto preenchia os espaços daquele colar de contas. Seu dedo era virgem e sua boceta também. Ela era a ultima virgem entre as mulheres da terra.

Uma gota de sangue no sofá. A agulha trapaceou sua ética e furou o dedo de quem a botava na labuta. Foi quando a moça prostrou-se na frente da televisão, viu uma cena de nudez e não enxergou sua realidade. Observou a o sutiã da atriz voluptuosa, percebeu que os olhos do galã estavam em chamas e que tudo aquilo era pecaminoso demais para ela. Voltou para o colar de contas, anulou denovo a sua ânsia e decidiu fazer sucesso no casamento de sua prima bonita. Ou pelo menos, tentar.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O vento lá fora arrastava a terra seca na manhã.
A casa vazia, mal cuidada, era escura por dentro. Ele recostou na janela e agora olhava para o deserto, bege, amarelo, fervendo no calor já antes da quarta parte do dia. Não havia nada lá fora além da luz quente e entorpecente do sol, e nada além desse outro inferno, de sombras e nostalgia, do lado de dentro.

A velha saiu das sombras de um canto e disse:
- Horrível, não? Como tudo fica assim sem ele aqui. Sabe, o Velho Capitão odiava este lugar, dizia que o deserto entra dentro das pessoas...
Silêncio. Ela completou:
- Apesar de termos vencido, não sei como continuar.

Era verdade. Como continuar? Depois de tanto tempo, tantas batalhas, as mortes, o acidente no vale, a doença da menina mais nova que acabou sendo deixada para trás, a viagem quase impossível no norte durante o inverno; a última e definitiva vitória não dava a alegria conclusiva que um dia fora sonhada. O que contava agora, o que pesava, era toda a vida (por que não usar essa palavra?) gasta na campanha sangrenta e desgraçada desses homens. Sentia-se mal por ter sido transformado pelas experiências.

E como se houvesse razão nas palavras defuntas do Capitão, sentiu-se seco e parte do deserto. Enfim, não seria possível, nem valeria a pena, voltar à vida de antes, percebeu, à felicidade de antes. Felicidade, porque tudo que está no passado, embaçado e enfeitado pela memória, parece mais feliz, mais próspero, e tudo que está no hoje parece decadente. Mas ele decidiu que não iria ficar mais um dia naquele forno inerte de saudade e filosofia. Havia mudado com tudo, e continuaria mudando até morrer.

Fez força com os pensamentos e tirou da alma aquela areia.
Tirou de dentro o deserto.
Foi embora da casa naquele dia, precisava viver qualquer coisa.
Continuaria mudando até morrer.



H.G.S.

domingo, 28 de agosto de 2011

sulcos

hoje o vento soprou sulcos no relevo
e eu não via você ao meu lado.

eu não via você ao meu lado.

eu não via você.

hoje eu tive fortes dores
e não sabia a quem dizer,
pois eu não via você.

não via você.

desde sempre você sumiu,
mas apenas hoje

eu não vi.

sábado, 27 de agosto de 2011

Texto sem revisão. Numa cagada. Eu sou louca.

Eu não sei se o rapaz da livraria sabia o que estava me vendendo. Também não sei se era pretensão minha achar que Hunter Thompson e Marx pudessem ser tão importantes assim... Bem, pretensão eu sei que não era: jamais serei capaz de negar a importância de Karl Marx, por que eu gosto dessa historia de comunismo. E anarquismo. E tudo que é contra. Até o gonzo do Hunter pra mim é contrario. E os olhos do rapaz da livraria não eram contrários, mas me eram estranhos. Dois olhos que eu nunca tinha visto me vendendo obras primas. Coisa de valos inestimável... Coisa de louco.
Esse moço estava me vendendo o gozo impresso e não sabia. Pelas mãos dele a minha alegria foi materializada. Matéria, materialismo, eu materialista. Já deixei de comer para ler. Já deixei de comer para alimentar os neurônios que me restam. Afinal, Amy morreu disso: cigarro, maconha e álcool. Não, ela não morreu assim, mas foi isso que me disseram ontem. Só para me assustar.

De qualquer forma eu não me assusto mais, apesar das suposições que afirmam que deve ser difícil ser eu. Eu não odeio nada, meu rei... Eu só odeio o sistema. Abomino a própria maquina que me faz ser capaz de guardar o manifesto comunista no sutiã. É culpa da bufunfa se hoje eu posso dormir com Engels me soprando ideias enquanto repouso tranquila com minha cabeça no travesseiro. Eu durmo e tenho sonhos intensos. Eu acordo e tenho sonhos intensos. Eu vivo por isso mesmo.

Será que o rapaz do caixa vive imerso na intensidade ou é um trabalhador alienado no meio do caos? Eu não sei... Eu não vi isso nos olhos dele... Eu sei que ele precisa comprar remédio, água e biscoito. Mas um livro igual ao meu eu não sei se ele compra.

Eu não conheço ninguém. Eu só divago.

Meus pés estão gelados.
Desculpa, vou calçar um sapato.

Meu livro novo escorregou do meu colo e uma mulher afobada me perguntou se eu vou pra São Roque. Não, eu vou pra Catanduva. "Catanduvas é frio né?" Não, moça. Catanduva - no singular - não é fria. Não respondi isso, logico. Mas pensei e disse a ela que é calor. E ela se sentiu confortável para conversar enquanto eu queria ler. Me perdoe a falta de humanidade, mas eu não troco essas letrinhas pela sua companhia. Sabe que ainda ontem, eu e meu amigo-irmão ficamos o dia todo encurralados na cama; lendo. Ele recitava pra mim e eu recitava pra ele. Encontrei uma coisa que eu gosto de fazer com ele alem de sexo: ler. Qualquer coisa mesmo, mas ler junto com ele.

Olha só, o ônibus chegou!
Tem um policial atras de mim, uma véia na minha frente e o motorista se chama Pedro, igual ao meu amigo. Aqui dentro tá quente. Lá fora eu estava tremendo, mas aqui dentro eu ameaço suar. Espero que liguem o ar condicionado rápido. Já estou em plena agonia. Por fora da janela os corpos tremem. Por dentro dela, eu fico suada. E me irrito.

Me lembro denovo de ter comprado dois livros. Pois é, os últimos trinta reais que ocupavam a minha carteira foram parar nas mãos do rapaz de olhar desconhecido. Depois no caixa. E depois - ou antes - no cofre da editora. Um livro de bolso que tem como tema o manifesto do partido comunista e custa onze reais. Tem exploração aí! Espera mais um minuto que eu vou comer.

Uma criança dá berros estrondosos ao meu lado. Estamos num ônibus fechado, sem escapatória e e essa cena me faz ter certeza de que filhos nao farão parte da minha biografia. Nem os fones de ouvido me poupam desse choco infernal. Criança maldita! Jorge Ben, me de uma mão?

"Cadê Tereza? Onde anda a minha Tereza?" Por onde ando eu? Sou Terê ou Andrê? Por onde ando eu, que tenho dois nomes, duas mãos e um corpo só? Segunda não vai ser fácil. Eu vou ao banco... Será que o rapaz do caixa da livraria tem divida no cheque especial? Eu espero que não. Esse tipo de transtorno eu não quero ver ninguém passar. Alias, seria engraçado ver o Eike Batista quebrado e devendo para o banco... Sendo mortal, igual a mim e ao rapaz do caixa. Não desejo o mal, só estou sendo iconoclasta. Ele é um icone: o homem mais rico do Brasil. Chega a ser mistico. Ou não. Um diabo em corpo de gente. Será que o rapaz da livraria sabe quem é ele?

Olha só, Catanduva está quente...

Espera um segundo, vou descalçar os tênis.

sábado, 13 de agosto de 2011

nota:

Eu não gosto de contato visual - por obrigação. Elevador lotado com cheiro de gente conhecida estranha... Não gosto de acenar sem vontade, nem de abraço sem saudade. Pois as pessoas são dúbias e constantemente mascaradas. Racionais e atentas, corujas que não giram o pescoço, mas que observam o movimento alheio com uma sapiência destra e deveras rasteira. As pessoas sufocam... São em demasia cansativas.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ordem e Exatidão

Chegando assim, manso
E vindo me dizer
"I wanna be your dog!"

Despindo a vergonha
Jogando bosta na cara
De uma família inteira...

Pois é,
Entre todos os revezes
Eu descobri:
com você
(e por você)


eu teria um filho.



Eu pediria
Inversamente
Para ser um cão.

Eu admitiria a dependência.

Eu assumiria a saudade
De uma vida.

Por você
Eu faria da existência
A minha dança
Maior que Pina.

E somente por você
Meus dias não estariam
Contados.

Com sangue
Eu aviso assim:

Te amo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011



Não acho que a vida foi feita para que necessariamente exista nela a divulgada felicidade.
Aliás, só de falar em toda a divulgação da alegria exuberante da vida, meu nariz já coça.
Penso que, por baixo da máscara de quem luta, existe um menos real e mais verdadeiro rosto sem fé, de um corpo que não tem força pra se tirar do chão.
Ou talvez, seja assim só por baixo da minha máscara.
Acho que isso foi um desabafo.



H.G.S.







''Nothing is ever really straightforward, I don’t see things straightforward.
I see them broken, that’s just how I am.''
Paul Banks


sexta-feira, 29 de julho de 2011

sim

sede
suor
sangue.

sede, sede
suor, suor, suor
sangue, sangue, sangue.

sede
suor
sangrando.

sede
de sangue
e suor
sangrando.

sede
de sangue
e suor.

sudoriparas.

suor
sede
e sangue.

nas coxas.

o som do cavaco

todos bebados.

então, a luz se fez
e os olhos enxergaram
o invisivel.

jimi replicou:
"hey, joe!"

e paul maccartney
pediu um cavaquinho.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Dia desses

Sendo observada pelos únicos olhos do lugar, Catarina permanecia sentada de frente para o psicanalista fascinada pela pintura posicionada na parede de trás. A falta de cabelos dele refletia a pouca luz do lugar, levando-a a concentrar-se em tudo, menos na analise.

Saiu do consultório, vestiu um casaco e armou-se com seus inseparáveis óculos escuros. Sentia fortes dores no estômago, náuseas infernais e uma imensa falta de ar – o que não era motivo plausível o suficiente para que ela não retirasse um maço de cigarros da bolsa. Acenou para um táxi, sentou-se e delirou ao redor das palavras de Gabriel Garcia Marquez em seu memorável “Memória de minhas putas tristes”. Não tomou nota acerca do transito caótico da capital paulistana, tampouco do menino malabarista que desdobrava-se clamando por um trocado qualquer. Era mais uma vez seu livro preferido quem a completava e tomava toda a atenção de Catarina.

Ao subir as escadas de seu apartamento assombroso, sentiu tudo aquilo que não havia ingerido remoer suas vísceras, esmagando fígado, pulmão e coração, que agora, pulsava acelerado. Não tardou a entrar em casa e esparramar no chão um golfo imundo e fétido. Arrastou-se até a geladeira e embebeu da garrafa alguns densos goles de água fria. Jogou-se nua na cama, flutuou feito uma pena desprovida de forças: lembrou-se de que as regras estavam demasiadamente atrasadas.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Prece

de pé no chão
vestida de anjo
com asas

invisiveis .

chinelo de lado
e um canto baixinho.

os dedinhos entres os cachos

o olhar de quem protege

uma pretensão de zelo
e intenso amor.

é o abrigo que busca
é a casinha no mato
é a fuga do sofrer,

o alixir para viver.
Já Bocage não sou!... À cova escura Meu estro vai parar desfeito em vento... Eu aos céus ultrajei! O meu tormento Leve me torne sempre a terra dura.  Conheço agora já quão vã figura Em prosa e verso fez meu louco intento. Musa!... Tivera algum merecimento, Se um raio da razão seguisse, pura!  Eu me arrependo; a língua quase fria Brade em alto pregão à mocidade, Que atrás do som fantástico corria:  Outro Aretino fui... A santidade Manchei!... Oh! Se  me creste, gente ímpia, Rasga meus versos, crê na eternidade!

Manuel Maria Barbosa du Bocage

domingo, 24 de julho de 2011

240711

hoje eu resolvi abrir meu coração
e assumir que toalha com cheiro de amaciante é melhor.
o piso da casa da mãe é sempre mais branco
e a grama do vizinho nem sempre é mais verde.

decidi assumir que aceito esse desafio
não na pretensão de mudar uma mente,
mas de construi-la

junto a mim.

sábado, 23 de julho de 2011

uma vela, um colchão, um violão

"E aí... você não consegue cantar?
Não, não consigo...
Prende, né?
É. Prende."

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Mapplethorpe

Ken Moody and Robert Sherman

Rimbaud me salva constantemente.

"Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível.
Fixava vertigens.
Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas.
Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novos idiomas."

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Construção sentimental

queria amar o poeta genuíno,
mas me restou o aspirante.

me bastou a primeira olhada
naqueles olhos caídos
e lânguidos.

poderia me apaixonar pela exímia técnica
mas a construção sentimental
me atrai por sua precariedade.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

De Alberto para Catarina

hoje eu vou querer a minha menina com todo o amor do mundo.
vou dizê-la que preciso dessa pele alva
e da sua companhia.

meu bebe
meu amor
minha vidinha...

hoje eu vou esclarecer os fatos para a minha menina:
te amo, querida.

e imploro:
não saia das minhas vistas.

não se perca no horizonte
tampouco nesse infinito universo,
pois preciso te ver

e amar como sempre


intensamente.

domingo, 17 de julho de 2011

Acordou. Abriu os olhos e mirou o teto, a parede, o chão. As paredes ainda se esfarelavam e os insetos já cobriam quase toda parte.
Cinzentos tijolos e cinzentos aracnídeos. Malditos sonhos.
Quando acordou sentiu nada. Repassou tudo o que fizera e presenciara.
Nada.
Levantou, recuperou os sentidos aos poucos. Os insetos daquela tortura podre evaporaram, as paredes voltaram ao estado normal. Foi até a janela e a abriu.
No instante em que olhou pra tudo o que encontrou com a visão - o que não foi nada fora do comum no que diz respeito a visões através de janelas - uma dor surgiu.

Mas não era uma dor comum, era como uma agulha que ia de dentro pra fora cavando o peito. Cavando a mente. Uma picada, e na ponta, na raíz da dor, havia uma voz. Uma voz de personalidade que perguntava ''que diabos é tudo isso?'' e ''quem são essas pessoas, e o que elas pensam que são então?''
Numa febre gelada os pensamentos fluíam de dentro pra fora, do peito pra boca, e algo parecido com compreensão ocorreu nesse processo.

''qual o poder?
a ordem? o certo?
errado? não.

de quem é a culpa?
quem deve punir?
quem sabe?
quem? ninguém.''

E então a dor, que era direta, fria e única, se esfarelou dentro dele. Virou um pulsar sem calor, sem gosto, sem tristeza e sem alegria também.
Pulsou uma vez e estava feito.
Os insetos pareceram brotar do chão, mas agora não fariam mal a ele, estavam sob seu comando, ou melhor, estavam sob o seu compreendimento.
Ele podia ver agora as rachaduras nas paredes, e elas aparentavam, a seus novos olhos, sempre ter estado lá.



Que era tudo aquilo? Quem eram aquelas pessoas?
Nunca realmente importou.




H.G.S.
Today I woke up and thought: ''maybe just a little more...''
Bad idea.
Dreamed of you.


H.G.S.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Faz muito tempo... e não passa!

Nada funciona aqui.

O desenho colorido já não é alegre
E os gatos que passam pelos telhados não existem mais.

Mais bombas
E tiros.

A vida não funciona.
A vida não é viver.
E o caos

Avança.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ambiciosa

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar ...

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar ...
Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar !

Minh’ alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus !

O amor dum homem ? Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada ...
Um homem ? Quando eu sonho o amor de um Deus ! ...

- Florbela Espanca

terça-feira, 12 de julho de 2011

boneca de pano

linda pequena.

minha boneca
minha flor
minha família.

e agradeço
e sinto saudades.

e agradeço
e sou extremamente grata
pela minha bonequinha.

parabéns, Dri.

nota:

estou leve. voltar pra cá me fez um bem e um mal danado.
daquele corpo magricela, já nem me lembro. do atraso das notas, menos ainda... mas dos melhores amigos que eu poderia encontrar numa cidade daquele tamanho... sinto saudades que me parecem eternas.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

110711

eu gosto de viver só de madrugada
quando a imundice some
e só a luz do poste
é capaz de me fazer ver
os becos que clamam por vida
nessa cidade antiga.

eu gosto de usar trapos velhos
e me sinto bem ao andar pelada
nuinha e desprotegida.

eu gosto de fazer o que não devo
e chorar os revezes posteriores.

eu gosto de sentir a minha passagem pelo mundo.

eu gosto de ver as pessoas me vendo.

eu gosto de comer e de beber muito
e de devolver toda a minha delinquencia
para do vaso sanitário.

eu gosto de andar na rua
quando é noite
e quando os ladrões resolvem atacar.
só para forjar uma aventura,
só para emocionar a minha epiderme flácida.

eu gosto de falar palavra feia:
quanto mais suja, mais gostosa...

cu, buceta e caralho.

e gosto mesmo é de ler um livro
e de "fazer amor até mais tarde"
só para "ter muito sono de manhã"

eu gosto de ver mulher bonita.
e gosto de abraçar homem cheiroso.

eu gosto de caos
e de anjos tocando harpas,
eu não gosto.

eu gosto de escrever
e fingir ser Florbela Espanca.

eu gosto de rabiscar paredes
e de desenhar em papéis reciclados.

eu gosto de um bom vinho
e devo dizer que charutos me atraem.

gosto muito do caetano e da alcione,
mas tenho uma queda pelo som machista
do digão e do jimmy london.

eu não sei falar de politica atual,
mas eu gosto do bakunin
e treparia com o proudhon.

cinema me faz gozar
e sou uma eterna apaixonada
por tarantino, gus van sant e kubric.

não sei sambar,
mas sei admirar.

não sei viver,
mas sei como ninguém
a arte de sonhar.

domingo, 10 de julho de 2011

Eu e meus olhos de criança

Se eu estiver gelada
Vou procurar esquecer descrever
Minha carência de afago
E com todo o esforço
Vou me lembrar de quando a vida era boa
Quando eu passava as tardes atoa
No colo da minha avó,
Nos braços do meu papai
E entre a barra da saia da minha mãe.

Vou incessantemente recordar
De quando o amanhecer era lindo
De quando os cães já não latiam
E o meu despertar era ao som de pássaros
Nos pés de primavera do meu quintal.

Vou procurar regar as imagens
Com agua de flor de laranjeira
Para que permaneçam férteis
Dentro de uma mente que se mudou
E moldou historias e passagens
E miragens
Jamais alcançadas.

Vou acima de tudo
Ser grata pelo dia que me é disposto
Pelo sol me tocando na manhã
E pela noite me convidando a viver.
Leão com ascendente em escorpião
Era tudo que deveria ser
Fogo na terra, sede por intensidade
Vontade de amor
Sina para o suporte alheio.

Vou esperar o dia
Em que as folhas serão verdes denovo
Em que a comida será cheirosa denovo
Em que o banho sirva para me limpar
E não como espaço de tempo para que eu saia a rua
E volte impregnada com as doenças
E as misérias
Que só fui capaz de ver
Quando perdi meus olhos de criança.

sábado, 9 de julho de 2011

Redoma

Por que haveria eu
De amar sem desfalecer,
Perder a alegria...
Já que busco incessantemente

A cãibra,
A cólera
O maldizer.

De que me serviria
O adorno amado
Se não me fizesse descabelar,
Se não me fizesse legar ao mundo
Toda a dor possível...

Imploro apenas por um segundo
Que todos os diabos, juntos
Cantem num coro de mil vozes
O mantra do meu sofrer.

Repito aos céus:
“Deus, desprezo vossa ajuda!”
“Anjos, afastem-se da minha presença!”

E desço ao inferno
Onde tudo é fétido
Onde as impurezas acalentam a planta de meus pés
Onde o enxofre banha a minha alma
E digo:

“Por favor, senhor das trevas
Que me mandes mais apuros,
Mais curvas sinuosas
E que a minha esquerda jamais direita!”

E de joelhos dobrados
Com as maos no asfalto
E a cabeça além,
Reluto:

E recebo o aviso
De que incontestavelmente
No meu dicionario pessoal
Amor se escreve com lama.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

It is a risk to love.
What if it doesn't work out?
Ah, but what if it does.



Peter McWilliams

As amarras

as pessoas não sabem o que significa a vida.
não sabem o quão grande ela é por trás dessas grades invisíveis. não sabem o quanto é lindo aquele olhar para cima, despido, desnudo, pelado. literalmente pelado.
as pessoas não sabem a beleza de se desarmar e amar o maior festerê... armar a comemoração sem motivo, amar a liberdade.

não sabem o gosto de um pé beijado, de uma flor cheirada...
não sabem tragar o desespero e soltar libido pelo ar.

as pessoas me fazem chorar e digo mais: as pessoas me deixam feliz.
os filmes me fazem chorar e digo mais: eles me inspiram.
a vida me faz chorar.

a vida me deixa viva.

quero tocar na vida.
quero agarra-la, quero beija-la e ser parte integrante do universo.
quero todos os lados, quero explosões e sabores diferentes no céu da boca.
quero que todo o céu esteja contido todinho no céu da minha boca.
quero carregar o mundo em mim, mas não nas costas... não com esse peso...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

...

é uma desordem,
uma estrada torta
e curvilínea...

é o fundo do poço,
my brother.

é o fundo do poço...

terça-feira, 5 de julho de 2011

floresce a vida

a fumaça verde adocicou tudo
ficou espessa, sorveu a minha energia
me elevou ao encontro com deus
que usava óculos escuros
e cantava musicas guiadas pelas cordas
da guitarra de Jimi Hendrix.

me deixou na porta da alucinação
me deu uma caneta e um papel
entregou com a colher na minha boca
as sentenças para a criação mais sentimental
brilhante e nada obscura da minha existência.

me fez mamar nas tetas do êxtase
quando minha pressão foi abaixo,
quando Jah me soprou no ouvido
os caminhos que me levariam
ao ouro dos tolos,
ao elixir dos malucos...

essa fumaça capturou o peso dos meus pulmões
deixou eles limpinhos
me flagrou atônita, feliz e delirante

delirando...

delirante...

longe da paranóia que me guia
quando estou de cara
em casa,
na rua,
no ônibus,
na escada...

o farol não era mais vermelho:
ela es-car-la-te.
a palavra me levou a viajar.
o dom da palavra sempre me leva a viagens
hora insanas, hora apenas intensas.

divaguei, divaguei
e nada transformei
para isso apanhei outra purpurina verde
amassei, rasguei toda
e mandei via sedex telepático para dentro.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

someone we can bleed on

pari um filho
que virou música
e me fez chorar
pela segunda vez.

doutor T.

miserável.

uns morros
delineados
no relevo
de uma pele alva.

a pele
mais bonita
que já vi
e toquei.

uma pele alva,
far far away.

domingo, 3 de julho de 2011

"o único motivo razoável para o seu sumiço seria você estar morto."

saúde:
é tudo o que eu não tenho
quando tento te violentar,
quando jogo as coisas pelo ar
do armário para a tua cara larga.

desprezo é o que você tem tentado me doar
sem qualquer sucesso,
sem nenhuma sensatez.

sorvi dez litros de vinho
e vim aqui te dizer
o quanto eu não quero estar
trancada no seu buraco.

vim aqui dizer também
que quero que você suma
e em suma, quero sumir.
que é para não te ver
que é para espantar a Babylon de mim
que é pra tirar isso da cabeça
e "por o resto no lugar."

náusea: é o que você me causa
com essa personalidade mutante
metamorfoseando a minha cabeça
fazendo o meu pescoço cair
cada vez que alguma lamuria
escapa da tua boca
e pinga junto com saliva
na minha testa.

vim aqui dizer também,
que te quero.
porém, com muito pesar...
com muita tristeza
e com extrema alegria
de ter te descoberto ontem
para poder viver
rindo e catando
na minha cidade natal.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

é nóix

na frente dos bares aqui da PUC.

enquanto eu bebia a minha tônica

e fazia meu trabalhinho de politica.

toda fofa.

de meia e chinelo no pé.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

00:04

só perdi.

mas, com gosto.

alias, algumas eu ganhei...

outras eu perdi...

mas todas justas.