segunda-feira, 11 de novembro de 2013

porquê os humanos desconhecidos me dizem tanto



As pessoas que atravessam a rua, com um sanduíche em uma das mãos e uma água de coco na outra. Elas me dizem muito. Seus cabelos grisalhos e os olhos fechados por que o sol está a pino, me dizem muitas coisas sobre pessoas que sofrem e reconhecem meu sofrimento antes de me reconhecer como una. Eles não usam óculos de sol. Também não usam roupas compatíveis com o calor, pois todos estão uniformizados para completarem os espaços vazios de fábricas espalhadas entre quase todas as ruas de São Paulo. Às vezes penso que há mais fábricas nesse mundo do que charretes, por exemplo. Ainda que a exploração dos cavalos seja algo que me corta o coração, acredito que pessoas em charretes sejam mais inofensivas do que pessoas em fábricas. Acredito que os problemas psicológicos de pessoas em charretes sejam mais doces, e, sim, doces! do que os problemas que assolam os trabalhadores em fábricas.

As pessoas me dizem muita coisa, pois sinto saudade do cheiro da minha avó e também da sua simples presença. Não que eu sinta falta da minha avó por sua pessoa, mas pela figura que ela representa. Ter uma avó nos dias de hoje é muita raridade. Não apenas uma avó viva, mas a convivência de uma avó, ou um avô, pessoas com as quais você conversa e ama apenas para se sentir amada. Esse é o motivo pelo qual as pessoas desconhecidas me dizem muito. Pois no ônibus, eu em pé, eu olhava para a rua como quem olha o nada. O homem, que acompanhava sua mãe – que provavelmente também é avó de alguém – tocou com as costas de seus dedos meu seio esquerdo. Ele pediu desculpas como se tivesse realizado o pior disparate desta terra. Eu disse “não foi nada” quando ele se desculpou. Depois, ele desceu para ajudar a senhora a descer do ônibus.

Acho um tremendo absurdo o tamanho das escadas para subir e descer dos ônibus de São Paulo. É quase um metro de altura e os velhos que tomam ônibus diariamente se esforçam muito para subir e descer. Me quedo ainda mais sensibilizada, pois minha avó jamais seria capaz de subir e descer dali.

Quando me pego pensando pensamentos de ódio sobre as pessoas do mundo, até sobre aquelas que mal conheço, esqueço de pensar que as vezes me sensibilizo com elas. Os desabrigados e a travesti drogada que dança no farol da Rebouças me causam uma injeção de amor irreversível. Ao passo que também me causam asco, apenas por possuírem a gênese humana nas veias.


Os seres humanos vivos fedem mais do que qualquer animal morto. E é por isso que humanos desconhecidos me dizem tanto. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

SANT'ANNA, Sérgio "Romeu e Julieta" In: Notas de Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer)






mesmo não havendo leitores, vou propor algo diferente nesse post. para quem for ler esse microconto, peço que dê o play no link abaixo antes de começar. e que só leia o conto número 2 quando a música já estiver tocando.








2


Eles se aproximavam dos sessenta anos e não mais se procuravam na cama. Mas faziam companhia um ao outro e se gostavam, do modo como as pessoas conseguem se gostar nesta idade.

Mas uma noite ele foi até o armário e pegou uma camisa colorida e escolheu sua melhor calça. E depois ela o surpreendeu passando perfume no corpo e penteando com cuidado que restava o que restava do cabelo. Ele saiu dizendo que ia visitar um amigo, mas ela entendeu logo que era caso de mulher.

Deitada, ela se preparou para uma longa espera. Uma hora mais tarde, porém, ele chegou em casa. Jogando-se na cama, acendeu um cigarro e depois outro, olhando fixamente para o teto. Ela o conhecia em todos os gestos e detalhes e soube, desde o primeiro instante, que ele havia falhado. Ela lhe estendeu uma das mãos, que ele apertou com força.

sábado, 19 de outubro de 2013

Captain Kostka's Monologue

I’ve become a different person since I saw my mother beat up another woman. In my hometown, life was tough. I was too young to remember where my father was, or maybe I didn’t really know. In fact I was too young for anything, and this is probably my oldest memory – I’m not sure if it’s this one or the sunny day I played in the backyard, running in circles around small, especially green bushes; sunny days were such rare things back at home. The day I saw my mother beating up that woman was not a sunny one. I’ve become a different person, but the days… It was a day just like this, of surprisingly (even for us, cold creatures of the north) cold weather, with the trees frozen to the last branch and leaf. As a kid, I was afraid that even the sea would freeze over and turn into one great, static piece of dark-blue rock, and that the menacing waves would become gigantic, towering sharp edges of an evil continental-sized crystal. It was little after twilight. Walking outside, holding hands with my mother, we met the woman that my mother and grandmother, who was our neighbor, had been talking about on the morning of that same day.

I’m not exactly talkative, but back then I talked a lot. I remember, I could talk so much and so fast that probably a seller of fish in the market in town would envy my vocal skills. Today, it seems like I’ve lost my breath, and my articulation. I guess I was annoying, but mother wouldn’t mind. She wouldn’t ask me to stop. Tough as life was there and then, she would never be tough to me. That day we were walking together, holding hands, and I was into some sort of childish, rhetorical monologue. Then we stopped. Actually, mother stopped, interrupting my speech, and then I stopped. I remember looking at her and completely absorbing her bad mood, printed on her face. She looked ahead, and I looked with her to the sea beyond every detail, and then the usual fear of freezing came to me. I remember telling mother I was afraid, knowing that she was aware of my fear, many times already declared. She took a while to break her focus and look down at me, because she was looking at the woman, who was coming towards us. I remember her usual, and I reckon that it was at that moment that I absorbed her calm tone, to accompany me through the rest of my life. She said calmly: no, the sea won’t freeze over.

I’ve been a different person since the moment mother said that, let go off my hand, took a few steps ahead and punched the other woman in the face. I had never seen such violence, and as the woman fell down on the street, and mother over her, beating and beating, the dull sound of each falling arch of arm came into harmony with the growing beating of my heart, which eventually seemed about to break out from my chest. Even though mother never asked me to, I stopped talking. I watched it quietly. Now I understand, of course, but the interesting thing is how it composes a memory inside my head, never to fade. Now I know some parts of the sea do freeze over, but here, deep as it is, it can’t do so. You see, I’m not exactly communicative, but I’ve been different. I’ve already had fears, and today I live searching for them. I do not remember this, but probably that day my mother’s hands got just like mine are used to do now. I do not remember much else of her. I guess sometimes mothers can be really tough.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

next

próxima estação
CLÍNICAS
desembarque pelo lado esquerdo do trem

carrego teus pratos
shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

palmeirenses gritam enquanto carrego teus pratos

eventualmente carrego tuas baquetas

eu carregava teus pratos, então

próxima estação
CONSOLAÇÃO
desembarque pelo lado direito do trem

"excursão ao mundo hipster"

próxima estação
TRIANON-MASP
desembarque pelo lado direito do trem

não me diz nada a estação

somente o museu

MASP

vapt
vupt

próxima estação
BRIGADEIRO
desembarque pelo lado direito do trem

meu coração arde e explode

sangue sangue

s
sa
san
sang
sangu
sangue
sangu
sang
san
sa
s

sangue

sangue

próxima estação
PARAÍSO
desembarque pelo lado esquerdo do trem
acesso direto à linha 1, azul

"sheeps go to heaven
goats go to hell"

próxima estação
ANA ROSA
desembarque pelo lado esquerdo do trem
acesso direto à linha 2, verde

rosas são vermelhas

v
ve
ver
verm
verme
vermel
vermelh
vermelha
vermelhas
vermelha
vermelh
vermel
verme
verm
ver
ve
v

violetas são azuis

A
Z
U
I
S

próxima estação
VILA MARIANA
desembarque pelo lado esquerdo do trem

riot

próxima estação
SANTA CRUZ
desembarque pelo lado esquerdo do trem

desci
mas sinto que não

acho que passei do ponto

desde quando meu ponto não é brigadeiro?

terça-feira, 3 de setembro de 2013

no teu rio, meu nome é Srta. Woolf



você me fez leito
e eu, nem em pensamento,
pude desenhar a forma que
desaguaste em mim

pois deixei correr

ainda que muito turvo
deixei passar

desaguaste em mim

a tua miséria

desaguaste em mim

a tua pequenez

                                             de homem


no rio que é você, me fiz Virginia

a tua pedra amarrei em mim
mergulhei

                           e desci

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Leões não transam com Z


Olhando para ti e reparando em nossa conduta temível, percebi que leões fazem amor perdidos numa selva de savana, onde são entronados, numa selva onde o mato aparado parece pelos cerrados. O cenário acaba sendo completamente, ou em grande parte, pubiano. Leões se amam por um corpo enorme sem respiração, feito de terra e mato. Leões transam rugindo, gritando, libertando seus cabelos para fora e descabelando-se pois, de falta de pelo, não morrem jamais.

E, assim, de frio também não morrem.

Eis que olhando para dois leões e olhando a mim mesma e olhando a ti, realcei na vida um espelho que se quebra e não retorna. Vejo que a ferocidade implica em inúmeros rugidos aterrorizantes, assim como o amor constitui-se mediado por muitos gritos sedentos de algo que só amantes compreenderam. Hoje não busco mais a compreensão de mim, para mim mesma, nem de nós, muito menos daqueles que me são estranhos. Não esquisitos, mas estranhos desconhecidos que não me afetam, mas pretendem desfrutar de mim. Estes estranhos não tem educação, não batem na porta e não pedem licença. Tampouco silenciam.

Como eles seduzem-se uns aos outros sem saber, sequer, qual é o único par para cada um? Eles não se importam e ainda afrontam a todos como se fossem unos, pois leões não se reconhecem como indivíduos - apenas como bichos reis, onde fêmeas e machos são criaturas opostas que atraem-se pela força da natureza intocada, pela pele de seres humanos vestidos. Antes, despiamo-nos todos.

Nus.

Até quando a vergonha enfartou a todos como que num golpe genuíno de mestre samurai. Nem espada amolada seria tão certeira quanto a conta que a vergonha e a despretensão nos tomou. E causou a todos nós, que passamos a vestir uns aos outros ao invés de amarmos uns aos todos, como Jesus nos ordena interino.

E no caso do sexo entre leões, as coisas acontecem como no cotidiano ordinário desses felinos. A fêmea logo toma partido de si e de todo mundo, encontra-se voluptuosa, exalando coisas que não se nomeia fora de êxtase. Ela exala. Ela gosta de ser vista enquanto recebe seu macho de corpo inteiro, deitada e pelada. A leoa gosta de ser vista, implora para que todos fiquem satisfeitos através de seu gozo. É a satisfação que penetra pelo olhar, aquela intensa que dispensa o toque. Pois ela não nega nada, nunca.

Entretanto, o leão que não trabalha e apenas prostra-se perante o pai sol, reclama e, rabugento, decide uivar, além de rugir, uivar, além de gemer, para que todos se espantem e interrompam o filme de sua fêmea deleitando-se. Filme não é permitido. Documentário, proibido. Não é autorizado que leões ou humanos desconhecidos apreciem esta transa transcendental. E isso tudo por que, mesmo caçando e alimentando através de seu leite e garras, a leoa ainda é uma reles fêmea. E dessa forma, o leão pede para ser enganado.

Ele implora para que aquela criatura parideira o engane, o tape os olhos contra o mato cerrado.  Implora para que suas unhas entrem na carne dele, sangrando e ardendo e sangrando mais um pouco. E ele se diz rico; se diz tão lindo e tão rico por portar, nos pelos, fios de ouro finíssimos e leves.

Ela só pretende obter reconhecimento por sua força. Ou talvez esta não seja a esfera superior atingida pelos devaneios solitários de uma leoa no cio. Pois ela sempre desejou e sempre desejará a beleza. Ser a mais bela das belezas naturais do mundo. Ela requer apenas o gozo pelo desbunde de uma cena infinita, para que sua mente de caçadora maior descanse.

Dois leões fazendo amor completam uma dança. Ele tenta pela força. Ela dá por que gosta. Eles gemem. Eles até se beijam batendo dentes. Dois leões fazendo amor completam o espetáculo mais intenso que a natureza deste planeta, então dourado, já foi capaz de reproduzir cinquenta vezes ao dia.

50tinha, ou seja, um número modesto para penetrações diárias.

A fêmea copula formosa a cada quinze minutos. E a cada 15 minutos, ganha muito amor em três minutos, às vezes até em dois, ou às vezes num. Mas a leoa deita-se, convida e termina. Quando finaliza, desdobra-se. Estica-se, coça-se no mato para equilibrar energias entre a natureza inanimada e a natureza viva de mais outros leões. Pois os machos preferem uma só fêmea. Quando quem desempenhou o papel de delegar-se a todos os outros machos foi a mulher leão, bicho leoa.

Entidade que geme e grita.

Leões nasceram pelo gemido e através dele morrerão. Leões vivem e falecem pelo amor ao gozo eterno.



Unem-se e jamais separam-se. O trabalho destes é sério e deve ser exercitado com louvor. 

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Foto do projeto mais maravilhoso do mundo:
http://ngm.nationalgeographic.com/serengeti-lion/index.html

domingo, 18 de agosto de 2013

para que não mais me chamem de quente e letrista

e
es
esc
escr
escre
escrev
escreve
escrever

ou não

eis a

questão
questã
quest
ques
que
qu
q

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

coração bebê

ui, que saudade
de sentir saudade
daquilo que hoje
nem me lembro mais

que falta faz a falta
de cortejo, 
assunto que, num lampejo,
envaidece meus seios

nós, todos assim
eu sonhando, eles sonhando
nós dorminhados
empinhocados cima a cima.

e

que amor é esse
que raiva nem sente mais
que espera que levem e tragam
uma boa nova de paz

ui, que vontade de dizer
mamãe, quero mamar
que vontade de soltar o pé
no chão, fazer canção

batendo, batendo, batendo forte
no fundo de um coração bebê

hoje eu disse que acordei
sem amar
(mas é mentira)
só acordei conformada com o rei tempo

e nem foi conformação triste,
daquela que insiste 
mesmo quando não dói
mais

foi conformação de que o tempo
é majestoso
os dias se encarregam de lumiar
meus passos enquanto danço sem dançar

repensar depois do caos
não resolve a devastação
nem fodendo, meu caro
NEM FODENDO

e é por isso que a calma
acalma mesmo as almas mais turvas
mais desgraçadas, desordenadas
doentinhas

minha geração adoece
e só adoece
mas o tempo se arruma
o tempo organiza, anima, desliza

pensar durante o presente
no que se foi,
não faz voltar
só faz morrer

que saudade de sentir saudade
do que já nem me lembro
das casinhas geminadas
do terreno fedido
de quando não se conhecia o que era
homem
mulher

que saudade de não lembrar,
que vontade de apagar.






quinta-feira, 8 de agosto de 2013

"Hoje, sou professor de uma escola secundária em uma das melhores cidades da província, não passo necessidade, sou amado, sou coberto de atenções. Por minha causa, pensei, reuniu-se aqui esta multidão de gente, por minha causa três candelabros foram acesos, o arquidiácono esbraveja, os cantores do coro se esmeram, e também por minha causa se mostra tão jovem, graciosa e radiante essa criatura juvenil que, em poucos minutos, passará a se chamar minha esposa."


Anton Tchekhov, O Professor de Letras no livro O Assassinato e outras Histórias

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Deus caminha triste

"Eles cantam pra você", ele me disse na mesma hora em que enviava o link de "Me deixa em Paz". O Clube da Esquina, eu ouvi. Ele disse que cantavam pra mim, todas aquelas músicas eram cantadas para mim, o Milton, o Lô Borges, de Caetano Veloso até Maysa, ele disse que todos cantavam pra mim. Pois a dor é o que move grande parte da arte e nesse mundo onde há dor por todos os lados. É dor que não acaba mais. É excesso de humanidade, que eu tenho vontade de fazer sumir. E todos eles juntaram-se, numa serenata bem organizada, para cantar ao meu ouvido e esclarecer que, por dor de amor, todo mundo passa. Mas ninguém morre. E precisou meu grande amigo dizer, para que eu acreditasse depois, para que eu vivesse um pouco mais depois.

E isso tudo acontece por que não gosto de abraçar as pessoas. Isso me torna, em certa medida, um ser humano pior do que aqueles que gostam de bons, apertados e demorados abraços. Meus amigos me abraçam e eu tenciono todos os meus músculos. O medo rega meu corpinho, por que me causa agonia aquele monte de braços e pernas e polvos e tantas unhas. Só quem abraço são os cães da rua e meus namorados, pois as pessoas que amo sexualmente me causam uma vontade devastadora de adentrar. Me gosta o fato de mergulhar naqueles que amo. Quero tanto remexer tudo, buscar, devorar os órgãos. 

Meus problemas são oriundos deste motivo: não abraço pessoas. Só cães. 

A pele humana nem é quente, nem peluda, tampouco macia o suficiente para que eu me acalante nela. E presunçosa, sigo nessa instância que acaba por ser ridícula, pois sou uma pessoa a quem outras pessoas querem abraçar. Mas eu não gosto do calor do corpo, a não ser que esse corpo seja o amor da minha vida - mesmo que somente pelo mês 8. E, nessa altura, só o que me bastava seria acreditar na falta de amor do mundo, no sal que jogam em mim, uns aos outros jogam tanto sal. Mas, nessa altura, um amigo informou que Milton Nascimento cantava para mim. Eu ganhei, deitada em minha caverna, um concerto particular das músicas mais lindas do mundo. Por que o amor e existe e, apesar de estar naqueles dias onde nem se sabe mais o que fazer, fui contemplada com uma imensidão de amor. Aquele quente, que preenche até os espaços mais pequeninos. 

Nesse momento, onde perdi um grande amor de abraçar, pensei que fosse perder todos os outros tipos de amores. Mas aqui se ganha e eu quero somar carinho a todos. Pena que os abraços não são bons comigo. Eles não avançam, eu não gosto de abraço, eu não gosto de braço. 

É uma pena grande, ver que feito gado nós andamos por aí, numa linha reta, buscando somente encontrar a felicidade por meio da paixão. A hostilidade da gênese é tanta que tentamos combates por meio de mais frustrações que me farão mais insignificante, menos amante, mais revoltosa do que nunca. A hostilidade nasce a toda hora, no momento de nascer um bebê, ou no momento de nascer uma araucária titânica. Não há o que contestar sobre o grandiosidade da araucária ou a pequenez do meu coração. As coisas são assim por que é divino ser assim. Por que o universo cuidou de fazer, sem pressa, que as coisas chegassem onde chegaram. 

Fizemos a revolução sem saber. Hoje existe coisa demais ocupando pouco espaço. Poderíamos ter mais gentes se hoje tivéssemos menos dinheiros. Poderíamos ter mais água se não fossemos tão sedentos. Pois permanecemos desde sempre no status de queda constante. É assim que ficaremos, até que o sol se esconda de medo e nos falte alimento. E é aí que encontro a solução mais abrupta para todas as dores do mundo: nossa preciosidade é o amor. O amor pelo outro é o que nos faz viver e assemelhar o sofrimento. Solidarizo com quem sofre por que sofro junto. O amor maior é liberdade de deixar seguir enquanto queremos seguir, ao nosso modo mesquinho ou fofinho. O amor consiste na ideia de que Chico Buarque vai cantar pra mim quando eu estiver triste e acoada feito um bicho triste. 

A tristeza não foi Deus quem fez. Fui eu.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

nem vento traz

se me disserem
que fiquei oculta
boto a culpa em quem
não me faz mais cercas

me ocultei como quem
oculta um assassinato
como quem esconde um corpo
depois de um copo e mais um copo
e mais outro

e aqui não digo
que foi você quem me fez
ocultar a mim
e até a nós dois

hoje somos ocultos
não conheço mais
não sei mais das horas,
nem dos dias
nem se fazes ou não fazes

deixar morrer
me faz compreender
assassinar
me faz perder
o pouco de fé
ou o pouco de realismo
ou surrealismo
que ainda havia em mim
quando
me transbordaste
sem pedir para entrar

me encheu
me transbordou

pois eu sim,
deixei a porta
aberta para que a luz entrasse
quando você disse
que traria muita luz
e depois

fechou a porta

nem vento entra mais
(nem pelo buraquinho da fechadura)
nem vento entra,
nem vento traz
novidade




domingo, 4 de agosto de 2013

No alto

para L. A. B.

Sem mais pressa.

Não corro mais atrás dos trens.
Não corro mais com vocês.
Sinto muito.
Não mais.

Preciso ficar, por algum tempo.
Parecem ter certeza enquanto percorrem.
Traça-se rumos,
e muitos atalhos.
Rápidos, vocês vão
porque o tempo é pouco.
(mesmo)
Mas, sinto muito,
Eu não.
É porque o tempo é pouco
que choramos na despedida?

Mas eu aprendi a esticá-lo.
Dobro-o.
Primeiro, apenas fico, melhor observo,
respiro,
sinto,
e aos poucos, meço.
Começo o novo.

Não me veem nem verão.
É rápido o trem que rasga as montanhas e até
sob água faz-se ecoar
num túnel.
Mas também chegarei lá. Eu não preciso do trem.

Eu vou voar.

domingo, 28 de julho de 2013

botei no cu dos astros

é tempo para um poema
das pequenas coisas
que continuam fora do lugar

é tempo de botar o pé pra fora
e se acostumar
que sair de casa
agora é destino

o vento ocupa a cama
onde você costumava se deitar
comigo
eu e você, a sós

não me importo mais
com a janela aberta
pois nossos filhos
hoje são aborto

eu, que sou tão infantil
pensei que seria capaz de engravidar
pensei que seria bonito
crianças loiras
tão nossas


(leoninos são muito leais)


eu, que sou tão infantil
pensei que esquecer você seria fácil
mas no Brasil,
as pessoas não transam

ou talvez elas enxerguem
meus chifres
tão pesados de carregar

você me enfeitou
com chifres
agora sou uma vaca
vagabunda, como sou

espero que depois do meu inferno astral
as pessoas descubram que transar é bom
por que hoje, quem não me permite isso são os astros.

tenho fé.

boto no cu do astro.





domingo, 14 de julho de 2013

Cerâmica

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
ela nos espia do aparador.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 12 de julho de 2013

recorte #1

na minha casa não se espera muitos dias de paz. no meu recanto os dias de calmaria são dias de palacete. lá, os momentos de azul ficaram ainda mais raros depois que te conheci, pois desde a primeira vez que tirei tua camisa, não me esqueci de tuas costas manchadas com pintas grandes e mais várias pintinhas pequenas. ontem fui ao mercado e trombei com um rapaz parecido contigo. ao pensar que era você, meu coração parou e senti meus braço s despencando até o chão. meu corpo gelou inteiro, mas aquele cara não tinha a tua elegância. era melhor mesmo não ser você. não quero romper com todas as minhas convicções por culpa de um homem polido. penso em encontrar-te todos os dias e teu rosto é presença recorrente em meus sonhos - no último, você deitado numa cama desarrumada de chalé, de camisa verde entreaberta, me chamava através de um sinal com as mãos. me sentei ao teu lado te beijei carinhosa. é difícil acordar. minhas calcinhas transbordam. não quero demolir meus princípios em detrimento da tua educação. mas as situações andam fugindo das minhas percepções. há de haver um homem para toda princesa. 

sábado, 29 de junho de 2013

Ale-Alejandra

Sabe... aeroporto é assim. Todo mundo corre ansioso, ninguém olha pros lados e a tensão se aloja no ambiente como se fosse mero oxigênio. 

Não foi possível saber o nome dela. 

Ainda assim, me lembro bem de como estava cercada por um careca feio - que, de minuto a minuto, olhava para todos os lados como quem não quer dividir a beleza daquela moça. Me recordo profundamente de seus olhos esbugalhados e tão caídos - dele, não dela. Era um cara feio demais para a minha princesa. Um desperdício que me fazia triste e oco, pois, apesar de tanto cabelo, eu não tinha a preciosa chilena dos meus olhos por perto. Sortudo mesmo era aquele calvo barrigudo. 

Fui assaltado numa loja da Dunkin Donuts - 12,70 por um donut e um café com leite pequeno -e, enquanto meus pés congelavam dentro de meia de lã e uma bota de couro, li pedaços do livro "10 passos para abrir uma grande empresa", e, por muito tempo, preferi olhar para o meu amor latino do que fazer qualquer coisa que não fosse olhar para meu amor latino.

Enquanto aguardava meu voo, já num estado enfadonho deplorável, quase desacreditado da vida e, pior, quase pedindo para que meu avião se espatifasse no chão assim que decolasse, eu tentava adivinhar seu nome. Buscava dar nomes de realeza a ela, mas aí voltava para a realidade leprosa onde eu encontrava, pisava firme no chão e pensava em nomes palpáveis e mais ordinários do que Irina Laureen (que nem seria nome para uma latina da gema, a não ser que seu pai fosse um americano/inglês mais da gema ainda). Qualquer nome não seria nome para ela, mas seria. Minha beleza de cabelos acobreados e olhinhos verdes. 

Comecei a pensar em nomes de origem quente, pensados enquanto se olhar o mar de Vina del Mar. Por que eramos latinos e por que ela parecia latina. Por que estávamos indo para Santiago, assim que a assistente gostosa e caolha da LAN nos permitisse. 

Nove letras galopantes saltando de meu cérebro e quase saindo de minha boca. A-L-E-J-A-N-D-R-A. Foi o nome digno que consegui inventar para a minha rainha mapuche. Uma mapuche bonita, linda, maravilhosa, que só era mapuche (um povo chileno desgraçadamente feio) por que vinha do Chile, ou o pedaço da Europa na América do Sul.

Meu estomago se encolhia e apenas se encolhia cada vez que meu olhar atravessava minhas lentes escuras para encontra-la nos braços daquele homem asqueroso. Não era possível uma princesa estar acompanhada de um ogro e, ao mesmo tempo, estar feliz. 

Ale-alejandra não sorria.

Eu era um valente de terno e gravata, mas sem coragem nenhuma. Era como não vestir cuecas.

(...)

Hoje, depois de uma semana de volta a São Paulo, encontrei minha rainha chilena no ônibus  Não era ela, mas era quase. 

Gosto de inventar vida para pessoas no busum. Essa era estudante de medicina na USP, pois desceu no ponto das Clínicas, na Doutor Arnaldo. Ela tinha quase tudo aquilo que Alejandra tinha, menos sua realeza.

Pensei em pega-la pelo braço e fazer dela a minha mulher dos sonhos, mas... não. 

Sonhos são perfeitos, seres humanos, não.

terça-feira, 25 de junho de 2013

anotação radioativa

Escrevo em dois lugares. Neste blog e no meu caderno de folhas amareladas.
Coisas do blog vão para o caderno as vezes, mas nada do caderno vem para o blog. Nunca.

Hoje um escrito do caderno veio parar aqui. Um escrito que sangra, mas que parece poesia concreta dadá byroniana. Ou não. Ou talvez eu esteja somente sendo presunçosa.

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shame on me
"você é tão jovem e bonita,
não deveria fumar"
foda-se
shame on me
foda-se

primeiro eu aprendi a chorar escondida
depois eu aprendi que chorar escondida é uma bosta
dói pra caralho, é uma bosta.

depois eu descobri que as pessoas precisam de mim,
mas não confiam em mim.
shame neles.

as vezes um cigarro é tudo o que me resta,
mas na maioria das vezes, um cigarro é só o que me resta.


domingo, 16 de junho de 2013

História de amor número 17

de Daniel Pellizzari, publicado no livro Ovelhas que voam se perdem no céu.

A rua ainda estava cheia de água quando ele saiu para comprar o presente. Na primeira esquina em que parou o carro uma pedinte apareceu na janela com uma criança no colo. Abriu a carteira, tirou duas notas e disse Eu compro. A mulher pegou o dinheiro e entregou o bebê. Ele o acomodou no colo de modo que ainda pudesse dirigir e voltou pra casa.
Deu um banho na criança para tirar a sujeira da rua. Esfregou bem cada dobrinha, sem usar sabonete. Seguiu para a cozinha e o colocou sobre a mesa. Pegou na gaveta o martelo de bater carne e deu um só golpe entre os olhos. O crânio ainda macio se esfacelou e um pouco dos miolos se espalhou pela mesa. O que ainda sobrava retirou com uma colher e colocou em uma vasilha. Pegou a faca e abriu a barriga. Tirou as tripas tendo o cuidado de reservar o fígado, e o resto guardou para os cachorros.
Foi até a churrasqueira e preparou o fogo. Voltou, salgou a carne e a enfiou inteira no espeto duplo. Nos que sobraram espetou também cebolas e alguns tomates. Colocou tudo para assar e voltou à cozinha para preparar a sobremesa. Pegou a vasilha com miolos e colocou no liquidificador. Misturou com o pó de gelatina instantânea, colocou em uma panela e depois de pronto deixou na geladeira para ficar firme.
Os tomates e as cebolas acabaram queimando. Jogou fora e fez uma salada endívias enquanto a carne terminava de assar. Picou o fígado em pedacinhos, temperou com alho, sal e pimenta, adicionou salsa e azeitonas e fez uma farofa na manteiga. Preparou a mesa de jantar com os talheres de prata e os candelabros.
Tudo pronto, abriu o vinho, colocou a carne na travessa e depois na mesa, acendeu as velas, sentou na poltrona da sala e ficou no escuro esperando ela chegar. No horário de sempre a porta se abriu e ela entrou segurando o guarda-chuva. Ela a pegou pela mão e a levou até a sala de jantar.
Ele disse Feliz aniversário querida, e sorriu. Ela olhou para a mesa posta, balançou a cabeça, resmungou Porra você é mesmo grosso onde já se viu churrasco à luz de velas e com talheres de prata seu imbecil, esfregou as mãos e saiu direto para a cama do quarto.
Olhando para o chão, ele foi até a cozinha, abriu a geladeira e jogou a sobremesa no lixo. Naquela noite, mais uma vez, dormiu no sofá.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sobre a égide da paixão perdida


Entre tantas, me perdi no seu infinito. O que me resta é só isso, um coração dolorido. Mais perdido do que tudo, poderia citá-las, mas viraram poesias.

O antagônico dessa solidão, não tem par, nem sequer rima com essa tal de paixão. Só vive em pensamento... e o real não dá retorno.

As fugazes tentativas geraram retornos perdidos. Perdi tantas paixões que não escolhi, e perdi tantas outras nas quais apostei.  E o tempo não volta, segue em frente, e me pergunto quantas paixões terei que perder?  Sou eu ou você?

E quando vem a razão, essa que some nas melhores condições, é mártir. Mas quando se parte dela, há confusão, no sentir.

Se sou sincero, explosão. Se tímido, falta ação. Quem diria que dessa relação haveria meio termo?
Se os corações choram, é porque a paixão a protege.

E mal sabem elas, no plural mesmo.
Que o encontro, não é realização é possibilidade.

Romper a égide, para o encontro, era só o que queria.


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Daniel Rocha

terça-feira, 21 de maio de 2013

capote valente

o busum demora a passar
acendo um cigarro
e depois outro.

mais outro.

bartira
sumaré
capote valente
(é perto do seu trampo)
doutor arnaldo
angélica
gélida

a dor insiste.

homem tomando enquadro.

e o busum demora a passar.

e como eu queria que deus existisse
e que essa fosse minha preocupação mais importante.

dizer tchau a você é uma foda mal dada,
uma gozada interrompida,
um macarrão frio,
inverno sem cobertor,
inferno sem dor.

ver tudo tornar desgraça,
decepção e angústia.

viver a procura da porra da cura
que não existe, não tem remédio.

homeopatia que me valha é maconha.

nesse planeta é só podridão a existir,
pois nascemos da falta de escrúpulos,
vemos vídeos pornográficos,
gente comendo gente,
estocando sem piedade.

nascemos disso e como dói tentar sair...

viveremos presos a essa condição de bichos escrotos para sempre?

viveremos até quando morrendo por amor?

eu não sei dizer adeus,
eu não sei dizer oi,
eu me pego fitando o passado
almejando um futuro
buscando em outros o que você não pôde me dar.

agora, nesse instante, a culpa é de quem?

minha, que te dei minha autonomia

ou

sua, que preferiu a indecência das ruivas?

nesse momento vivo numa caixa de sapatos
apertada e escura,
onde sair dói,
o sol faz frio
o sol me mata

o sol vai tomar no cu.

nesse momento continuo buscando explicações
até o dia em que tudo vai virar


novamente


novamente


novamente

pó.