quinta-feira, 5 de abril de 2012

Mestre

Álvaro de Campos

Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nessa forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem
de nada,
Alma abstrata e visual até o ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre
múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva...

Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionalista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas do ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de
mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem
perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia
involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua
serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te
ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao
relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.

Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro
nem ninguém.
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver
clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia
respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia
que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a
nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de
sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre
aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser
humano!

Feliz o homem maçano
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve
ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é
dormir.

Sonho

Surgimos das cinzas de um mundo perdido, há muito abandonado pelos seres viventes, mas éramos viventes. Surgimos numa erupção pontual, nus, vulneráveis, e armados.

Nascemos simplesmente, mãos que buscavam o ponto mais alto, a maçã rubra, muito rubra. Não alcançamos o pico das macieiras. O mundo vivente nos venceu. Por séculos, nos vencia todo dia. Todos os dias a derrota.

Depois da última batalha, feita com todas as últimas forças estendidas ao máximo, caímos. E caindo, no calor da batalha, que é derrota para todos, conseguimos atingir poucos inimigos. Golpes à sorte. E ele, no meio do campo, foi perfurado pela lâmina quente e fria da vida e da morte. Nos agarrei, segurei-o comigo, ambos caímos na escuridão, e só eu respirava.

Caímos, mas no fim da queda, no vale mais profundo de todas as sombras, quando nos estacamos no chão, atravessou. Atravessou a pedra, para cair muito mais, mais que as rochas, as jóias e os rios subterrâneos, para além dos fósseis, dos ossos daqueles que caíram antes de nós, para além do fogo máximo, para os Elísios, o Tártaro, o além de tudo. Em direção ao Não. Ao escuro da ausência da razão e para além de todas as loucuras. Além do tempo, do espaço e da matéria.
Eu, que fiquei, fiquei talvez para me levantar.

H.G.S.