segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Ana, eu não gosto mais de você.

Sempre que Ana vinha com aquelas perguntas descaradamente cretinas eu pensava se ela, por um lapso de segundo qualquer, poderia se dar conta do quanto eu detestava seus interesses nada relevantes. Eu já não sabia mais se ela era relevante na minha vida, mas eu tinha uma ânsia quase jocosa quando ele me perguntava “esquerda ou direita”, “embaixo ou em cima”, “azul ou amarelo”.

Ana, saiba que nada disso importa. Meu signo não muda o fato de eu gostar de meter em você por trás... Minha camiseta de listras vermelhas não quer dizer que eu penso em te agradar ou ficar bonito para uma noite no cinema: é só mais uma noite de merda em que eu vou assistir algum filme estúpido, de qualidade duvidosa, para que você não chore pitangas demais no meu colarinho...

[Ana, eu não penso em nada. Nem em você.]

Ela queria saber a todo momento como eu passei o almoço de domingo ao lado da minha família. Queria saber se meu cachorro Brutus havia melhorado da doença no fígado,

{uma vez que nem eu, que era o dono daquele maldito labrador, lembrava que ele estava com hepatite, cirrose, sei lá}

ficava me perguntando se minha mãe já tinha entrado de férias – por que ela estava cansada, “falei com ela outro dia, Diogo. Ela disse que estava muito cansada. A Diana não anda fazendo o serviço direito em casa e as aulas na escola estão cada vez mais exaustivas. Me disse até que está pensando em passar um tempo naquele spa da Barra, que seu pai ficou nas férias passadas”.

O defeito de Ana era pensar que nos casaríamos.

Imagine se eu, no auto dos meus vinte anos, teria coragem de pensar em me casar com aquela garota que prestava vestibular e me deixava maluco dizendo que “morre se não entrar na Federal do Rio”...

Nunca pensei nisso.

Mas Ana pensava demais.

Não me deixava beber, nem fumar maconha enquanto surfava com os meus amigos. A transparência era uma qualidade totalmente afetada na nossa relação, por que ela me sufocava e as vezes eu queria matá-la. Tinha preguiça até de trepar com ela, por que sabia que depois de gozar, ao invés de deitar a bunda na cama e tirar um cochilo, ela ia querer me falar sobre amor e sobre como será a nossa vida depois que ela se mudasse de Niterói. Era um bombardeio cruel e, na verdade, eu poderia amar Ana.

Mas ela não me dava tempo para isso.

Durante todos os momentos em que eu pensava em amá-la (somente amá-la), nada menos sincero que isso, ela me vinha com indagações inúteis. Qual era o sentido em levar minha paciência até Júpiter só por que eu queria fazer um campeonato de quem goleava com a camisa do Flamengo no FIFA e arrotava mais alto com os meus amigos?

[Nunca proibi que ela fosse com aquela gangue de putas mirins no shopping comprar aqueles vestidinhos justos de vagabunda. Nunca impedi que ela passasse o dia a água e alface enquanto eu queria comer carne feito um pré-histórico.]

Ela tinha um sentimento de posse sobre mim. Me tratava feito um moleque de cuecas cagadas enquanto eu só era um moleque que pensou que ela fosse uma menina interessante.

Ana cresceu tão rápido quanto seus peitos, e, apesar de me culpar por isso, a culpa não era minha.

sábado, 28 de janeiro de 2012

muda/mundo/mudo

uma garganta apertada

que provém

não sei do que

e termina

não sei onde.

mundo

[mudo]

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O segundo sexo

“(…) a lei ou os costumes impõem-lhe o casamento, proíbem as medidas anticoncepcionais, o aborto e o divórcio. São exatamente essas velhas coações do patriarcado que a URSS ressuscitou; reavivou teorias paternalistas do casamento; e com isso foi levada a pedir novamente à mulher que se torne objeto erótico: um discurso recente convidava as cidadãs soviéticas a cuidarem dos vestidos, a usarem maquilagem, a se mostrarem faceiras para reter seus maridos e incentivar-lhes o desejo. É impossível, vê-se por esse exemplo, encarar a mulher unicamente como força produtora; ela é para o homem uma parceira sexual, uma reprodutora, um objeto erótico, um Outro através do qual ele busca a si próprio.”

Simone de Beauvoir – O segundo sexo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

DOORS PARA NÃO MORRER

indian summer

é a coisa que se escuta

com os sentidos aguçados

depois de dar um pito

sem lagrimas nos olhos,

mas com motivos para chorar.

enquanto sente o cérebro chapado

estatelado

olhando os pés

com aquelas malditas meias coloridas

que só se usa debaixo das asas dos pais.

sem uísque

sem larica

{sem porra nenhuma}

ouvindo

{cabeça no travesseiro, mão na nuca}

indian summer e só.

- de uma piração transcendente, meio mutante, meio esquizofrênica, meio entorpecente.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

D.E.S.O.R.D.E.M.

eu nasci

desordem.

respirei

até hoje

desordenada.

caguei no mundo,

trepei no mato,

me lasquei

e morri

desordem.

me fodi.

me foderam.

me perdi.

desordenada.

caótica.

fedendo

comendo

o cu do diabo.

amei todos os dias

todos os qualqueres

vulgares

perebentos

por que não valho

uma gota

de chuva

quiçá

de mijo.

lixo desumano

escoria desordenada

fracasso diariamente.

e minto

desordenadamente.

e minto

emito

e pinto

omito

(buceta)

minto.

me fode

forte.

transo

e transbordo.

27/02/1993 00:56

O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio.

Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? Parece que seu único ato é a Violência. São bons nisso. Realmente florescem. Flores de merda, emporcalhando nossas chances. O problema é que tenho que continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles me causem horror. E horror é uma gentileza.

Mas eles pisoteiam a minha consciência com seu fracasso em áreas vitais. Por exemplo, todos os dias, volto do hipódromo apertando o rádio em diferentes estações, procurando música, música decente. Tudo é ruim, insípido, sem vida, sem melodia, indiferente. Mesmo assim, algumas dessas composições são vendidas aos milhões e seus criadores se consideram verdadeiros Artistas. É horrível, uma idiotice terrível entrando em jovens cabeças. Eles gostam disso. Cristo, dê merda a eles, e eles comem. Não conseguem discernir? Não conseguem ouvir? Não sentem a diluição, o mofo?

Não posso acreditar que não haja nada. Continuo tentando novas rádios. Meu carro tem menos de um ano, mas a tinta preta do botão que aperto já está totalmente gasta. Agora o botão está branco, marfim, olhando pra mim.

Bem, é, existe a música clássica. Tenho que me acostumar com isso. Mas sei que ela vai sempre estar lá para mim. Escuto isso de três a quatro horas por noite. Mas ainda continuo procurando outro tipo de música. Só que não existe. Deveria existir. Isso me perturba. Escamotearam toda uma outra área. Pense em todas as pessoas vivas que nunca ouviram música decente. Não se admira que seus rostos estejam caindo, não se admira que matem sem pensar, não se admira que esteja faltando o coração.

Bem, o que é que eu posso fazer? Nada.
Os filmes são tão ruins quanto a música. Você ouve ou lê a crítica. Um grande filme, dizem. E daí saio para ver o tal filme. E sento lá me sentindo um grande idiota, me sentindo roubado, enganado. Posso adivinhar a próxima cena antes de acontecer. E os motivos óbvios dos personagens, o que os move, o que desejam, o que é importante para eles é tão infantil e patético, tão enfadonho e grosseiro. As partes românticas são irritantes, velhas, bobagens preciosistas.

Acho que a maioria das pessoas vê filmes demais. E, com certeza, os críticos. Quando dizem que um filme é ótimo, querem dizer que é ótimo em relação aos outros filmes que viram. Perderam a visão geral. São martelados cada vez com mais filmes novos. Simplesmente não sabem, estão perdidos no meio daquilo. Esqueceram o que é realmente ruim, que é a maior parte do que assistem.
E não vamos nem falar em televisão.

E como escritor... será que sou ruim? Bem. Como escritor, é difícil ler o que os outros escrevem. Não me bate. Pra começar, não sabem como colocar uma linha, um parágrafo. Só de olhar o texto impresso à distância já parece chato. Não tem ritmo. Não tem nada de emocionante ou novo. Não tem jogo, fogo, gás. O que estão fazendo? Parece ser trabalho pesado. Não se admira que a maioria dos escritores diga que escrever é doloroso. Eu entendo isso.

Algumas vezes com meu texto, quando não foi extraordinário, tentei outras coisas. Derramei vinho nas páginas, acendi um fósforo e queimei buracos nelas. "O que você está FAZENDO aí? Sinto cheiro de fumaça!"
"Tudo bem, querida, está tudo bem..."
Uma vez meu cesto de lixo pegou fogo e o levei correndo para a varanda e derramei cerveja nele.

Para eu escrever, gosto de assistir a lutas de box, ver como o jab é usado, o direto de direita, o gancho de esquerda, o uppercut, o counter punch. Gosto de vê-los lutar, sair da tela. Existe algo a ser aplicado à arte de escrever, à maneira de escrever. Você só tem uma chance, que logo desaparece. Só sobram páginas, e você pode queimá-las, se quiser.

Música clássica, charutos, o computador faz o texto dançar, gritar, rir. O pesadelo da vida também ajuda.
Todos os dias, quando entro no hipódromo, sei que estou mandando minhas horas à merda. Mas ainda tenho a noite. O que os outros escritores fazem? Ficam na frente do espelho e examinam os lóbulos da orelha? E então escrevem sobre eles. Ou sobre suas mães. Ou como Salvar o Mundo. Bem, podiam me poupar não escrevendo esse troço chato. Essa bobagem sem energia e murcha. Pare! Pare! Pare! Preciso ler alguma coisa. Será que não há nada para ler? Acho que não. Se você achar, me conte. Não, não faça isso. Eu sei: você escreveu. Esquece. Vai dar uma cagada.

Lembro de uma carta longa e furiosa que recebi um dia de um cara que me disse que eu não tinha o direito de dizer que não gostava de Shakespeare. Muitos jovens iam acreditar em mim e não se dariam ao trabalho de ler Shakespeare. Eu não tinha o direito de tomar essa posição. E assim por diante. Não respondi na época. Mas vou responder agora.

Vá se foder, colega. E eu não gosto também de Tolstói!

Charles Bukowski.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

CAS 288.

"(...) Recordando essas coisas enquanto preparava o baú de José Arcádio, Úrsula se perguntava se não era preferível deitar de uma vez na sepultura e que jogassem terra em cima, e perguntava a Deus, sem medo, se de verdade achava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantos padecimentos e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando sua própria confusão, e sentia uns desejos irreprimíveis de desandar a dizer palavrões e xingamentos como se fosse um daqueles forasteiros, e de se permitir enfim um instante de rebeldia, o instante tantas vezes ansiado e tantas vezes adiado de mandar a resignação à merda, e cagar de uma vez para tudo, e arrancar do coração os infinitos montões de palavrões que tinha precisado engolir num século inteiro de conformismo.
- Caralho! - gritou.

(...)"

Gabriel García Márquez

24/08/1992 00:28

"(...)
Ou talvez a morte esteja me mandando alguns sinais?

Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim. Há o mundo continuando a fazer o que faz. E eu não estou lá. Muito estranho. Penso no caminhão do lixo passando e levando o lixo e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível. E, pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser verdadeiramente descoberto. E todos aqueles que tinham medo de mim ou que me odiavam quando eu estava vivo vão subitamente me aceitar. Minhas palavras vão estar em todos os lugares. Vão se formar clubes e sociedades. Será nojento. Será feito um filme sobre a minha vida. Me farão muito mais corajoso e talentoso do que sou. Muito mais. Será suficiente para fazer os deuses vomitarem. A raça humana exagera tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância.

Os filhos da puta. É isso aí, me sinto melhor. Maldita raça humana. É isso aí, me sinto melhor.
(...)"

Charles Bukowski

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

morte

Uma curva é nada

Várias curvas são uma serra

A serra e um cabo

É uma faca.


Uma faca

Mata.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sur l'Etat: Cours au Collège de France, 1989-1992 (fragmento)

Mas as sondagens podem ser incomodas: às vezes, enquanto a opinião esclarecida é contra a pena de morte, as pesquisas revelam que a maioria é a favor. O que fazer? Formar uma comissão. A comissão transforma a opinião publica e, por tanto, legitima - embora muitas vezes diga o contrario ou não tenha de fato uma opinião sobre o assunto (caso de muitos temas). Uma das características das pesquisas é apresentar problemas hipotéticos às pessoas e induzir respostas a questões inexistentes - ou seja, impor respostas. Não se trata de discutir a maneira usada para constituir a amostragem, e sim o fato de que as questões da opinião esclarecida, nem sempre existentes em outras instancias, são difundidas em outros meios para produzir respostas de todos sobre problemas que se apresentam apenas para alguns: questões que não existiam para as pessoas passam a existir a partir do momento em que essas pessoas são interpeladas a responde-las como se de fato fossem questões suas, essa é a questão.

Pierre Bourdieu

sábado, 14 de janeiro de 2012

A caminhada cinzenta dos imperadores

Numa planície cinza, cheia de névoa, cuja localização ninguém sabe, uma multidão caminhava. Sob um céu negro sem estrelas, como um exército de trilhões, eles andavam. Não marchavam. Um exército de reis.


Todos os reis traziam em suas mãos as próprias armas. Espadas, lanças, clavas e machados. Suas armaduras e escudos. Alguns com lâminas mais afiadas, alguns de armadura mais resistente. Alguns poucos tinham um maior brilho próprio do que o resto da multidão, e guiavam o resto. Erguiam suas bandeiras, cantavam e continuavam o caminho.


A imensa maioria dos imperadores sentia cansaço. Cada um sabia quanto pesava sua coroa. A coroa representava tudo aquilo que aquele ser dominava, e tudo aquilo que já havia vivido. Aquela enorme jornada estava incrustada nas veias de ouro e prata do símbolo real.


Alguns sentiam seu reino tão pesado sobre a cabeça, sobre os ombros, que desistiam da jornada, e cortavam suas gargantas com suas próprias armas. Caídos sobre a grama branca da planície lúgubre, não seriam carregados. Tinham de ser deixados para trás. Seus corpos eram decompostos e só sobravam suas vestes e ossos, e então veria-se que a coroa do defunto, mesmo que forjada do mais estável ouro, também havia sido transformada em pó com a putrefação.


Mas os que suportavam o peso de seus adornos, continuavam andando. Alguns deles até pensando quase sempre em, do mesmo modo que alguns companheiros, dar-se um fim. Pensavam alguns - não, na verdade, pensavam todos que não havia sentido nenhum em tudo aquilo.


E como pesavam suas coroas. Alguns largavam suas espadas e caiam de joelhos no chão. Nenhum deles estava sentado num trono, governando sem esforço, de um jeito ou de outro. Caiam no chão, ofegantes, tentando recuperar as forças. Depois, quase sempre, se levantavam e seguiam.


Para eles, a caminhada parecia longa, mas sabiam que, perto de todas as coisas existentes além da planície, ela era ínfima. E pesava. Uma multidão de reis caminhava, mas eles não caminhavam para uma grande batalha final, ou de volta a seus reinos, ou mesmo para um destino de imigração. Eles caminhavam diretamente para um grande abismo, mais negro que os céus, infinito, indolor, preenchido por esquecimento.


H.G.S.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

o velho leon e natália em coyoacán

desta vez não vai ter neve como em petrogrado
aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado
aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em
petrogrado aquele dia
silencio nos dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado
aquele dia
nada como um dia indo atras de outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

Paulo Leminski

Introdução de O Estrangeiro, Albert Camus

Tudo é permitido, visto que Deus não existe e visto que se morre. Todas as experiências são equivalentes; convém somente adquirir a maior quantidade possível delas.

Jean-Paul Sartre

sábado, 7 de janeiro de 2012

Por Deus! Como odeio suas unhas...

Deus sabia o quanto eu detestava aquelas unhas vermelhas. Sabe o quanto eu achava insultante que uma garota como ela pintasse aquelas unhas como se fosse uma biscate – unhas roídas, além de tudo. Alem de ser coisa de puta sem vergonha, ela fazia questão de roe-las para que eu me lembrasse a todo momento que tinha apenas dezessete maus vividos anos.

Eu me culpava. Que tipo de homem era eu que tentava comer minha prima de dezessete anos? Que tipo de filho da puta tentava roubar a única preciosidade da vida do meu tio viúvo? Pensava a todo momento enquanto olhava as nádegas marejarem-se da esquerda para a direita fazendo meus olhos encherem-se dos sentimentos mais aputrefados que um homem poderia ter.

Puta que pariu, minha mãe não pode saber disso. Tio Roberto, se souber, me mata. Devo a vida a ele. Me inscreveu no vestibular da USP para geografia,

[naqueles anos em que uma carreira era só uma questão de habito. Naqueles anos quando meu sakete era o que me fazia ser rebelde, pichador Robin-Hood]

me deu emprego no cursinho do qual era coordenador. Me ensinou que eu deveria ser doutor.

Agora eu estava para defender meu doutorado e dava aulas de Geologia II numa universidade renomada onde os alunos (otários) pagavam dois mil e quinhentos paus na mensalidade.

Graças ao pai da menina que eu desejava [incessantemente] foder.

Faria todas as misérias do mundo com o corpo magricela de Clara. Ela não tinha o estereotipo de mulher que me encantaria, mas era Clara.

[Clarinha... como odeio suas unhas de dinossaura, bebe!]

A mesma que carreguei no colo enquanto estava com o corpo fendendo a maconha. Vinte anos eu tinha. E ainda era apaixonado pela Gabriela. Nunca imaginei que pudesse ter uma ereção ao ver Clara nadar naquele piscina maravilhosa da casa do Tio Roberto. Ainda mais com minha filha no colo, ali, recém nascida.

Será que algum dia vão querer comer minha filha? Serão todos tão imundos quanto eu?

Clara, não sei... mas se você quiser aprender sobre o relevo do corpo masculino, estarei aqui, frente a você.

Rígido.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Além do bem e do mal

A fé cristã é sacrifício desde o principio: sacrifício de toda liberdade, de todo orgulho, de toda autoconfiança do espirito; ao mesmo tempo, servilização e auto-escarnio, automutilação. Há crueldade e fenicismo religioso nessa fé que é exigida de uma consciência domada, múltipla e mal acostumada: sua precondição é que a submissão do espirito doa indescritivelmente, que todo passado e habito de semelhante espirito se defendam de todo absurdismo que a "fé" representa para ele.

Friedrich Nietzsche

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

23/06/92

"As horas devem ser mortas. Enquanto você está esperando. As horas perfeitas são as que passo nesta máquina. Mas você tem que ter horas imperfeitas para ter as perfeitas. Você tem que matar dez horas para que duas vivam. O que você tem que cuidar é para não matar TODAS as horas, TODOS os anos."

Charles Bukowski

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Na casa do caralho. Ou no cu do mundo.

O mundo é grande.

O mundo é vasto.

O mundo

é

imundo.

A velha com os pés rachados sabe que o mundo é o que aparenta. Sabe que ele é nada menos do que deveria ser e que suas escaras não significam nada para ninguém. A vendedora da loja – com uma deplorável cara de mal comida, mal gozada e mal amada – que exclama a síntese banal “Boa tarde! Já tem o cartão C&A?” não sabe que a velha sofre. Não imagina que o maior desejo dela é que enfie o cartão no cu. Ela não se interessa por nada, só pelo feijão que esta prestes a queimar no fogo alto, pois seu neto de onze anos fica ali parado derramando sorvete na bermuda que, mais tarde, será lavada pela mesma velha. “Esse moleque é um otário, um bostinha que não serve pra nada”, pensa.

Ela está puta.

Odeia as menininhas que caminham pelo shopping center com suas saias disfarçadas de armadilhas sexuais. Ela odeia o estacionamento e os carros importados que ficam parados ali. Odeia saber que precisa viver, pois sua fé não permite que coloque fim na própria vida.

As pessoas são um mar de escrotidão.

[uma punheta mal batida]

As pessoas querem foder umas as outras como se o amanhã fosse uma bomba nuclear a estourar debaixo dos colchões. Desejam foder intensamente como se a conseqüência fosse passageira ou inexistente.

Filistram num aterro adornado com corações abatidos suas hipocrisias e descontentamentos.

No mundo só existem peruas plastificadas trepando com michês ignorantes enquanto seus maridos comem a secretaria

[mãe de quatro filhos, que precisa de um emprego]

[filhos engolindo a porra de estranhos. Sorrindo.]

.

Matei uma formiga no caminho de volta para a casa. Enxerguei ela de longe por que estava usando meus detestáveis e incômodos óculos. Sabia que a mataria e o fiz mesmo assim. Foda-se a merda da formiga. Ela é tão pequena quanto eu.

[mais fácil de ser matada.]

Enquanto não percebem a minha pequenez, tentam me assassinar aos poucos.

Uma dose por dia.

Eu escolhi matar de vez aquela formiga imbecil. Não senti pena, sequer ternura ou apreço por aquele bicho trabalhador. Sou um trator ambulante andando num mato cheio de

sapos, bosta de cavalo, chorume, água suja, mijo e camisinha de cu comido.

Minha vida continuou a desgraça constante que é, assim como é a vida de meu pai e de meus amigos que foram criados por baixo da lona de um circo chamado cristianismo. Nós estamos todos nesse buraco de bosta, amados.

Louvemos a deus por esse agraciado presente.

"Se Jesus existisse mesmo, eu até chupava o pau dele."

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ode de sede - por hora, a molecagem.

Ah, a malandragem...

A malevolência.

O jeito de andar jogado.

O desequilíbrio entre os pés e as mãos...

Usam constantemente a malandragem como se soubessem manuseá-la. Querem enfiar a mão por dentro do decote alheio a qualquer custo.

[não sentem vergonha disso]

A arma mais perigosa que um falo espertinho pode possuir.

E eu, que depois de aprender a mentir para os homens, peguei essa ação desumana como regra: gosto de menininhos indefesos que se acreditam muito poderosos. Se meus quadris acompanharem a dança lenta desses pés, o gozo será imediato. Haverá uma invasão de suor

e rios de cabelos nos travesseiros do Bob Esponja

e cuecas minúsculas caídas pelo chão do quarto

e camisinhas refrescantes (ora aquelas que esquentam)

e cadarços segurando as bermudas largas daqueles corpinhos sem bunda

e pílulas do dia seguinte.

Não. Não há nada mais doce.

[não posso enxergar, onde está?]

Nada é mais açucarado do que aquela voz tentando escalar a minha suposta grandiosidade intelectual,

a minha falta de vergonha,

a minha necessidade de afronta,

o meu ataque mais letal: a capacidade de enganar.

[olhos balouçantes, molengos]

{quentes}

São ventríloquos. Na minha mão, são ventríloquos. Para os quais eu conto historias

[mas antes disso, ouço historias desinteressantes só para ver naqueles olhinhos a felicidade por estarem enchendo a mulher amada de curiosidade.]

para os quais eu dou meus ombros afim de que repousem ofegantes.

Moleques são mais amorosos. Eles não tentam dar uma aula sobre o bouquet daquele vinho Frances,

[que eu costumo roubar no Pão de Açúcar, sempre acompanhada de um molecote gentil]

ou sobre o quão difícil é sair de casa, pois eles já passaram por isso.

Eles querem, incessantemente e somente, arrancarem risos eufóricos da minha garganta.

Eles querem fazer careta ao embeber meu Royal Salute.

Eles querem me provar, por tudo aquilo que é mais sublime no mundo, que:

The Doors > Led Zeppelin.

. . .

Apaixonantes.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Para o bem. E para o mal.

quisera eu
poder tocar
sua nudez

agora.

Fantasmas e espelhos - recorte número 01.

Os fantasmas não se olhavam em espelhos.

Vagavam pelos grandes corredores, pelas grandes salas e quartos, pelos jardins, flutuando em seus sofrimentos ininterruptos. O sofrimento dos mortos presos ao mundo dos vivos é perene, assim como, às vezes, o sofrimento dos vivos por alguns mortos. Mas, eles sabiam, não havia dor pior do que a do espelho. Um fantasma que visse seu reflexo atrás da película de vidro imploraria por mais uma morte.

Ninguém, vivo ou morto, jamais teve coragem de fuçar as escrituras, fazer experiências, tentar rituais ou banimentos que explicassem ou que curassem aquele fenômeno horrendo.

Quando algum dos fantasmas errava os caminhos de sua macabra peregrinação entre os espaços do casarão e eventualmente se encontrava com o grande espelho da antiga matriarca - o único que não pôde ser destruído pelas almas penadas -, os gritos de desespero eram ouvidos a longas distâncias. E para os outros fantasmas era até possível sentir um pouco da dor daquele espírito torturado por sua própria imagem, porque sabiam, por experiência própria ou por força de lenda, que aquela dor estava penetrando aquela alma com a maior agudeza do universo. Os ouvintes dos berros, se tivessem corpos, se arrepiariam.

Sempre que os fantasmas presenciavam alguma morte e podiam instruir algum pobre espírito novato, o Grande Aviso era este mesmo: “Nunca olhe para um espelho, fuja da possibilidade de ver seu reflexo”. Era como uma lenda universal que todos sabiam ser verdadeira. Os fantasmas não se olhavam em espelhos.

Às vezes, alguns vivos se encorajavam dentro dos territórios assombrados da grande mansão. Alguns pretendiam tomar e reformar o lugar para viver (pretensões sempre frustradas), outros, principalmente jovens, adentravam o escuro só pelo vibrar dos nervos. Em uma dessas aventuras, uma criança presenciou o encontro de um fantasma com seu reflexo. O garoto viu o espírito contorcer-se, gritando, como se estivesse sendo queimado por sua própria visão, como se um pequeno inferno estivesse tocando-o, vindo do outro lado do vidro. A alma urrava, e o sofrimento era exalado, como vapor, naquele quarto. O espírito evaporou numa nuvem de choro e agonia depois de minutos de tortura. A criança nunca mais falou sequer uma palavra em sua vida, e nunca mais sorriu. Seus olhos, até hoje, são mais apegados a uma visão desfocada para o horizonte do que a qualquer outra.

Os fantasmas não se olhavam em espelhos. Os reflexos lhes mostravam todos os seus mais porcos defeitos, suas maldades escancaradas, suas cicatrizes abertas, suas frustrações, suas máscaras quebradas, suas dívidas pendentes. Um choro constante, imortal. Os fantasmas não se olhavam em espelhos. Nunca suportariam. Sabiam que as almas, ao contrário do belo receptáculo de carne humano, são horríveis.


H.G.S.